Reabilitação da Polineuromiopatia do Doente Crítico
A mobilização precoce deve ser iniciada nas primeiras 72 horas após admissão na UCI, utilizando um protocolo estruturado que combine componentes passivos e ativos, progredindo de forma escalonada até ao nível mais elevado possível de mobilização que o doente tolere 1, 2.
Protocolo de Mobilização Estruturado
A implementação deve seguir uma abordagem protocolizada obrigatória 1:
Início da Mobilização
- Iniciar dentro de 72 horas após admissão na UCI em todos os doentes críticos previamente independentes funcionalmente 1, 2
- Adaptar à resiliência e condição geral do doente 2
- Doentes previamente dependentes funcionalmente também devem ser considerados para mobilização precoce 1
Componentes do Protocolo
A evidência mais robusta suporta protocolos que combinam mobilização passiva e ativa 1. Os protocolos devem incluir:
Mobilização Passiva (quando consciência, cognição ou hemodinâmica impedem mobilização ativa):
- Mobilidade no leito
- Estimulação elétrica neuromuscular da musculatura ventral da coxa 2
- Aplicar quando o doente não consegue participar ativamente 1
Mobilização Ativa (progressão escalonada):
- Exercícios funcionais e de resistência
- Transferências
- Atividades de vida diária
- Marcha independente 1
Critérios de Segurança para Interrupção
Descontinuar a sessão de mobilização se 1:
- Dessaturação < 86%
- Aumento da frequência cardíaca > 30% do basal
- Aumento da pressão arterial sistólica ≥ 40 mmHg do basal
- Aumento da pressão arterial diastólica ≥ 20 mmHg do basal
- Pressão arterial média < 60 mmHg
- Arritmia cardíaca nova ou agravada que requer tratamento
- Deterioração do nível de consciência
- Dor não controlável com terapêutica analgésica adequada
Terapias Adjuvantes
Estimulação Elétrica Neuromuscular
Pode ser considerada para fortalecer a musculatura, particularmente quando integrada com fisioterapia convencional 2, 3. A evidência mostra benefício em doentes selecionados 3.
Ergómetros de Leito (Bed Cycling)
Pode ser considerado como suplemento à mobilização precoce 2. Evidência de qualidade alta mas recomendação como opção terapêutica apenas.
Treino Muscular Inspiratório
Deve ser utilizado como adjuvante à fisioterapia padrão para aumentar a força dos músculos inspiratórios e qualidade de vida a curto prazo 2. Esta é uma recomendação forte (Grau B).
Treino de Força
Pode ser usado como adjuvante à fisioterapia padrão para aumentar a velocidade de marcha 2.
Integração Multidisciplinar
A mobilização precoce deve ser integrada num bundle de tratamento que abrange gestão de dor, ansiedade, agitação, delirium e realização de ensaios de respiração espontânea em doentes ventilados (bundle ABCDEF) 1.
Preparação da Sessão de Mobilização 1:
- Informar o doente
- Garantir pessoal suficiente
- Fixar/prolongar vias aéreas artificiais, linhas intravenosas ou outros drenos
Considerações Especiais
Doentes com Terapias Avançadas
- CRRT ou ECMO: Mobilizar após consulta com equipa interprofissional se não houver contraindicações 1
- Hemorragia subaracnoideia ou drenagem ventricular externa: Mobilizar após consulta interdisciplinar, considerando riscos e benefícios 1
Imobilização Médica
Quando necessária imobilização por razões médicas, deve haver prescrição explícita 1.
Limitações da Evidência
Importante: Apesar das diretrizes fortes para mobilização precoce, uma revisão Cochrane de 2015 não identificou ensaios clínicos randomizados que examinem especificamente intervenções de reabilitação física para melhorar atividades de vida diária em doentes com polineuropatia/miopatia do doente crítico 4. No entanto, a evidência mais recente (2024-2026) demonstra que reabilitação estruturada e multidisciplinar melhora força muscular a curto prazo, mobilidade e eficiência dos cuidados de saúde 3, 5.
Avaliação da Disfagia
Deve ser realizada avaliação padronizada da deglutição antes de iniciar nutrição oral em doentes com traqueostomia, dado que a disfagia é frequente 2.
Reabilitação Cognitiva
Aprendizagem computorizada de funções de atenção e/ou terapia visando melhoria da cognição deve ser realizada com doentes críticos e em reabilitação posterior 2.