Manejo de Ferimentos por Mordida de Cachorro Doméstico
O tratamento de um paciente que sofreu acidente com perfurocortante ao manejar um cachorro doméstico deve incluir limpeza imediata da ferida, antibioticoterapia com amoxicilina-clavulanato, avaliação da necessidade de profilaxia antirrábica e antitetânica, e decisão sobre fechamento primário baseado na localização e tipo da ferida. 1
Avaliação Inicial e Classificação do Risco
A abordagem deve ser baseada na classificação do risco da ferida:
Feridas de Alto Risco (necessitam antibióticos):
- Lesões moderadas a graves
- Ferimentos na mão ou face
- Lesões que podem ter penetrado o periósteo ou cápsula articular
- Feridas perfurantes
- Apresentação tardia (>8-12 horas após a lesão)
- Pacientes imunocomprometidos ou asplênicos 1, 2
Feridas de Baixo Risco:
- Feridas superficiais não perfurantes
- Pacientes imunocompetentes
- Apresentação precoce (<8 horas após a lesão)
- Feridas que não envolvem face, mão ou pé 2
Tratamento da Ferida
Limpeza da ferida:
Avaliação neurovascular:
- Verificar pulsos, sensibilidade e amplitude de movimento das articulações adjacentes 3
- Documentar qualquer comprometimento neurovascular
Fechamento da ferida:
- Evitar suturas quando possível, exceto em feridas faciais 1
- Feridas faciais podem receber fechamento primário após irrigação copiosa e desbridamento cuidadoso 4
- Estudo prospectivo mostrou que o fechamento primário de lacerações faciais não aumenta a taxa de infecção (6,3% vs 8,3%) e reduz significativamente o tempo de cicatrização 4
Antibioticoterapia
Antibiótico de primeira escolha:
Alternativas em caso de alergia à penicilina:
- Doxiciclina 100 mg duas vezes ao dia (excelente atividade contra Pasteurella multocida) 1, 2
- Combinação de sulfametoxazol-trimetoprima (160-800 mg duas vezes ao dia) + metronidazol (250-500 mg três vezes ao dia) 2
Antibióticos não recomendados como monoterapia:
- Clindamicina (atividade insuficiente contra P. multocida)
- Cefalosporinas de primeira geração
- Penicilinas resistentes à penicilinase
- Macrolídeos 1, 2
Duração do tratamento:
- Profilaxia para feridas não complicadas: 3-5 dias
- Infecções estabelecidas: 7-10 dias
- Artrite séptica: 3-4 semanas
- Osteomielite: 4-6 semanas 2
Microbiologia das Feridas por Mordida de Cachorro
As feridas por mordida de cachorro tipicamente contêm flora mista:
- Pasteurella species (50% das mordidas)
- Estafilococos e estreptococos (40% das mordidas)
- Anaeróbios (Bacteroides, Fusobacterium)
- Capnocytophaga canimorsus (risco especial para pacientes asplênicos) 1, 5
Profilaxia Antitetânica e Antirrábica
Profilaxia antitetânica:
- Administrar se não vacinado nos últimos 10 anos (preferência para Tdap se não administrada anteriormente) 2
Profilaxia antirrábica:
- Consultar autoridades sanitárias locais para determinar se a vacinação antirrábica é necessária 1
- A profilaxia pós-exposição inclui imunoglobulina antirrábica humana (HRIG) e 5 doses de vacina antirrábica ao longo de 28 dias para pessoas não vacinadas previamente 1
- Mordidas que não rompem a pele geralmente não requerem profilaxia antirrábica 3
Considerações Especiais
- Pacientes imunocomprometidos: podem necessitar de cobertura antibiótica mais ampla e tratamento mais prolongado 2
- Feridas perfurantes: apresentam risco significativamente maior de infecção (RR 2,8) e devem receber antibióticos profiláticos 6
- Mordidas na face: têm risco aumentado de infecção, mas também se beneficiam do fechamento primário após limpeza adequada 6, 4
Acompanhamento
- Reavaliar em 24-48 horas para sinais de infecção
- Instruir o paciente a retornar imediatamente se houver aumento de dor, vermelhidão, inchaço ou drenagem purulenta
- Documentar sinais de infecção e resposta ao tratamento
A abordagem adequada das mordidas de cachorro reduz significativamente o risco de complicações infecciosas e promove melhor cicatrização, especialmente quando o tratamento é iniciado precocemente e seguindo as diretrizes baseadas em evidências.