Conduta para Metaplasia Intestinal no Corpo Gástrico
A presença de metaplasia intestinal no corpo gástrico indica doença extensa e de alto risco, exigindo erradicação de H. pylori (se presente) e vigilância endoscópica a cada 3 anos 1, 2.
Estratificação de Risco
A metaplasia intestinal no corpo gástrico representa um fenótipo de alto risco porque:
- Doença extensa (corpo + antro/incisura) aumenta o risco de câncer gástrico em 2,1 vezes comparado à doença limitada apenas ao antro 1
- Classificação OLGIM estágios III/IV (envolvimento do corpo) está associada a risco significativamente elevado 1, 2
- Diretrizes internacionais concordam que metaplasia extensa ao corpo justifica vigilância regular 3
Protocolo de Conduta Obrigatória
1. Teste e Erradicação de H. pylori
- Testar TODOS os pacientes com metaplasia intestinal para H. pylori 1
- Erradicar se positivo (recomendação forte, evidência moderada) 1
- Confirmar erradicação após tratamento (taxas de falha são altas) 1
- A erradicação reduz risco de progressão para displasia e câncer 4, 5
2. Vigilância Endoscópica
Intervalo recomendado: a cada 3 anos 1, 2, 5
A vigilância é justificada porque:
- Risco anual de câncer gástrico é ~0,16% (1,6% em 10 anos) em pacientes com metaplasia intestinal 1
- Metaplasia extensa ao corpo aumenta substancialmente este risco 1
- Detecção precoce de displasia/câncer melhora mortalidade 2
3. Protocolo Endoscópico de Alta Qualidade
Durante a vigilância, realizar:
- Endoscopia de alta definição com cromoendoscopia virtual (narrow band imaging) 2, 5
- Tempo mínimo de exame: 7 minutos 4
- Biópsias sistemáticas: mínimo 2 do antro/incisura + 2 do corpo, em frascos separados e identificados 2, 5
- Biópsias adicionais guiadas por cromoendoscopia de áreas suspeitas 2
- Documentação fotográfica de lesões visíveis 2
Fatores Adicionais que Intensificam o Risco
Considere vigilância mais rigorosa (discutir intervalo de 1-2 anos) se presença de 1:
- História familiar de câncer gástrico em parente de primeiro grau (risco 4,5 vezes maior)
- Metaplasia incompleta (tipo colônico) vs completa (risco 3 vezes maior)
- Infecção persistente por H. pylori refratária ao tratamento
- Origem étnica de alto risco (asiáticos, hispânicos, imigrantes de regiões de alta incidência)
Armadilhas Comuns a Evitar
Não subestimar metaplasia no corpo: diferente da metaplasia isolada no antro (que não requer vigilância), o envolvimento do corpo sempre indica alto risco 1
Não realizar endoscopia de baixa qualidade: endoscopia sem cromoendoscopia e sem biópsias sistemáticas perde lesões displásicas 2, 5
Não assumir erradicação de H. pylori sem confirmar: sempre documentar erradicação com teste apropriado 1
Não ignorar história familiar: presença de familiar de primeiro grau com câncer gástrico muda significativamente o risco 1
Decisão Compartilhada
Embora a evidência para vigilância seja de qualidade muito baixa (não há estudos randomizados comparando vigilância vs não-vigilância) 1, as diretrizes AGA, ESGE e ACG concordam que pacientes com metaplasia extensa ao corpo têm risco suficientemente elevado para justificar vigilância 1, 2.
A decisão deve considerar:
- Risco individual de progressão (metaplasia extensa = alto risco)
- Valor que o paciente atribui à redução potencial de mortalidade por câncer
- Riscos e custos das endoscopias seriadas
- Expectativa de vida e comorbidades (descontinuar vigilância após 80 anos) 2