Prescrição de Alta para Paciente com Exacerbação de DPOC
A paciente deve receber terapia de manutenção com broncodilatadores de longa ação (LABA e/ou LAMA) iniciada imediatamente antes da alta hospitalar, sem necessidade de corticoide inalatório (ICS) adicional dado o eosinófilo <300 células/µL. 1
Componentes Essenciais da Prescrição de Alta
1. Broncodilatadores de Longa Ação (Prioridade Máxima)
A diretriz GOLD 2017 é explícita: a terapia de manutenção com broncodilatadores de longa ação deve ser iniciada o mais rápido possível antes da alta hospitalar 1. Esta é uma recomendação fundamental baseada em evidências de que isso reduz morbimortalidade e previne futuras exacerbações.
Prescreva:
- LAMA (anticolinérgico de longa ação): Tiotrópio 18 mcg 1x/dia OU
- LABA + LAMA (terapia dupla): Indacaterol/Glicopirrônio, Formoterol/Aclidínio, ou Vilanterol/Umeclidínio
A terapia dupla LABA+LAMA é preferível se a paciente teve exacerbação grave necessitando hospitalização, pois oferece maior proteção contra futuras exacerbações.
2. Corticoide Inalatório: NÃO Indicado Neste Caso
Com eosinófilos <300 células/µL, NÃO adicione corticoide inalatório (ICS) à prescrição de alta. 2, 3
Raciocínio:
- A evidência mostra que exacerbações com eosinófilos baixos (<0.3 × 10⁹/L) respondem menos aos corticoides 1, 2
- O estudo CORTICO-COP (2019) demonstrou que guiar terapia por eosinófilos reduz exposição a corticoides sistêmicos sem comprometer desfechos 2
- ICS prescrito fora das indicações aumenta risco de pneumonia e outros eventos adversos sem benefício clínico 3
- A prescrição excessiva de ICS é comum na prática (86% fora das diretrizes GOLD) e deve ser evitada 3
Armadilha comum: Muitos médicos prescrevem ICS rotineiramente após exacerbações. Resista a isso quando eosinófilos <300.
3. Corticoide Sistêmico: NÃO Prolongar
NÃO prescreva corticoide oral na alta. A paciente já completou 5 dias de corticoide sistêmico durante a internação, o que é adequado 4.
Evidência:
- Corticoides sistêmicos após exacerbação reduzem recorrência apenas nos primeiros 30 dias 4
- Não há benefício em prolongar além de 5 dias 4
- Os riscos (hiperglicemia, infecções, osteoporose) superam qualquer benefício teórico de uso prolongado 4
4. Antibiótico: NÃO Prescrever na Alta
A paciente já completou o curso de antibióticos. Não prescreva antibiótico profilático na alta 5. Antibióticos são indicados apenas para tratar exacerbações agudas com sinais de infecção bacteriana, não para prevenção de rotina.
5. Medidas de Prevenção de Exacerbações
Prescreva e documente:
- Cessação do tabagismo: Encaminhe para programa de cessação se fumante ativa
- Vacinação: Verifique status vacinal
- Influenza anual
- Pneumocócica (PCV13 e PPSV23 conforme indicação)
- COVID-19 atualizada
- Reabilitação pulmonar: Encaminhamento formal para programa ambulatorial (reduz readmissões e melhora qualidade de vida) 6
- Consulta de seguimento: Agendar retorno em pneumologia em 2-4 semanas 7, 6
6. Educação sobre Técnica Inalatória
Essencial antes da alta:
- Demonstrar e observar a paciente usar o dispositivo inalatório
- Fornecer instruções escritas
- Documentar que a técnica foi verificada 6
Armadilha: Até 70% dos pacientes usam inaladores incorretamente, comprometendo eficácia.
7. Considerar Azitromicina Profilática (Opcional)
Se a paciente tem ≥2 exacerbações/ano apesar de terapia inalatória otimizada, considere:
- Azitromicina 250 mg 3x/semana (segunda, quarta, sexta) 4
Cuidados:
- Avaliar QTc basal (risco de prolongamento QT)
- Avaliar audição basal (risco de perda auditiva)
- Considerar resistência bacteriana
- Não indicado rotineiramente, apenas em exacerbadores frequentes 4
Prescrição de Alta Modelo
1. Tiotrópio 18 mcg - 1 cápsula inalatória 1x/dia
OU
Indacaterol/Glicopirrônio 110/50 mcg - 1 cápsula inalatória 1x/dia
2. Salbutamol spray 100 mcg - 2 jatos se necessário para dispneia (máximo 8x/dia)
3. Orientações:
- Demonstrada e verificada técnica inalatória
- Encaminhamento para reabilitação pulmonar
- Retorno pneumologia em 2-4 semanas
- Orientação sobre sinais de alarme para nova exacerbação
- Verificar vacinação (influenza, pneumococo, COVID-19)
- Cessação tabágica [se aplicável]Pontos Críticos de Segurança
- Não prescrever ICS com eosinófilos <300: Aumenta risco de pneumonia sem benefício 2, 3
- Não prolongar corticoide sistêmico: Sem benefício após 5 dias, apenas riscos 4
- Iniciar broncodilatador de longa ação antes da alta: Reduz readmissões 1, 7
- Garantir seguimento ambulatorial precoce: Reduz readmissões em 30 dias 6
Esta abordagem baseada em evidências prioriza eficácia, segurança e prevenção de futuras exacerbações, evitando sobretratamento com corticoides quando não indicado.