Discinesia Tardia: Aspectos Clínicos e Manejo
A discinesia tardia (DT) deve ser tratada com inibidores reversíveis do transportador vesicular de monoamina 2 (VMAT2), como deutetrabenazina ou valbenazina, especialmente em casos moderados a graves ou incapacitantes associados à terapia antipsicótica. 1
Definição e Características Clínicas
A discinesia tardia é um distúrbio de movimento involuntário caracterizado por movimentos atetoides ou coreiformes que afetam principalmente a região orofacial, embora possa envolver qualquer parte do corpo. Está associada ao uso prolongado de medicamentos neurolépticos (antipsicóticos) e pode persistir mesmo após a descontinuação do medicamento causador 1.
Manifestações Clínicas:
- Movimentos involuntários da língua, lábios e face (mais comuns)
- Movimentos do tronco e extremidades
- Pode causar significativo comprometimento funcional e estigma social 2
- Subtipos clínicos incluem discinesia orofacial, distonia tardia, acatisia tardia e outros
Fatores de Risco
Os principais fatores que aumentam o risco de desenvolvimento de DT incluem:
- Idade avançada: até 50% de risco após 2 anos de uso contínuo de antipsicóticos típicos em idosos 1
- Sexo feminino 1
- Escores AIMS basais mais altos 1
- Comprometimento intelectual 1
- Uso prolongado de antipsicóticos: especialmente os típicos (primeira geração)
- Crianças e adolescentes: apresentam prevalência pontual de 5-20%, com taxas mais altas para antipsicóticos típicos 1
Diagnóstico
O diagnóstico da DT é clínico e deve ser diferenciado de outras condições:
- Utilizar a Escala de Movimentos Involuntários Anormais (AIMS) para avaliação e monitoramento a cada 3-6 meses 1
- Registrar medidas basais de movimentos anormais antes de iniciar a terapia antipsicótica 1
- Evitar confusão com acatisia ou discinesia de retirada, que podem levar a diagnósticos incorretos 1
Tratamento
Prevenção
- Usar antipsicóticos apenas quando clinicamente indicados
- Utilizar doses mínimas eficazes
- Monitoramento regular com AIMS a cada 3-6 meses 1
Primeira Linha de Tratamento
- Retirada do antipsicótico se clinicamente viável 3
- Inibidores VMAT2 para casos moderados a graves:
Ambos demonstraram redução significativa nos sintomas de DT, com taxas de resposta variando de 33% a 50% 1.
Considerações sobre Deutetrabenazina
- A dose diária não deve exceder 36 mg/dia em pacientes que tomam inibidores fortes do CYP2D6 4
- Efeitos adversos comuns: sonolência, diarreia, boca seca e fadiga 4
- Contraindicado em uso concomitante com tetrabenazina, valbenazina ou inibidores da MAO 4
- Monitorar para possíveis efeitos como depressão, prolongamento do QTc, síndrome neuroléptica maligna, acatisia e parkinsonismo 4
Alternativas Terapêuticas
- Troca para antipsicóticos de segunda geração com menor afinidade D2, como clozapina ou quetiapina 3
- Evitar anticolinérgicos (benztropina, triexifenidil) pois podem piorar os sintomas de DT 1
- Considerar amantadina, clonazepam, ginkgo biloba ou betabloqueadores quando inibidores VMAT2 não estão disponíveis ou não são tolerados 1
- Eletroconvulsoterapia (ECT) apenas para casos graves onde medicamentos são ineficazes ou não tolerados 1
Populações Especiais
Idosos
- Maior risco de desenvolver DT (até 50% após 2 anos de uso contínuo de antipsicóticos típicos) 1
- Requer monitoramento mais frequente e doses mais baixas de antipsicóticos
Pacientes com Comprometimento Hepático
- Podem ter contraindicações para certos medicamentos, como deutetrabenazina 4
Pacientes com Doença de Huntington
- Requerem monitoramento cuidadoso para depressão e ideação suicida quando usando inibidores VMAT2 4
Prognóstico e Considerações Finais
A DT, uma vez estabelecida, frequentemente se mostra irreversível 2. O risco de permanência aumenta com o tempo, tornando crucial o diagnóstico precoce e preciso 2. A heterogeneidade farmacológica da DT reflete a complexidade neuroquímica dos gânglios da base 5, o que explica a variabilidade na resposta ao tratamento entre os pacientes.
A prevenção continua sendo a melhor estratégia para reduzir o impacto da DT, através do uso criterioso de antipsicóticos e monitoramento regular dos pacientes em tratamento de longo prazo 6.