Exames de Primeiro Trimestre na Gravidez
No primeiro trimestre da gravidez, você deve solicitar: triagem combinada para aneuploidias (translucência nucal + PAPP-A + beta-hCG livre ou hCG total entre 11-13+6 semanas), hemograma completo, tipagem sanguínea e fator Rh, sorologias infecciosas (HIV, hepatite B, sífilis, rubéola, toxoplasmose), e glicemia de jejum.
Triagem para Aneuploidias Cromossômicas
A triagem combinada de primeiro trimestre é o padrão recomendado para todas as gestantes que se apresentam antes de 14 semanas 1. Esta abordagem integra:
Componentes da Triagem Combinada
Ultrassonografia (11-13+6 semanas):
- Translucência nucal (TN) - o marcador ultrassonográfico mais importante
- A TN isolada detecta aproximadamente 70% dos casos de síndrome de Down com 5% de falso-positivos 1
- Avaliação do osso nasal é opcional e deve ser realizada apenas por profissionais com treinamento específico e programa de controle de qualidade 1
Marcadores bioquímicos séricos:
- PAPP-A (proteína plasmática A associada à gravidez) - tipicamente reduzida na síndrome de Down
- Beta-hCG livre (preferível) ou hCG total - elevado na síndrome de Down 1
- Estudos recentes confirmam que PAPP-A baixo e beta-hCG elevado têm excelente desempenho discriminatório (AUC=0.937 e 0.76, respectivamente) 2
Estratégias de Triagem Disponíveis
A diretriz mais recente do ACMG (2025) descreve múltiplas abordagens 3:
- Triagem integrada: Combina marcadores do primeiro e segundo trimestres em uma única avaliação de risco (resultados disponíveis apenas no segundo trimestre)
- Triagem sequencial: Oferece teste diagnóstico no primeiro trimestre para riscos muito altos (>1:25 ou >1:50), com mais de 50% dos casos de síndrome de Down detectados neste grupo
- Triagem contingente: Divide resultados em três categorias (positivo, negativo, intermediário), com apenas o grupo intermediário prosseguindo para triagem do segundo trimestre
Importante: A triagem combinada detecta 91-95% das trissomias comuns quando implementada adequadamente 3.
DNA Fetal Livre (cfDNA/NIPT)
O teste de DNA fetal livre pode ser realizado no primeiro trimestre e é o método de triagem mais sensível e específico para aneuploidias comuns 4. Contudo:
- Não é equivalente a teste diagnóstico - resultados positivos devem ser confirmados por procedimento invasivo 4, 5
- Taxas mais altas de anomalias genéticas são detectadas em casos de resultados inconclusivos 5
- A triagem para microdeleções ainda não possui dados confiáveis sobre sensibilidade e valores preditivos positivos 5
Exames Laboratoriais Essenciais
Hematologia
- Hemograma completo
- Tipagem sanguínea ABO e fator Rh
Sorologias Infecciosas (recomendadas universalmente) 6
- HIV
- Hepatite B (HBsAg)
- Sífilis (VDRL/RPR)
- Rubéola (IgG/IgM)
- Toxoplasmose (IgG/IgM)
- Citomegalovírus (considerar conforme protocolo local)
- Hepatite C (em populações de risco)
Avaliação Metabólica
- Glicemia de jejum (para rastreio de diabetes gestacional, dependendo da estratégia escolhida) 6
- Função tireoidiana (TSH) 6
Ultrassonografia Anatômica Detalhada (11-13+6 semanas)
A ultrassonografia detalhada de primeiro trimestre permite detecção de 40-70% das anomalias estruturais 4, 7:
- Confirmar localização e número de gestações
- Estabelecer idade gestacional precisa (comprimento cabeça-nádega)
- Avaliar anatomia fetal sistematicamente
- Identificar TN aumentada e outras anomalias estruturais
Armadilha comum: A ultrassonografia de primeiro trimestre não substitui a avaliação anatômica do segundo trimestre - um exame de seguimento em torno de 20 semanas é recomendado 7.
Rastreios Adicionais Especializados
Pré-eclâmpsia e Restrição de Crescimento Fetal
- Doppler de artérias uterinas + PlGF (fator de crescimento placentário) 5
- Aspirina em baixa dose reduz significativamente a prevalência de pré-eclâmpsia grave pré-termo 5
Outros Rastreios (quando indicado)
Aconselhamento e Testes Diagnósticos
Todas as mulheres, independentemente da idade, devem ter a opção de teste diagnóstico invasivo (biópsia de vilo corial ou amniocentese) após aconselhamento apropriado sobre riscos e benefícios 1.
- Risco de perda fetal com procedimentos realizados por especialistas: <1-2 em 1000 5
- Resultados de triagem positivos, TN aumentada ou outras anomalias devem levar a aconselhamento genético e confirmação diagnóstica 4
- A análise por CGH-array (hibridização genômica comparativa) pode detectar anomalias submicroscópicas e deve ser discutida no aconselhamento 5
Algoritmo de Decisão
- Apresentação antes de 14 semanas: Oferecer triagem combinada de primeiro trimestre
- Resultado de baixo risco: Tranquilizar e agendar ultrassom anatômico de segundo trimestre
- Resultado de alto risco ou TN aumentada: Aconselhamento genético → considerar cfDNA ou procedimento diagnóstico direto
- cfDNA positivo: Sempre confirmar com procedimento diagnóstico (biópsia de vilo corial ou amniocentese)
- Mulheres que não desejam informações sobre status cromossômico: Documentar apropriadamente e não exigir triagem 1
Nota crítica: Não use mais a idade materna como ponto de corte isolado para oferecer testes invasivos - as mulheres devem ser informadas sobre seu risco ajustado e tomar decisões baseadas neste número 1.