Relação da Albumina com o Fígado
A albumina sérica é um marcador direto da função de síntese hepática, pois o fígado é o único órgão que produz albumina, e sua concentração reflete a capacidade funcional dos hepatócitos.
Albumina como Indicador da Função Hepática
A albumina é a proteína plasmática mais abundante e é sintetizada exclusivamente pelo fígado 1, 2. Quando a função hepática está comprometida, a concentração de albumina sérica diminui significativamente, tornando-a um verdadeiro índice da função hepática 3.
Diferentemente das enzimas hepáticas que apenas indicam dano hepatocelular, a albumina reflete quantitativamente a capacidade funcional do fígado 3. Em doenças hepáticas avançadas como cirrose, a hipoalbuminemia resulta de:
- Redução da massa de hepatócitos funcionantes
- Alterações estruturais da molécula de albumina
- Dano oxidativo que compromete sua função 1, 4
Conceito de Concentração Efetiva de Albumina
Na cirrose avançada, não apenas a concentração de albumina está reduzida, mas também sua função está comprometida 2. Isso levou ao conceito de "concentração efetiva de albumina" (eAlb) - a concentração plasmática não reflete adequadamente sua função biológica 5. Na doença hepática, a função da albumina pode ser várias vezes menor que sua concentração medida 2.
Alterações Funcionais na Cirrose
Em pacientes cirróticos, ocorrem modificações específicas da molécula de albumina que alteram suas propriedades:
- Funções oncóticas: manutenção da pressão oncótica
- Funções não-oncóticas: imunomodulação, estabilização endotelial, efeitos antioxidantes, ligação de drogas e toxinas 1, 2
Na insuficiência hepática aguda-sobre-crônica, aumentam substancialmente as isoformas oxidadas e tóxicas da albumina (não-mercaptoalbumina e nitrosoalbumina) 4.
Implicações Clínicas na Doença Hepática
Valor Diagnóstico e Prognóstico
A determinação da albumina sérica é valiosa para:
- Diagnóstico de doença hepática 3
- Monitoramento do tratamento 3
- Avaliação prognóstica: hipoalbuminemia está consistentemente associada a desfechos ruins 6
Uso Terapêutico da Albumina
Baseado nas diretrizes da AGA de 2024, a albumina intravenosa tem indicações específicas e limitadas na cirrose 7:
Indicações estabelecidas:
- Peritonite bacteriana espontânea (PBE): 1,5 g/kg no dia 1 e 1 g/kg no dia 3, junto com antibióticos 7
- Paracentese de grande volume
- Síndrome hepatorrenal com lesão renal aguda
Contraindicações:
- Ascite não complicada (hospitalizado ou ambulatorial): albumina não deve ser usada 7
- Infecções que não sejam PBE (a menos que associadas a lesão renal aguda) 7
Armadilhas Importantes
Risco de edema pulmonar: estudos mostraram maior taxa de edema pulmonar em pacientes que receberam grandes quantidades de albumina 7
Evidência contraditória sobre uso crônico: embora alguns estudos não-cegos sugiram benefício de mortalidade com infusões semanais de albumina, o estudo MACHT (placebo-controlado) não encontrou diferenças na mortalidade 7
Interpretação nutricional: mudanças na albumina sérica devem ser interpretadas com cautela na avaliação nutricional, pois seu significado clínico depende da fonte (endógena vs. exógena) e de fatores fisiológicos não-nutricionais 6
Monitoramento da Função Hepática
Para avaliação da função hepática, a albumina sérica fornece informação complementar essencial, mas deve ser interpretada considerando:
- Presença de inflamação sistêmica
- Estado de hidratação e redistribuição de fluidos
- Extravasamento capilar
- Administração exógena de albumina 6
A albumina permanece um biomarcador prognóstico crítico e alvo terapêutico na doença hepática, mas seu uso terapêutico deve seguir indicações específicas baseadas em evidências para evitar danos clínicos 5.