Resumão de Nefrologia: Doenças, Etiologia, Sintomas, Tratamento e Radiologia
Lesão Renal Aguda (LRA/AKI)
A lesão renal aguda é definida por aumento da creatinina ≥0,3 mg/dL em 48 horas ou aumento de 1,5x o valor basal em 7 dias, afetando 20% dos pacientes hospitalizados e até 60% dos críticos, com impacto significativo na morbimortalidade 1.
Etiologia - Classificação em 3 Categorias
Pré-renal (mais comum):
- Hipotensão, hipovolemia, débito cardíaco reduzido
- Oclusão da artéria renal
Renal (mais comum junto com pré-renal - >97% dos casos):
- Necrose tubular aguda
- Glomerulonefrite
- Vasculite
- Nefrite intersticial
- Drogas e toxinas
- Infecção/infiltração renal
Pós-renal (rara - <3%):
- Obstrução ureteral, vesical ou uretral 1
Avaliação Diagnóstica
Laboratório obrigatório:
- Creatinina sérica, ureia
- Hemograma completo
- Urina tipo I com sedimento (cilindros, células epiteliais)
- Química urinária e biomarcadores 1
Biópsia renal: Indicada para diferenciar síndromes nefrítica vs nefrótica 1
Radiologia na LRA
Ultrassom (US) - PRIMEIRA LINHA:
- Sem radiação
- Avalia tamanho renal, simetria, obstrução
- Contraste ultrassonográfico NÃO é nefrotóxico - ideal para avaliar perfusão microvascular, necrose cortical aguda e infarto 1
TC sem contraste:
- Evitar contraste iodado na LRA exceto quando absolutamente necessário
- Usar apenas se pergunta clínica não puder ser respondida por outro método 1
RM:
- Técnicas sem contraste (ARM sem gadolínio) são diagnósticas
- Se contraste necessário: usar agentes Grupo II em dose mínima
- Pacientes em hemodiálise podem receber contraste se sem função renal residual 1
Doença Renal Crônica (DRC/CKD)
A DRC afeta 10% da população mundial, definida como anormalidade estrutural ou funcional renal presente por >3 meses, com hipertensão e diabetes como principais fatores de risco 1.
Estadiamento (5 Estágios por TFG)
- Estágio 1-4: TFG progressivamente reduzida
- Estágio 5: TFG <15 mL/min/1,73m² = falência renal 1
Detecção e Confirmação
Testes obrigatórios:
- TFG estimada por creatinina (TFGe-cr)
- Se cistatina C disponível: usar TFGe-cr-cys (combinação creatinina + cistatina C) 2
- Relação albumina/creatinina urinária (marcador sensível e específico) 1
Confirmar cronicidade (>3 meses) por:
- Revisão de TFG e albuminúria prévias
- Imagem: rins pequenos ecogênicos, redução cortical
- Histologia: fibrose, atrofia
- História clínica de condições causadoras de DRC
- Repetir medidas além dos 3 meses 2
ARMADILHA: Não assumir cronicidade com único valor anormal - pode ser LRA ou doença renal aguda 2
Investigação Etiológica
História essencial:
- História familiar (causas genéticas: APOL1, COL4A3/4/5, PKD1/2)
- Fatores socioambientais
- Medicações
- Exame físico completo 2
Testes adicionais conforme recursos:
- Sorologias: anti-PLA2R, ANCA, anti-MBG, cadeias leves séricas
- Eletroforese proteica sérica/urinária
- Sedimento urinário (hematúria persistente + albuminúria = crítico para diagnóstico diferencial) 3
Biópsia renal: Teste diagnóstico aceitável e seguro para avaliar causa e guiar tratamento quando clinicamente apropriado 2, 3
Radiologia na DRC
Ultrassom - PRIMEIRA LINHA:
- Avalia estrutura: tamanho, forma, simetria, obstrução
- Achados diagnósticos: rins pequenos ecogênicos, rins displásicos/policísticos, cicatrizes, hidronefrose 1
- Elastografia por ondas de cisalhamento: avalia fibrose (correlação em nefropatia por IgA)
- US com contraste: avalia perfusão microvascular (não nefrotóxico) 1, 4
TC/RM:
- Papel estrutural, especialmente em doenças sistêmicas (nefropatia por IgG4, vasculites) 4, 5
- RM multiparamétrica: perfusão, microestrutura tecidual (DWI, ASL, BOLD) 4
- Contraste: avaliar risco-benefício baseado no nível e agudeza da doença renal 1
Medicina Nuclear:
- Informação molecular complementar
- Aplicações exploratórias em vasculite ANCA, avaliação cortical/fibrótica 4
Síndromes Glomerulares
Síndrome Nefrítica
Constelação de hematúria, proteinúria, hipertensão, e em alguns casos LRA e retenção hídrica, característica de glomerulonefrite aguda 6.
