SOAP Note: Paciente com Apendicite Aguda Não Complicada
S (Subjetivo)
Queixa Principal:
- Dor abdominal aguda iniciada na região periumbilical com migração para fossa ilíaca direita
História da Doença Atual:
- Dor iniciada há 12-24 horas
- Migração característica da dor periumbilical para quadrante inferior direito
- Anorexia associada
- Náuseas/vômitos intermitentes
- Febre baixa (se presente)
Sintomas Específicos a Investigar:
- Momento exato da migração da dor
- Intensidade progressiva da dor
- Presença de anorexia (altamente sugestivo)
- Padrão dos vômitos (após início da dor)
O (Objetivo)
Exame Físico Direcionado
Sinais Vitais:
- Temperatura: febre baixa (37.5-38.5°C) ou ausente
- FC: taquicardia leve pode estar presente
- PA: geralmente normal
Abdome:
- Ponto de McBurney: sensibilidade máxima (achado mais específico)
- Sinal de Rovsing: positivo (dor em FID com palpação de FIE)
- Sinal do Psoas: positivo (dor com extensão do quadril direito)
- Sinal do Obturador: positivo (dor com rotação interna do quadril)
- Defesa muscular localizada em FID
- Descompressão brusca positiva (peritonite localizada)
Exames Laboratoriais
Hemograma:
- Leucócitos: tipicamente >10.000/mm³ (LR+ 2.47) 1
- Leucócitos >15.000/mm³ aumentam LR+ para 3.47 2
- Neutrofilia com desvio à esquerda
- Importante: leucograma normal NÃO exclui apendicite 2
Proteína C-Reativa:
- PCR >10 mg/L: LR+ 4.24 2
- Combinação: leucócitos normais + PCR normal + neutrófilos normais tornam apendicite menos provável 3
Relação Neutrófilos/Linfócitos:
- Elevada sugere apendicite 4
Escores de Estratificação de Risco
Recomendados (maior acurácia diagnóstica): 3
- AIR Score (Appendicitis Inflammatory Response)
- AAS (Adult Appendicitis Score)
- RIPASA Score
Pacientes de baixo risco nesses escores podem não necessitar investigação adicional com decisão compartilhada 3
Imagem
Primeira Linha: 1
- POCUS (Ultrassom Point-of-Care): ferramenta diagnóstica inicial mais apropriada em adultos e crianças (Recomendação 2B)
- Sensibilidade e especificidade satisfatórias
- Facilita tomada de decisão rápida
Se US Negativo ou Inconclusivo:
- TC com contraste de baixa dose: preferível sobre TC padrão em adolescentes e adultos jovens (Recomendação 1A - evidência alta) 1
- TC identifica: diâmetro apendicular ≥7mm, apendicolito, massa, perfuração
Achados de Alto Risco na TC: 5
- Apendicolito presente
- Diâmetro apendicular >13mm
- Efeito de massa
- Estes achados associam-se a ~40% de falha do tratamento não-operatório
A (Avaliação)
Diagnóstico: Apendicite Aguda Não Complicada
Classificação Baseada em Imagem:
- Não complicada: alterações inflamatórias sem sinais de necrose, perfuração ou abscesso
- Complicada: sinais de necrose, perfuração ou formação de abscesso 4
Estratificação de Risco para Manejo:
- Presença de apendicolito: indicação cirúrgica 1, 5
- Ausência de apendicolito: candidato potencial para manejo não-operatório
- Condições clínicas do paciente (apto vs não apto para cirurgia)
P (Plano)
Manejo Imediato
Todos os Pacientes:
- Consulta cirúrgica imediata 3
- Antibióticos de amplo espectro: iniciar imediatamente 1
- Piperacilina-tazobactam em monoterapia, OU
- Cefalosporina + metronidazol, OU
- Fluoroquinolona + metronidazol 5
- NPO
- Hidratação venosa
- Analgesia adequada
Opções de Tratamento Definitivo
A decisão entre cirurgia e antibióticos depende de:
CIRURGIA INDICADA (Apendicectomia Laparoscópica):
Indicações Absolutas:
- Presença de apendicolito na imagem 1, 5, 6
- Achados de TC de alto risco (diâmetro >13mm, massa) 5
- Gravidez 4, 3
- Apendicite complicada (perfuração, abscesso) em centros com expertise laparoscópica 1
Abordagem Cirúrgica Preferencial:
- Apendicectomia laparoscópica é o padrão-ouro (Recomendação 1A - evidência alta) 1
- Vantagens: menos dor, menor infecção de sítio cirúrgico, menor tempo de internação, retorno mais rápido ao trabalho, melhor qualidade de vida
Timing Cirúrgico:
- Realizar dentro de 24 horas da admissão (Recomendação 1B) 1
- Atraso até 24h é seguro e não aumenta complicações
- NÃO atrasar além de 24 horas - associado a piores desfechos 1
Antibioticoterapia Perioperatória:
- Dose única pré-operatória (0-60 min antes da incisão) 1
- NÃO usar antibióticos pós-operatórios em apendicite não complicada (Recomendação 1A) 1
MANEJO NÃO-OPERATÓRIO (Antibióticos):
Candidatos Apropriados: 1
- Apendicite não complicada confirmada por imagem
- AUSÊNCIA de apendicolito (critério essencial)
- Paciente aceita possibilidade de falha e necessidade de cirurgia
- Paciente não apto para cirurgia sem achados de alto risco
Protocolo de Antibióticos: 1
- Iniciar antibióticos IV de amplo espectro
- Transição para antibióticos orais baseado em condições clínicas (Recomendação 1B - evidência moderada)
- Duração típica: até melhora clínica completa
Taxas de Sucesso e Falha:
- Sucesso inicial: ~70% dos pacientes 5
- Falha em pacientes com apendicolito: ~40% 5
- Recorrência a longo prazo: 12-24% 7, 6
Monitoramento:
- Reavaliação clínica frequente (a cada 12-24h)
- Se deterioração ou sem melhora em 48-72h: cirurgia
- Pacientes ≥40 anos tratados não-operatoriamente: colonoscopia e TC com contraste de seguimento (risco de neoplasia 3-17%) 1
Algoritmo de Decisão
1. Paciente com apendicite não complicada confirmada:
TEM apendicolito na imagem?
- SIM → Cirurgia (apendicectomia laparoscópica dentro de 24h)
- NÃO → Prosseguir para próxima decisão
2. Paciente APTO para cirurgia, SEM apendicolito:
- Discutir ambas opções com paciente (Recomendação 1A) 1
- Cirurgia: definitiva, baixa recorrência
- Antibióticos: evita cirurgia, mas 30% falha/recorrência
3. Paciente NÃO APTO para cirurgia, SEM apendicolito:
- Manejo não-operatório com antibióticos 5
- Cirurgia apenas se falha do tratamento clínico
Armadilhas Comuns
- Não assumir que leucograma normal exclui apendicite - sensibilidade limitada 2
- Não usar apenas escores clínicos sem imagem em casos duvidosos - imagem melhora acurácia 1
- Não oferecer antibióticos como primeira linha se apendicolito presente - alta taxa de falha 5, 6
- Não atrasar cirurgia além de 24h quando indicada - piores desfechos 1
- Não prolongar antibióticos pós-operatórios em casos não complicados - desnecessário 1
Seguimento
Pós-cirurgia:
- Alta quando tolerando dieta e dor controlada
- Retorno em 2 semanas para avaliação de ferida
Pós-tratamento não-operatório: