Conduta Imediata: Trauma Grave com Choque Hemorrágico Oculto
Esta paciente menor de idade apresenta choque hemorrágico (PA 80/60 mmHg) após trauma de moto sem capacete e requer reanimação agressiva imediata com cristaloides isotônicos, investigação urgente da fonte de sangramento oculto, e manutenção de pressão arterial sistólica >110 mmHg (PAM >90 mmHg) devido ao risco de traumatismo cranioencefálico (TCE) grave.
Prioridades Iniciais de Reanimação
Avaliação e Estabilização Hemodinâmica
A hipotensão (PA 80/60 mmHg) em uma vítima de trauma sem sangramento evidente indica sangramento interno significativo até prova em contrário. A saturação de 95% sugere comprometimento respiratório leve que pode piorar rapidamente.
Alvos de Pressão Arterial:
- PA sistólica >110 mmHg e PAM >90 mmHg devem ser mantidas devido ao mecanismo de trauma (moto sem capacete) que indica alto risco de TCE grave 1
- Em trauma isolado sem TCE, o alvo seria PA sistólica 80-90 mmHg, mas o mecanismo aqui exige abordagem mais agressiva 2
Reposição Volêmica Imediata
Iniciar bolus de cristaloide isotônico:
- Solução salina 0,9% ou cristaloide balanceado: 20 mL/kg em bolus 3, 4
- Repetir bolus de 20 mL/kg se a perfusão sistêmica não melhorar 3
- Evitar Ringer lactato se houver suspeita de TCE grave (solução hipotônica) 2
Vasopressores se necessário:
- Se a estratégia de reposição volêmica não mantiver a PA alvo, adicionar noradrenalina 4
- Ter efedrina ou metaraminol disponíveis para hipotensão imediata 1
Investigação Urgente do Sangramento Oculto
Fontes Mais Prováveis
Em trauma de moto com hipotensão sem sangramento externo evidente:
- Sangramento intra-abdominal (lesão de órgãos sólidos: baço, fígado)
- Fratura pélvica com sangramento retroperitoneal
- Hemotórax
- Sangramento intracraniano (hematoma epidural/subdural)
Exames Diagnósticos Imediatos
Enquanto realiza reanimação:
- FAST (ultrassom à beira do leito): detectar líquido livre abdominal, hemotórax, hemopericárdio 4
- Radiografia de tórax: pneumotórax, hemotórax, contusão pulmonar
- Radiografia de pelve: fratura pélvica
Após estabilização inicial:
- TC de crânio, coluna cervical, tórax, abdome e pelve (protocolo de politrauma) 1
- Gasometria arterial: avaliar oxigenação, lactato (hipoperfusão tecidual), déficit de base 4
- Hemograma, coagulograma, eletrólitos, glicemia 1
Manejo Específico por Sistema
Via Aérea e Respiração
Critérios para intubação orotraqueal:
- Glasgow ≤8
- Deterioração do nível de consciência
- Incapacidade de manter PaO₂ ≥13 kPa (ou saturação ≥95%)
- Hipercarbia (PaCO₂ >6 kPa)
- Sangramento abundante na boca 1
Se intubação necessária:
- Estabilização manual em linha da coluna cervical (assumir lesão cervical até prova contrária)
- Indução em sequência rápida
- Ketamina 1-2 mg/kg é preferível em pacientes hemodinamicamente instáveis 1
- Manter PAM adequada durante intubação
Controle de Sangramento
Se fratura pélvica identificada:
- Aplicar cinta pélvica imediatamente para limitar sangramento 4
- Considerar embolização angiográfica ou tamponamento extraperitoneal se sangramento persistente 4
Se sangramento abdominal:
- Cirurgia de controle de danos se choque hemorrágico profundo, sinais de sangramento contínuo e coagulopatia 2, 4
- Não retardar cirurgia para acelerar transferência se sangramento não controlado 1
Proteção Cerebral
Assumir TCE grave até prova contrária (trauma de moto sem capacete):
- Manter PA sistólica >110 mmHg e PAM >90 mmHg 1
- Manter PaCO₂ 4,5-5,0 kPa (normocapnia) - evitar hiperventilação de rotina 1
- Manter normotermia (36-37°C) 1
- Glicemia 6-10 mmol/L 1
- Não hiperventilação de rotina - apenas se sinais de herniação cerebral iminente 3
Questões Legais e Éticas
Consentimento em Menor Desacompanhado
Proceder com tratamento de emergência sem consentimento parental:
- Situação de emergência com risco de vida justifica tratamento imediato
- Documentar tentativas de contatar responsáveis
- Acionar serviço social e conselho tutelar
- Tratamento não pode ser retardado pela ausência do responsável
Documentação Obrigatória
- Mecanismo de trauma detalhado
- Hora de chegada e estado inicial
- Todas as intervenções e horários
- Tentativas de contato com responsáveis
- Notificação ao conselho tutelar (menor desacompanhado)
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não subestimar sangramento oculto: PA 80/60 mmHg indica perda volêmica significativa mesmo sem sangramento visível
- Não usar apenas PA sistólica como alvo: em TCE potencial, PAM >90 mmHg é crítica para perfusão cerebral
- Não retardar investigação por ausência de responsável: emergência médica prevalece
- Não usar Ringer lactato se TCE grave confirmado ou suspeito
- Não hiperventilação profilática: pode piorar desfecho neurológico 3
- Não assumir estabilidade: paciente pediátrico pode compensar até descompensação súbita
Disposição e Transferência
Se recursos locais inadequados: