Síndrome de Pisa: Características Semiológicas e Avaliação Clínica
Definição e Características Principais
A síndrome de Pisa é caracterizada por uma flexão lateral sustentada do tronco (inclinação lateral) de pelo menos 10° que piora na posição sentada prolongada ou durante a caminhada, sendo uma complicação neurológica que pode ser incapacitante e frequentemente associada a medicamentos antipsicóticos, doença de Parkinson ou parkinsonismo. 1
Características Clínicas Essenciais:
- Inclinação lateral do tronco ≥10° (critério diagnóstico mais aceito)
- Postura sustentada e persistente (não momentânea)
- Agravamento em posição sentada prolongada ou durante a caminhada
- Ausência de correção voluntária completa
Epidemiologia
- Prevalência variável: 0,037% a 9,3% dos pacientes em uso de medicações específicas 2
- Mais comum em mulheres (56,91% dos casos) 2
- Idade média de apresentação: 59,7 anos (mediana 67 anos) 2
- Em pacientes com doença de Parkinson, geralmente surge após vários anos de doença
Avaliação Clínica
Inspeção e Medição:
- Observar a postura em pé e durante a marcha
- Medir o ângulo de inclinação lateral (ângulo de Cobb médio: 17,3° ± 4,0°) 3
- Determinar a direção da inclinação (61,5% dos casos para o lado direito) 3
- Verificar se há rotação associada do tronco
Avaliação Muscular:
- Examinar tônus e força dos músculos paravertebrais bilateralmente
- Identificar assimetrias musculares ou hipertrofia compensatória
- Avaliar a presença de contraturas musculares fixas
Padrões Eletromiográficos (dois padrões distintos):
- Padrão Distônico: Hiperatividade muscular contínua ipsilateral à inclinação (30% dos casos)
- Padrão Não-Distônico: Hiperatividade muscular contralateral à inclinação (70% dos casos) 4
Avaliação Neurológica Complementar:
- Presença de outros sinais parkinsonianos (rigidez, bradicinesia, tremor)
- Sinais de discinesia tardia ou outras distonias
- Alterações posturais associadas (camptocormia, anterocólis)
- Avaliação do equilíbrio e risco de quedas
Classificação Temporal
- Aguda: Início dentro de 3 meses após modificação medicamentosa - geralmente reversível 3
- Tardia: Início após 3 meses de uso contínuo de medicação - mais crônica e recorrente 3
Fatores Etiológicos e Desencadeantes
Medicamentos Associados:
- Antipsicóticos (típicos e atípicos)
- Inibidores da acetilcolinesterase (maior grupo - 87 casos reportados) 2
- Antieméticos
- Anticonvulsivantes
- Antidepressivos
Doenças Associadas:
- Doença de Parkinson e parkinsonismos atípicos
- Doenças neurodegenerativas
- Transtornos psiquiátricos
Fatores de Risco:
- Idade avançada
- Psicose crônica
- Uso prolongado de antipsicóticos
- Parkinsonismo induzido por drogas avançado
- Tratamento farmacológico combinado
- Alterações cerebrais orgânicas preexistentes 5
Diagnóstico Diferencial
- Escoliose estrutural
- Contraturas musculares fixas
- Camptocormia (flexão anterior do tronco)
- Síndrome do homem rígido
- Distonia axial de outras etiologias
Curso Clínico e Prognóstico
- Início do quadro: 59% dos casos ocorrem dentro de um mês após introdução da medicação causadora 2
- Reversibilidade: 45,5% dos casos apresentam recuperação completa após intervenção apropriada 2
- Recuperação parcial: 14,28% dos casos 2
- Pior prognóstico: casos de início tardio, com maior cronicidade e recorrência 3
Avaliação Complementar
- Radiografia da coluna em posição ortostática (para medição do ângulo de Cobb)
- Eletromiografia dos músculos paravertebrais (para identificação do padrão de ativação muscular)
- Avaliação farmacológica (revisão detalhada das medicações em uso)
A identificação precoce da síndrome de Pisa é fundamental para o manejo adequado, uma vez que pode ser reversível, especialmente nos casos de início recente relacionados a medicamentos.