Cetamina no Estado de Mal Epiléptico Refratário
A cetamina não é recomendada como agente de segunda linha no estado de mal epiléptico refratário a benzodiazepínicos, mas pode ser considerada como opção terapêutica em casos de estado de mal epiléptico super-refratário quando outras terapias anestésicas falharam.
Posicionamento nas Diretrizes
As diretrizes de 2014 da ACEP (American College of Emergency Physicians) estabelecem recomendações claras para o manejo do estado de mal epiléptico refratário 1:
Recomendações de Nível A (evidência forte):
- Administrar medicação antiepiléptica adicional em pacientes com estado de mal epiléptico refratário que falharam ao tratamento com benzodiazepínicos 1
Recomendações de Nível B (evidência moderada):
- Fenitoína, fosfenitoína ou valproato IV podem ser administrados como agentes de segunda linha 1
Recomendações de Nível C (evidência limitada):
- Levetiracetam, propofol ou barbitúricos podem ser administrados 1
A cetamina não é mencionada nas diretrizes de 2014 como opção de tratamento para estado de mal epiléptico refratário.
Evidência Atual sobre Cetamina
Eficácia em Estado de Mal Super-Refratário
A evidência mais recente (2024-2026) demonstra que a cetamina tem papel específico no estado de mal epiléptico super-refratário (SRSE):
- Taxa de cessação de crises: 64% (IC 95%: 49-76%) em meta-análise com 388 pacientes 2
- Redução de 50% na atividade ictal: 84% dos pacientes em 24 horas 3
- Taxa de resolução: 53.3-91% em séries maiores de casos 4
Momento de Administração
O timing da administração é crítico:
- Pacientes que responderam receberam cetamina mais precocemente: 3.2 ± 2.6 dias vs. 4.3 ± 2.6 dias nos não-respondedores (diferença média: -0.90 dias, p < 0.0001) 2
- Administração precoce correlaciona-se com melhores desfechos 5
- Respondedores tiveram 80% mais probabilidade de ter recebido cetamina 5 ou mais horas antes 6
Dosagem
Regime típico baseado na evidência:
- Bolus inicial: 0.5-1 mg/kg IV (usado em 78.5% dos casos) 6
- Infusão de manutenção:
- Duração: 1-30 dias (mediana 39.8-40 horas) 4, 6
Importante: A dose de manutenção não diferiu significativamente entre respondedores (2.5 ± 1.3 mg/kg/hora) e não-respondedores (2.6 ± 1.4 mg/kg/hora) 2.
Indicação Aprovada pela FDA
A cetamina NÃO é aprovada pela FDA para tratamento de estado de mal epiléptico. Suas indicações aprovadas são 7:
- Agente anestésico único para procedimentos diagnósticos e cirúrgicos
- Indução de anestesia antes de outros agentes anestésicos gerais
- Suplemento a outros agentes anestésicos
O uso em estado de mal epiléptico é off-label.
Perfil de Segurança
Vantagens sobre Anestésicos GABAérgicos
- Não suprime drive respiratório como outros anestésicos de infusão contínua 6
- Menor necessidade de vasopressores comparado a barbitúricos 4
- Pode ser usado sem intubação em pacientes cuidadosamente selecionados 6
Eventos Adversos
Cardiovasculares:
- Hipotensão (PAS < 90 mmHg): 31.8% dos pacientes recebendo apenas cetamina 6
- Hipertensão (PAS > 180 mmHg): 39.3% 6
- Não correlacionou com duração ou dose máxima 6
Descontinuação por eventos adversos: Rara (0.7%, 3/55 pacientes) 2
Mortalidade: 38.8-59.5% em séries maiores, mas não diretamente relacionada à cetamina 4
Algoritmo de Tratamento Recomendado
Estado de Mal Epiléptico Refratário (após falha de benzodiazepínicos):
1ª Linha de Segunda Escolha:
- Fosfenitoína 18-20 PE/kg IV OU
- Valproato 20-30 mg/kg IV a 40 mg/min OU
- Levetiracetam 30-50 mg/kg IV a 100 mg/min 1
Estado de Mal Epiléptico Super-Refratário (após falha de múltiplos antiepilépticos e anestésicos):
Considerar Cetamina quando:
- Falha de pelo menos 2-3 antiepilépticos de segunda linha
- Falha ou instabilidade hemodinâmica com propofol ou barbitúricos
- Necessidade de evitar intubação em pacientes selecionados
Protocolo de Cetamina:
- Bolus: 0.5-1 mg/kg IV lento (> 60 segundos)
- Infusão inicial: 10-30 mcg/kg/min (0.6-1.8 mg/kg/hora)
- Titulação: Aumentar conforme necessário até máximo de 50 mcg/kg/min (3 mg/kg/hora)
- Monitorização: EEG contínuo, sinais vitais, função respiratória
- Duração: Manter por 24-48 horas após cessação de crises, depois desmame gradual
Armadilhas Comuns
Uso prematuro: Cetamina não deve substituir agentes de segunda linha estabelecidos (valproato, levetiracetam, fosfenitoína) 1
Início tardio: Quando indicada, administração precoce melhora desfechos - não esperar múltiplas falhas 2, 5
Uso concomitante com propofol: Propofol pode reduzir eficácia da cetamina (OR 0.02, IC 95% 0.001-0.43, p = 0.01) 3
Diluição inadequada: Concentração de 100 mg/mL NUNCA deve ser administrada IV sem diluição adequada 7
Expectativa de monoterapia: Cetamina frequentemente requer uso concomitante com outros antiepilépticos (40-100% dos casos) 4
Nuances Importantes
Mecanismo diferenciado: Antagonismo de receptores NMDA oferece vantagem teórica quando receptores GABAérgicos estão dessensibilizados 4, 5
Neuroproteção potencial: Além de efeito anticonvulsivante, pode oferecer neuroproteção 4
Sem supressão burst: Supressão burst no EEG foi relatada em apenas 12 pacientes de múltiplos estudos 4
Taxa de recorrência: Recorrência de crises relatada em 11 pacientes de cinco estudos 4
Eficácia similar em adultos e crianças: Taxa de terminação de 59% em adultos vs. 50% em crianças (sem diferença estatística) 8