Diretrizes de Ventilação Mecânica em Morte Encefálica
Em pacientes com morte encefálica mantidos para doação de órgãos, utilize ventilação protetora com volume corrente de aproximadamente 6 mL/kg de peso corporal ideal, PEEP de 8-10 cmH2O, FiO2 ajustada para manter PaO2 > 80 mmHg e SpO2 > 95%, com manobras de recrutamento alveolar antes da procura de órgãos 1.
Parâmetros Ventilatórios Específicos
A ventilação mecânica em doadores com morte encefálica deve seguir estratégias protetoras pulmonares similares às utilizadas em SDRA, mas com objetivos específicos de preservação de órgãos:
Volume Corrente e Pressões
- Volume corrente: 6 mL/kg de peso corporal ideal (não 10 mL/kg como ainda praticado em muitos centros) 1, 2
- Pressão de platô: manter < 30 cmH2O 3
- PEEP: 8-10 cmH2O (evitar PEEP baixa de 3-5 cmH2O que leva a atelectasias) 1, 2
Oxigenação
- FiO2: ajustar para manter PaO2 > 80 mmHg e SpO2 > 95% 4, 5
- Relação P/F: objetivo > 300 para elegibilidade de doação pulmonar 1, 2
- Evitar FiO2 > 60% quando possível para minimizar toxicidade por oxigênio 1
Manobras Específicas
Manobras de recrutamento alveolar devem ser realizadas antes da procura de órgãos para otimizar a função pulmonar 1, 5. Estudos observacionais mostram que a ausência dessas manobras está associada a piores resultados 2.
Durante o teste de apneia para confirmação de morte encefálica:
- Pré-oxigenar com FiO2 100% por 10 minutos 6
- Utilizar CPAP contínua sem desconexão do circuito quando possível 7
- Objetivo: PaCO2 > 60 mmHg e aumento > 20 mmHg acima da linha de base 8
- Reconectar ventilador se SpO2 < 85% ou instabilidade hemodinâmica 8
Cuidados Adicionais
- Aspiração traqueal: realizar com sistema fechado para evitar desrecrutamento 2
- Normocapnia: manter PaCO2 30-35 mmHg fora do teste de apneia 4
- Temperatura: manter normotermia (> 32.5°C) 6
Manejo Hemodinâmico
Monitorização
A monitorização hemodinâmica padrão deve incluir 5, 9:
- ECG de 12 derivações
- Pressão arterial invasiva
- Pressão venosa central (PVC)
- Cateter de artéria pulmonar se FEVE < 45% 5
Ecocardiografia seriada é recomendada, especialmente em doadores cardíacos 4, 7.
Metas Hemodinâmicas
- PVC: 6-10 mmHg (alvo ~12 mmHg para otimização cardíaca) 4, 5
- Índice cardíaco: > 2.4 L/min/m² 5
- RVS: 800-1200 dyn·s·cm⁻⁵ 5
- PAM: manter adequada para perfusão orgânica 9
Vasopressores e Inotrópicos
Norepinefrina é o vasopressor de primeira escolha (preferido por 64.5% dos intensivistas) 7, 9. Quando doses > 0.2 mcg/kg/min são necessárias, adicionar vasopressina como segunda droga 5, 9.
Vasopressina deve ser considerada precocemente, pois a morte encefálica causa deficiência de hormônio antidiurético 5, 9. Pode reduzir necessidade de outros vasopressores.
Evitar doses altas de β-agonistas (dopamina, dobutamina) que aumentam demanda miocárdica de oxigênio e depletam fosfatos de alta energia 4.
Reposição Volêmica
- Cristaloides balanceados são preferidos (58% dos centros) 7
- Evitar sobrecarga hídrica excessiva que piora função pulmonar 3
- Albumina humana pode ser usada em pacientes hipooncóticos 3
- Corrigir anemia: alvo hemoglobina 10 g/dL, hematócrito 30% 4, 5
Terapia Hormonal
A terapia de reposição hormonal deve ser considerada em todos os doadores, especialmente com instabilidade hemodinâmica 7, 5, 10:
- Metilprednisolona: indicada em todos os doadores 5, 9
- Desmopressina (DDAVP): para diabetes insipidus e reposição de vasopressina 5, 9
- Levotiroxina (T4): controversa, mas sugerida por alguns protocolos 5, 10, 9
- Insulina: manter glicemia em faixa normal 5
Correções Metabólicas Essenciais
Antes de qualquer avaliação de órgãos, corrigir 4:
- pH: 7.40-7.45
- PaO2: > 80 mmHg, SpO2 > 95%
- PaCO2: 30-35 mmHg
- Temperatura: > 32.5°C (normotermia) 6
- Sódio sérico: manter controlado (hipernatremia associada a piores resultados em transplante hepático) 11
Armadilhas Comuns
- Ventilação com volumes correntes altos (10 mL/kg): ainda praticada em muitos centros, mas prejudica função pulmonar 2
- PEEP inadequadamente baixa (< 5 cmH2O): causa atelectasias e piora oxigenação 2
- Ausência de manobras de recrutamento: perda de doadores pulmonares potenciais 2
- Desconexão do ventilador durante teste de apneia: causa desrecrutamento; preferir CPAP contínua 7
- Aspiração traqueal com sistema aberto: causa desrecrutamento 2
- Declinar órgãos baseado em ecocardiograma único: 92% dos corações com disfunção inicial podem ser ressuscitados com manejo adequado 4
- Não administrar heparina antes da retirada de suporte em doação após morte circulatória (quando aplicável) 12
Protocolo Integrado
O protocolo de Papworth demonstrou que manejo hemodinâmico e metabólico agressivo pode expandir o pool de doadores em 30%, com 92% dos órgãos inicialmente inadequados sendo funcionalmente ressuscitados 4. Este protocolo enfatiza:
- Otimização hemodinâmica com cateter de artéria pulmonar
- Euvolemia
- Redução de vasopressores/inotrópicos através de correção metabólica
- Terapia hormonal precoce
- Ventilação protetora consistente
A evidência mais recente (2025) do consenso AATS reforça que a ventilação protetora e manobras de recrutamento são fundamentais para maximizar a utilização de pulmões para transplante 1.