Diretrizes Atualizadas para Manejo do Diabetes Mellitus Tipo 1, Tipo 2 e Gestacional
Para o manejo ambulatorial e de pronto-socorro do diabetes, utilize os critérios diagnósticos da ADA 2023-2025 e inicie tratamento baseado em insulina para DM1, metformina para DM2, e insulina ou metformina para DMG, com metas glicêmicas individualizadas conforme o tipo de diabetes.
CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS
Diabetes Mellitus Tipo 1 e Tipo 2 1, 2
O diagnóstico requer dois resultados anormais (da mesma amostra ou em dias diferentes), exceto quando glicemia ≥200 mg/dL com sintomas:
- Glicemia de jejum ≥126 mg/dL (jejum ≥8 horas)
- Glicemia 2h pós-TOTG 75g ≥200 mg/dL (jejum ≥8 horas)
- HbA1c ≥6.5% (método certificado NGSP)
- Glicemia aleatória ≥200 mg/dL + sintomas (poliúria, polidipsia, polifagia)
Pré-diabetes 2:
- Glicemia de jejum: 100-125 mg/dL
- Glicemia 2h pós-TOTG: 140-199 mg/dL
- HbA1c: 5.7-6.4% (apenas para rastreamento)
Distinção DM1 vs DM2 2
DM1 é caracterizado por:
- Deficiência insulínica acentuada
- Autoanticorpos positivos: anti-GAD65, anti-IA2, anti-ZnT8, anti-insulina
- Apresentação clássica com cetoacidose em ~33% das crianças
- Início pode ser variável em adultos
DM2 é caracterizado por:
- Perda progressiva de função de células β
- Resistência insulínica variável
- Frequentemente assintomático por anos
- Rastreamento obrigatório em adultos ≥35 anos com fatores de risco 2
Diabetes Mellitus Gestacional 1, 3, 4
Rastreamento precoce (<15 semanas):
- Teste todas gestantes com fatores de risco usando critérios diagnósticos padrão
- Fatores de risco: DMG prévio, obesidade, idade >35 anos, história familiar, etnia de alto risco
- Glicemia de jejum 110-125 mg/dL ou HbA1c 5.9-6.4% indica metabolismo glicêmico anormal de alto risco
Diagnóstico de Diabetes Overt na Gravidez (qualquer momento):
- Glicemia de jejum ≥126 mg/dL
- Glicemia aleatória ≥200 mg/dL
- HbA1c ≥6.5%
Diagnóstico de DMG (24-28 semanas) 3, 4:
Estratégia em 1 etapa (IADPSG - recomendada pela ADA):
- TOTG 75g com jejum ≥8h
- Diagnóstico com ≥1 valor alterado:
- Jejum: ≥92 mg/dL (5.1 mmol/L)
- 1h: ≥180 mg/dL (10.0 mmol/L)
- 2h: ≥153 mg/dL (8.5 mmol/L)
Estratégia em 2 etapas (alternativa):
- Etapa 1: Teste 50g glicose (sem jejum), 1h
- Se ≥130,135 ou 140 mg/dL → prosseguir para etapa 2
- Etapa 2: TOTG 100g com jejum
- Diagnóstico com ≥2 valores alterados:
- Jejum: ≥95 mg/dL
- 1h: ≥180 mg/dL
- 2h: ≥155 mg/dL
- 3h: ≥140 mg/dL
METAS GLICÊMICAS
DM1 e DM2 Não-Gestantes 5, 2
Meta geral: HbA1c ≤6.5% se alcançável com segurança 2
Para atingir HbA1c ≤6.5%:
- Glicemia de jejum: <110 mg/dL
- Glicemia pós-prandial 2h: <140 mg/dL
Individualizar metas baseado em:
- Duração do diabetes
- Idade/expectativa de vida
- Comorbidades
- Doença cardiovascular conhecida ou complicações microvasculares avançadas
- Hipoglicemia despercebida
- Considerações individuais do paciente
Gestantes com DMG 5, 3
Metas de glicemia capilar materna:
- Jejum: <95 mg/dL (5.3 mmol/L)
- 1h pós-prandial: <140 mg/dL (7.8 mmol/L) OU
- 2h pós-prandial: <120 mg/dL (6.7 mmol/L)
Gestantes com DM1 ou DM2 Pré-existente 5
Metas ótimas (se alcançáveis sem hipoglicemia excessiva):
- Pré-refeição, deitar e noturna: 60-99 mg/dL (3.3-5.4 mmol/L)
- Pico pós-prandial: 100-129 mg/dL (5.4-7.1 mmol/L)
- HbA1c: <6.0%
TRATAMENTO AMBULATORIAL
Diabetes Mellitus Tipo 1 5, 3
Terapia insulínica obrigatória:
Regime preferencial:
- Múltiplas injeções diárias (MDI): 3-4 injeções/dia de insulina basal + prandial
- Infusão subcutânea contínua (bomba): alternativa equivalente
Educação essencial:
- Ajustar dose de insulina prandial conforme: ingestão de carboidratos, glicemia pré-refeição, atividade antecipada
- Contagem de carboidratos
Escolha de insulina:
- Análogos de insulina para maioria dos pacientes (especialmente com hipoglicemia)
- Para hipoglicemia noturna frequente ou despercebida: considerar bomba com suspensão automática por limiar baixo
Monitorização:
- Glicemia capilar: ≥4x/dia para pacientes em MDI (a menos que use MCG) 3
- MCG em tempo real: usar em adolescentes e adultos com DM1 não atingindo metas ou com hipoglicemia 3
Rastreamento de comorbidades autoimunes:
- Disfunção tireoidiana
- Deficiência de vitamina B12
- Doença celíaca
Diabetes Mellitus Tipo 2 5
Monoterapia inicial:
Metformina (primeira linha):
- Eficácia: alta redução de HbA1c
- Hipoglicemia: baixo risco