Causas principais:
- Glomerulonefrite pós-infecciosa
- Nefropatia por IgA
- Nefrite lúpica
- Glomerulonefrite membranoproliferativa
- Vasculite associada a ANCA 6
Apresentação clínica:
- Hematúria (urina "cor de coca-cola")
- Proteinúria (geralmente <3,5g/24h)
- Hipertensão
- Edema
- Oligúria possível 6, 7
Síndrome Nefrótica
Tríade: edema, proteinúria maciça (>3,5g/24h) e hipoalbuminemia (<30g/L), frequentemente com hiperlipidemia, tromboembolismo e risco aumentado de infecção 8.
Causas por população:
- Crianças: Doença de lesões mínimas (mais comum)
- Adultos brancos: Nefropatia membranosa
- População africana: Glomeruloesclerose segmentar e focal
- Doença sistêmica mais comum: Nefropatia diabética 8
Apresentação clínica:
Avaliação:
- Proteinúria quantitativa: relação proteína/creatinina (RPC) >300-350 mg/mmol = faixa nefrótica
- Referência urgente ao nefrologista (idealmente <2 semanas)
- Biópsia renal geralmente necessária para diagnóstico definitivo 8
Nefropatia Membranosa
Doença autoimune geralmente associada a síndrome nefrótica, podendo progredir para DRC terminal, com lesões glomerulares causadas por autoanticorpos contra receptor de fosfolipase A2 tipo M (PLA2R) nos podócitos 9.
Tratamento:
- Proteinúria assintomática não-nefrótica: apenas manejo conservador
- Síndrome nefrótica persistente ou função renal em declínio: tratamento específico
- Terapia cíclica: glicocorticoides IV/oral alternados mensalmente + citotóxico
- Ciclosporina/tacrolimus: induzem remissão, mas recidivas frequentes após suspensão
- Rituximabe: alta taxa de remissão, boa tolerância 9
Nefropatia Isquêmica
Insuficiência renal secundária a estenose ou obstrução das artérias renais principais, causa crescente de insuficiência renal 10.
Diagnóstico:
- Ultrassom Doppler: primeira linha quando tecnólogo experiente disponível (não invasivo, baixo custo)
- Angiografia por RM e angioTC espiral: papel auxiliar
- Cintilografia com captopril: quando positiva, indica ativação do sistema renina-angiotensina intrarrenal, útil para decidir entre revascularização vs observação 10
Tratamento:
- Angioplastia transluminal percutânea: pedra angular da estratégia terapêutica
- Stent metálico: melhora dramática da eficácia em estenoses ostiais
- Revascularização cirúrgica: indicações reduzidas 10
Considerações Especiais de Contraste
Contraste iodado:
- Evitar na LRA exceto necessidade absoluta
- Na DRC: avaliar risco-benefício baseado no nível e agudeza da doença
- Pacientes em diálise sem função residual: podem receber contraste 1
Gadolínio:
- Técnicas de ARM sem contraste podem ser diagnósticas
- Se necessário: agentes Grupo II em dose mínima
- Pacientes em hemodiálise: podem receber agentes Grupo II seguindo diretrizes de segurança 1
Contraste ultrassonográfico:
- NÃO nefrotóxico - agentes ideais para imagem microvascular na LRA ou DRC 1
Biópsia Renal - Técnica
A biópsia renal requer avaliação completa por microscopia óptica (MO), imunofluorescência (IF) e microscopia eletrônica (ME) para diagnóstico máximo 11.
Processamento:
- MO: múltiplas colorações (PAS, tricrômico, prata)
- IF: anticorpos para IgG, IgA, IgM, C3, C1q, cadeias leves
- ME: fixação em glutaraldeído 2-3% ou paraformaldeído 1-4% 11
Tempo de resposta:
- MO e IF: 2 dias
- ME: 3-5 dias 11
Diagnósticos perdidos sem IF:
- Doenças por cadeias leves (amiloidose AL, doença por depósito de Ig monoclonal)
- Nefropatia por IgA/púrpura de Henoch-Schönlein
- Doença anti-MBG
- Rejeição humoral de transplante (C4d) 11
Diagnósticos perdidos sem ME:
- Glomerulopatia fibrilar/imunotactóide
- Síndrome unha-patela
- Doença de depósito denso
- Síndrome de Alport
- Nefropatia de membrana basal fina 11