Por que não se usa AINEs na fase aguda da Chikungunya
Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) devem ser evitados na fase aguda da Chikungunya devido ao risco aumentado de complicações hemorrágicas, uma vez que o vírus pode causar trombocitopenia e alterar a função plaquetária.
Riscos dos AINEs na fase aguda da Chikungunya
Os AINEs apresentam vários riscos específicos durante a fase aguda da infecção por Chikungunya:
Efeitos hematológicos:
- Os AINEs têm efeitos antiplaquetários que podem agravar o risco de sangramento em pacientes com Chikungunya
- A fase aguda da doença pode cursar com trombocitopenia, aumentando o risco hemorrágico
Complicações renais:
- A Chikungunya pode causar desidratação significativa na fase aguda
- Os AINEs podem comprometer a função renal, especialmente em pacientes desidratados 1
- O sistema renal depende dos efeitos vasodilatadores das prostaglandinas produzidas principalmente pela COX-2, e todos os AINEs (seletivos e não seletivos) podem causar insuficiência renal dependente de volume
Risco de mascaramento de sintomas:
- Os AINEs podem mascarar a febre e outros sintomas inflamatórios, dificultando o monitoramento adequado da progressão da doença
Alternativas terapêuticas recomendadas
Na fase aguda da Chikungunya, recomenda-se:
Paracetamol/Acetaminofeno:
- Primeira escolha para controle da febre e dor
- Não apresenta efeitos antiplaquetários significativos
- Deve ser usado com cautela em pacientes com disfunção hepática
Hidratação adequada:
- Fundamental para prevenir complicações renais e cardiovasculares
- Ajuda a manter a função renal adequada durante a fase febril
Repouso:
- Importante para recuperação e redução dos sintomas articulares
Quando considerar AINEs
Os AINEs podem ser considerados após a fase aguda (geralmente após 7-10 dias do início dos sintomas), quando:
- A viremia diminuiu significativamente
- O risco de complicações hemorrágicas é menor
- Os sintomas articulares persistentes tornam-se o problema principal
Para a fase subaguda e crônica da Chikungunya, os AINEs podem ser úteis para o manejo da artrite persistente, conforme demonstrado em estudos 2. Em casos refratários aos AINEs, medicamentos antirreumáticos modificadores da doença (DMARDs) como o metotrexato podem ser considerados 3.
Considerações especiais
- Em pacientes com artrite persistente após Chikungunya por mais de 3 semanas, recomenda-se avaliação reumatológica para considerar tratamento imunossupressor 3
- O uso de corticosteroides na fase aguda também deve ser evitado, pois pode prolongar e agravar a viremia
- Alguns estudos sugerem que o ácido mefenâmico em combinação com ribavirina pode ter efeito antiviral contra o vírus Chikungunya in vitro e in vivo, mas isso ainda não foi traduzido para a prática clínica 4
A abordagem terapêutica da Chikungunya deve priorizar a segurança do paciente na fase aguda, reservando os AINEs para as fases subaguda e crônica, quando os benefícios superam os riscos potenciais.