- Peso: neutro/perda
- Efeitos adversos: gastrointestinais, acidose láctica (raro)
- Custo: baixo
Se HbA1c não atingir meta após ~3 meses, adicionar segundo agente:
Opções de combinação com metformina:
Sulfonilureia
- Hipoglicemia: alto risco
- Peso: ganho
- Custo: baixo
Tiazolidinediona
- Hipoglicemia: baixo risco
- Peso: ganho
- Efeitos adversos: edema, insuficiência cardíaca, fraturas
- Custo: alto
Inibidor DPP-4
- Hipoglicemia: baixo risco
- Peso: neutro
- Custo: alto
Agonista receptor GLP-1
- Hipoglicemia: baixo risco
- Peso: perda
- Efeitos adversos: gastrointestinais
- Custo: alto
Insulina (geralmente basal)
- Hipoglicemia: alto risco
- Peso: ganho
- Custo: variável
Diabetes Mellitus Gestacional 6, 7, 8
Abordagem sequencial:
1. Modificação do estilo de vida (SEMPRE primeiro):
- Aconselhamento nutricional obrigatório
- Automonitorização glicêmica: jejum + pós-prandial
- Atividade física de intensidade moderada (se não contraindicada)
- 80-90% das mulheres com DMG leve podem ser manejadas apenas com estilo de vida
2. Farmacoterapia (se metas não atingidas com estilo de vida):
Insulina (primeira escolha): 6
- Agente preferencial para DMG e diabetes pré-gestacional
- Múltiplas injeções diárias ou bomba (sem superioridade comprovada)
- Não atravessa placenta
Metformina (alternativa aceitável): 6, 8
- Atravessa placenta (níveis no cordão > níveis maternos)
- Comparada à insulina: provavelmente reduz admissão em UTI neonatal e hipoglicemia neonatal 8
- ~50% das pacientes necessitarão adicionar insulina
- Pode aumentar ligeiramente risco de prematuridade
- Dados de segurança a longo prazo ausentes
- Pacientes devem ser informadas sobre passagem placentária
- Níveis no cordão ~70% dos níveis maternos
- Maior taxa de hipoglicemia neonatal e macrossomia vs insulina ou metformina
- Metformina superior à glibenclamida em desfechos maternos e neonatais 8
Monitorização:
- Glicemia capilar: jejum + pós-prandial 3
- Ultrassonografia regular
- Vigilância fetal
TRATAMENTO NO PRONTO-SOCORRO
Cetoacidose Diabética 3
Diagnóstico:
- Hiperglicemia inexplicada ou sintomas de cetose (dor abdominal, náusea)
- Medir β-hidroxibutirato no sangue (método preferencial)
- Não usar métodos baseados em reação de nitroprusside para monitorar tratamento
Indicações para teste de cetonas:
- DM1
- História de cetoacidose
- Uso de inibidores SGLT2
- Gestantes (estado cetogênico, limiar glicêmico mais baixo)
Hipoglicemia
DM1:
- Risco aumentado no primeiro trimestre da gestação
- Resposta contrarreguladora alterada na gravidez
- Educação para paciente e família sobre prevenção, reconhecimento e tratamento
Gestantes:
- Lactação aumenta risco de hipoglicemia noturna
- Ajustar doses de insulina
SEGUIMENTO PÓS-PARTO (DMG) 3, 1, 7
Avaliação imediata (4-12 semanas pós-parto):
- TOTG 75g obrigatório usando critérios não-gestacionais
- Não usar HbA1c isoladamente
Seguimento a longo prazo:
- Rastreamento vitalício para diabetes/pré-diabetes: a cada 1-3 anos 3, 7
- Risco de DM2: 50-60% ao longo da vida 7
- Risco absoluto aumenta linearmente: 20% aos 10 anos, 30% aos 20 anos, 40% aos 30 anos
Prevenção:
- Modificação do estilo de vida: reduz progressão para diabetes em 35% em 10 anos 7
- Metformina: reduz progressão em 40% em 10 anos 7
- Apenas 5-6 mulheres com pré-diabetes e história de DMG precisam ser tratadas para prevenir 1 caso de diabetes em 3 anos
Amamentação:
- Fortemente recomendada
- Reduz risco de DM2 materno (OR 0.68) 7
- Benefícios metabólicos para mãe e filho
ARMADILHAS COMUNS
Não diagnosticar diabetes overt como DMG: Glicemia de jejum ≥126 mg/dL ou HbA1c ≥6.5% no início da gravidez = diabetes pré-existente, não DMG
Usar HbA1c para diagnóstico de DMG após 15 semanas: Não confiável devido ao aumento do turnover de hemácias na gravidez 4
Não rastrear DMG antes de 24 semanas em alto risco: Mulheres com fatores de risco devem fazer TOTG já no primeiro trimestre 1
Iniciar glibenclamida em DMG: Metformina ou insulina são superiores 8
Não fazer seguimento pós-parto: 80% das mulheres com DMG não fazem TOTG pós-parto, perdendo oportunidade de prevenção
Usar critérios diagnósticos inconsistentes: Prevalência de DMG varia de 3.1% a 10.3% dependendo dos critérios 9; usar critérios ADA/IADPSG para consistência
Não individualizar metas de HbA1c: Metas muito rigorosas aumentam hipoglicemia; muito frouxas aumentam complicações