Avaliação e Manejo de Dor Torácica em Pontada Pós-Esforço em Adolescente
Em um adolescente de 17 anos com dor torácica em pontada há dois dias após grande esforço, a causa é quase certamente não-cardíaca e benigna, sendo mais provável origem musculoesquelética, mas é obrigatório realizar história focada, exame físico cardiovascular e ECG inicial para excluir as raras causas cardíacas potencialmente fatais.
Abordagem Diagnóstica Inicial
História Clínica Essencial
A história deve focar especificamente em 1:
- Características da dor: natureza, início gradual vs súbito, duração, localização e irradiação
- Fatores precipitantes: relação temporal com esforço intenso
- Sintomas associados: dispneia, síncope, pré-síncope, palpitações, náusea
- Fatores de risco cardiovascular: história familiar de morte súbita, cardiopatia congênita, uso de drogas ilícitas
- Sinais de alarme: dor que piora com decúbito (pericardite), diferencial de pulsos (dissecção aórtica)
Exame Físico Obrigatório
Realizar exame cardiovascular focado para identificar 2:
- Sensibilidade à palpação da parede torácica: se presente, reduz marcadamente a probabilidade de síndrome coronariana aguda
- Dor com inspiração: sugere causa pleural ou musculoesquelética
- Ausculta cardíaca: sopros (estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica), atrito pericárdico
- Ausculta pulmonar: pneumotórax (ausência unilateral de murmúrio vesicular)
- Pulsos periféricos: diferenciais sugerem dissecção aórtica
ECG Inicial
Todos os pacientes com dor torácica devem ter ECG realizado 1. Este é o teste mais importante para identificar STEMI e outras causas cardíacas graves.
Estratificação de Risco em Adolescentes
Causas Cardíacas Raras mas Graves (< 2% dos casos)
Embora extremamente raras em adolescentes 3, 4, as seguintes condições podem ser fatais:
- Anomalias coronarianas congênitas 5
- Cardiomiopatia hipertrófica
- Miocardite/pericardite 4
- Arritmias
- Pneumopericárdio espontâneo pós-esforço 6
Indicadores de alto risco que exigem investigação cardíaca agressiva 4:
- História familiar significativa de morte súbita ou cardiopatia
- Exame cardíaco anormal
- ECG anormal
- Síncope ou pré-síncope associada
- Dor que ocorre durante (não após) exercício intenso
Causas Não-Cardíacas Benignas (> 98% dos casos)
Causas musculoesqueléticas são as mais comuns 2:
- Costocondrite
- Distensão muscular da parede torácica (especialmente após esforço intenso)
- Trauma torácico oculto
- Asma induzida por exercício
- Causas psicogênicas (ansiedade, transtorno do pânico)
- Refluxo gastroesofágico
Algoritmo de Testagem Adicional
Se história, exame físico e ECG são normais 4:
- NÃO realizar ecocardiograma de rotina
- NÃO realizar teste ergométrico
- NÃO realizar Holter ou monitor de eventos
- Fornecer tranquilização e orientação
- Tratamento sintomático (anti-inflamatórios para causa musculoesquelética)
Se qualquer um dos seguintes está presente 4:
- História ou exame físico anormal
- ECG anormal
- Dor exertional verdadeira (durante, não após exercício)
Então proceder com:
- Ecocardiograma
- Considerar teste ergométrico
- Avaliação cardiológica especializada
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não usar resposta à nitroglicerina como critério diagnóstico 1 - espasmo esofágico também responde
- Não assumir que dor intensa = causa cardíaca - frequentemente não há correlação entre intensidade e gravidade 1
- Não solicitar testagem extensa em pacientes de baixo risco 4 - isto leva a uso desnecessário de recursos, custos elevados e ansiedade aumentada
- Não ignorar causas psicogênicas 2 - são comuns em adolescentes e merecem encaminhamento para terapia cognitivo-comportamental quando recorrentes
Manejo Específico para Este Caso
Dado que a dor:
- Iniciou após (não durante) grande esforço
- Tem dois dias de duração (não é aguda/emergencial)
- Não tem sintomas associados mencionados
- Paciente tem 17 anos (população de baixíssimo risco cardíaco)
A causa mais provável é distensão musculoesquelética da parede torácica 2, 7.
Conduta recomendada:
- História focada e exame físico (especialmente palpação da parede torácica)
- ECG de 12 derivações
- Se ambos normais e sem fatores de risco: tranquilização, anti-inflamatórios não-esteroides, repouso relativo
- Orientar retorno se desenvolver: síncope, palpitações, piora progressiva, ou dor durante (não após) exercício
Avaliação de causas não-cardíacas 2: Se sintomas persistirem ou recorrerem apesar de avaliação cardíaca negativa, considerar causas gastrointestinais (refluxo) ou psicogênicas, especialmente se houver sintomas sugestivos na história.