Quadro Clínico de Camptocormia em Parkinsonismos
A camptocormia é uma deformidade postural axial caracterizada por flexão anormal da coluna toracolombar que ocorre durante a posição em pé ou ao caminhar, e é aliviada ao sentar, deitar em posição recumbente, apoiar-se contra uma parede ou usar suporte para caminhar, afetando entre 3% a 18% dos pacientes com doença de Parkinson. 1
Definição e Classificação
A camptocormia em parkinsonismos pode ser classificada em dois tipos principais:
- Camptocormia superior: Caracterizada por flexão anormal da coluna torácica, com ponto de inflexão na região torácica (ângulo UCC ≥ 45°)
- Camptocormia inferior: Caracterizada por flexão anormal da coluna lombar, com ponto de inflexão na região lombar (ângulo TCC ≥ 30°)
- Combinada: Apresenta características de ambos os tipos 2
Fisiopatologia
A patogênese da camptocormia em parkinsonismos é multifatorial, envolvendo mecanismos centrais e periféricos:
Mecanismos musculares:
Mecanismos centrais:
- Disfunção dos núcleos da base, particularmente do globo pálido interno (GPi)
- Alterações na conectividade estrutural entre o córtex somatossensorial e os gânglios da base 3
Manifestações Clínicas
- Postura: Flexão anormal da coluna toracolombar (≥ 30-45°) durante a posição em pé ou ao caminhar
- Reversibilidade: A postura anormal é aliviada ao sentar, deitar em posição recumbente ou com apoio externo
- Progressão: Geralmente progressiva e pode se tornar fixa com o tempo
- Impacto funcional: Compromete a marcha, equilíbrio e atividades diárias
- Dor: Frequentemente associada a dor lombar ou torácica
- Fadiga: Exacerbação com esforço físico prolongado
Diagnóstico
O diagnóstico da camptocormia em parkinsonismos é clínico, baseado na observação da postura característica:
- Avaliação postural: Medição dos ângulos de flexão toracolombar (TCC e UCC)
- Teste de reversibilidade: Verificação da correção da postura em posição supina
- Eletromiografia: Pode demonstrar atividade anormal dos músculos oblíquo externo (camptocormia superior) ou psoas maior (camptocormia inferior) 2
- Neuroimagem: Ressonância magnética para excluir outras causas estruturais
Fatores Prognósticos
- Duração da camptocormia: Pacientes com duração menor que 2 anos têm melhor prognóstico para intervenções terapêuticas (OR 4.15) 4
- Resposta à levodopa: A responsividade do ângulo TCC à levodopa está associada a melhor resposta a tratamentos como estimulação cerebral profunda 3
- Gravidade inicial: Ângulos TCC e UCC pré-cirúrgicos maiores estão associados a maior melhora percentual após intervenções 3
Abordagens Terapêuticas
Tratamentos Farmacológicos
- Injeção de lidocaína:
- Melhora em 8 de 9 pacientes com camptocormia superior após injeção no músculo oblíquo externo
- Melhora em 9 de 11 pacientes com camptocormia inferior após injeção no músculo psoas maior 2
Tratamentos Cirúrgicos
Estimulação Cerebral Profunda (DBS) do Globo Pálido Interno (GPi):
- Melhora da camptocormia inferior (TCC) em 40,4% (redução do ângulo de 39,1° ± 10,1° para 23,3° ± 8,1°)
- Melhora da camptocormia superior (UCC) em 22,8% (redução do ângulo de 50,5° ± 2,6° para 39,0° ± 6,7°)
- Aproximadamente 36,4% dos pacientes apresentam redução superior a 50% no desequilíbrio sagital 3, 4
Cirurgia de deformidade espinhal:
- Pode corrigir o desequilíbrio espinhal, mas está associada a alta taxa de complicações 4
Outros Tratamentos
- Estimulação magnética transespinhal repetitiva (rTSMS):
- Abordagem menos invasiva com resultados preliminares 4
Considerações Especiais
A camptocormia também pode ocorrer em outras condições, como miosite associada a anticorpos anti-Ku em sobreposição polimiosite/esclerose sistêmica, apresentando características clínicas e histopatológicas distintas 5
A avaliação cuidadosa da etiologia é fundamental para direcionar o tratamento adequado, especialmente em casos de camptocormia não responsiva às terapias convencionais para parkinsonismo
O tratamento da camptocormia em parkinsonismos permanece um desafio, com resultados inconsistentes entre diferentes modalidades terapêuticas, requerendo uma abordagem individualizada baseada no tipo de camptocormia e na duração dos sintomas