Roteiro de Anamnese para Dor Crônica na Atenção Primária
Todo paciente com dor crônica na atenção primária deve passar por uma avaliação estruturada em três dimensões: história da dor, avaliação psicossocial e exame físico direcionado, documentando sistematicamente cada componente para orientar o plano terapêutico. 1
1. Triagem Inicial e Quantificação
Comece cada consulta com triagem padronizada usando escala numérica (0-10) ou verbal:
- "Você tem tido dor frequente ou persistente desde a última consulta?"
- Se sim: "Qual a intensidade média dessa dor na última semana?" 2
Defina dor crônica: dor que persiste ou recorre por mais de 3 meses 3
2. História Detalhada da Dor
Características da Dor (use o mnemônico OPQRST adaptado):
Início e Cronologia:
- Quando começou? Como começou (súbito vs gradual)?
- Evolução temporal: melhorando, piorando ou estável?
- Padrão: contínua, intermitente, episódica? 1
Qualidade e Intensidade:
- Descrição sensorial: queimação, pontada, peso, aperto, choque?
- Componente afetivo: angustiante, insuportável, frustrante?
- Intensidade atual, média e nos piores momentos 1
Localização e Distribuição:
- Onde dói? Pedir para apontar
- Irradia? Para onde?
- Única região ou múltiplas? 1
Fatores Modificadores:
- O que piora: movimentos específicos, posições, estresse, clima?
- O que alivia: repouso, medicações, calor/frio, atividades?
- Relação com alimentação, evacuação, ciclo menstrual (se aplicável) 1
Sintomas Associados:
- Alterações motoras: fraqueza, limitação de movimento
- Alterações sensitivas: formigamento, dormência, alodinia (dor ao toque leve)
- Alterações autonômicas: sudorese, mudança de temperatura/cor da pele 1
História de Tratamentos Prévios:
- Medicações tentadas (doses, duração, eficácia, efeitos adversos)
- Terapias não-farmacológicas (fisioterapia, acupuntura, psicoterapia)
- Procedimentos ou cirurgias relacionadas
- Resultados de exames diagnósticos anteriores 1
Revisão de Prontuários e História Médica:
- História médica geral: comorbidades (diabetes, câncer, doenças autoimunes)
- História cirúrgica: cirurgias prévias que possam relacionar-se com a dor
- Medicações atuais: incluindo uso inadequado ou abuso
- Alergias medicamentosas
- Revisão de sistemas: investigar sintomas constitucionais (febre, perda de peso) que sugiram doença sistêmica 1
Armadilha crítica: Em qualquer paciente com dor nova ou mudança no padrão da dor, sempre considerar recorrência de doença, segunda malignidade ou efeitos tardios de tratamento 2
3. Avaliação Psicossocial Estruturada
Esta é a dimensão mais negligenciada e mais importante para dor crônica. 1
Sintomas Psicológicos (investigar ativamente):
Ansiedade e Depressão:
- "Como está seu humor ultimamente?"
- "Você se sente ansioso ou preocupado com frequência?"
- "Perdeu interesse em atividades que antes gostava?"
- Usar escalas validadas (PHQ-9, GAD-7) quando disponível 1
Catastrofização da Dor (componente central do modelo medo-evitação):
- "Quando sente dor, você pensa que algo grave está acontecendo?" (magnificação da ameaça)
- "Você sente que não há nada que possa fazer para controlar sua dor?" (desamparo)
- Estes pensamentos amplificam a dor e levam a comportamentos de evitação 3
Expectativas Negativas:
- "O que você acha que vai acontecer com sua dor?"
- Tendência a interpretar informações ambíguas como ameaçadoras 3
Impacto Funcional (essencial documentar):
Atividades de Vida Diária:
- Autocuidado: banho, vestir-se, alimentação
- Mobilidade: caminhar, subir escadas
- Tarefas domésticas 1
Sono:
- "A dor interfere no seu sono?"
- Dificuldade para iniciar ou manter o sono
- Qualidade do sono 1
Trabalho e Ocupação:
- Status ocupacional atual
- Mudanças no trabalho devido à dor
- Afastamentos, benefícios previdenciários 1
Relacionamentos Interpessoais:
- Impacto na família, amigos, vida social
- Suporte social disponível 1
História Social Detalhada:
Uso de Substâncias (investigar sem julgamento):
- Álcool: quantidade, frequência
- Tabaco
- Drogas ilícitas
- Histórico de abuso ou dependência de opioides ou outras substâncias (fator de risco para uso inadequado) 1
Contexto Familiar:
- Estrutura familiar
- História familiar de dor crônica, transtornos psiquiátricos, uso de substâncias 1
Questões Vocacionais e Legais:
- Processos trabalhistas ou judiciais em andamento
- Envolvimento com agências de reabilitação
- Expectativas do paciente, familiares, empregador, advogado 1
Mecanismos de Enfrentamento:
- "Como você lida com a dor no dia a dia?"
- Estratégias adaptativas vs mal-adaptativas
- Aceitação da dor vs luta constante contra ela 1
4. Exame Físico Direcionado
Avaliação Neurológica:
- Força muscular (graduar 0-5)
- Sensibilidade: tátil, dolorosa, térmica
- Reflexos tendinosos profundos
- Sinais de irritação radicular (Lasègue, Spurling)
- Marcha e coordenação 1
Avaliação Musculoesquelética:
- Inspeção: deformidades, atrofia, assimetrias
- Palpação: pontos dolorosos, espasmo muscular
- Amplitude de movimento: ativa e passiva
- Testes provocativos específicos conforme localização 1
Outros Sistemas (conforme indicado):
- Sinais vitais
- Exame cardiovascular, respiratório, abdominal se relevante 1
5. Documentação e Síntese
Ao final da anamnese, documente:
- Caracterização completa da dor (OPQRST)
- Perfil psicossocial (sintomas psicológicos, impacto funcional, contexto social)
- Achados do exame físico
- Hipóteses diagnósticas (causa da dor, fisiopatologia inferida)
- Fatores de risco para cronificação identificados:
Considerações Especiais
Sinais de Alerta (Red Flags) que exigem investigação urgente:
- Dor com sintomas constitucionais (febre, perda de peso)
- História de câncer
- Déficit neurológico progressivo
- Trauma significativo
- Dor que piora progressivamente apesar do tratamento 2
Abordagem Multimodal desde o Início: A avaliação deve orientar um plano que integre farmacoterapia, terapias físicas/restaurativas e intervenções psicológicas (terapia cognitivo-comportamental, biofeedback, relaxamento) 1
Reavaliação Periódica: Estabeleça seguimento estruturado (idealmente a cada 6 meses) para reavaliar resposta ao tratamento, ajustar plano e monitorar eventos adversos 1
Quando Encaminhar: Considere encaminhamento para especialista ou equipe multidisciplinar de dor quando: