Manejo da Hiperóxia e Hipocapnia em Pacientes
O manejo adequado da hiperóxia e hipocapnia deve visar faixas de saturação específicas: 94-98% para pacientes sem risco de insuficiência respiratória hipercápnica e 88-92% para pacientes com risco de hipercapnia, como aqueles com DPOC, obesidade mórbida, fibrose cística, deformidades da parede torácica ou distúrbios neuromusculares. 1
Efeitos Deletérios da Hiperóxia
A hiperóxia (excesso de oxigênio) pode causar diversos efeitos prejudiciais:
- Vasoconstrição: A hiperóxia causa vasoconstrição direta ou através da hipocapnia induzida pela hiperoxigenação, podendo reduzir a perfusão tecidual 2
- Redução da entrega de oxigênio: Se a diminuição da perfusão for maior que o aumento do conteúdo arterial de oxigênio, a entrega regional de oxigênio diminui 2
- Lesão pulmonar: Exposição prolongada à hiperóxia em pressões parciais elevadas leva à inflamação e lesão pulmonar aguda 3
- Piores desfechos clínicos: Associada a piores resultados em pacientes com infarto do miocárdio, pós-parada cardíaca, AVC e em ressuscitação neonatal 2
Efeitos Deletérios da Hipocapnia
A hipocapnia (níveis reduzidos de CO₂) também apresenta riscos significativos:
- Vasoconstrição cerebral: Pode reduzir o fluxo sanguíneo cerebral
- Desvio da curva de dissociação da hemoglobina: Dificulta a liberação de oxigênio para os tecidos
- Alcalose respiratória: Pode causar distúrbios eletrolíticos e arritmias
Algoritmo para Manejo da Oxigenoterapia
1. Avaliação do Risco de Hipercapnia
- Identificar pacientes com risco de insuficiência respiratória hipercápnica:
- DPOC
- Obesidade mórbida
- Fibrose cística
- Deformidades da parede torácica
- Distúrbios neuromusculares
- Obstrução fixa das vias aéreas associada à bronquiectasia 1
2. Definição da Meta de Saturação
3. Administração de Oxigênio
- Usar o dispositivo e fluxo adequados para atingir a meta de saturação
- Registrar o dispositivo e fluxo no gráfico de observação junto com o resultado da oximetria 1
- Para pacientes com risco de hipercapnia:
- Cânula nasal: 1-2 L/min
- Máscara Venturi 24%: 2-3 L/min
- Máscara Venturi 28%: 4 L/min 5
4. Monitorização
- Monitorar saturação de oxigênio continuamente como "quinto sinal vital" 1
- Utilizar sistemas de "track and trigger" fisiológicos reconhecidos, como o NEWS 1
- Realizar gasometria arterial para avaliar PaCO₂ e pH em pacientes com risco de hipercapnia
- Monitorar frequência respiratória, nível de consciência e trabalho respiratório 5
5. Manejo da Hipercapnia Induzida por Oxigênio
- Se suspeitar de insuficiência respiratória hipercápnica devido à oxigenoterapia excessiva:
- Reduzir a oxigenoterapia para o nível mais baixo necessário para manter saturação de 88-92%
- Usar máscara Venturi 28% ou 24%, ou cânula nasal 1-2 L/min dependendo da saturação 1
- ATENÇÃO: Nunca interromper abruptamente a oxigenoterapia suplementar, pois pode causar hipoxemia de rebote potencialmente fatal 1
6. Ventilação Não-Invasiva para Hipercapnia Grave
- Iniciar VNI quando pH <7,35, PaCO₂ ≥6,5 kPa e frequência respiratória >23 respirações/min persistirem após uma hora de terapia médica ideal 5
- Configurações iniciais para BiPAP:
Considerações Especiais
Pacientes com Exacerbação de DPOC
- Administrar broncodilatadores (β-agonista de curta ação e ipratrópio)
- Corticosteroides sistêmicos (prednisona 30-40 mg via oral diariamente por 10-14 dias)
- Antibióticos se necessário, especialmente se houver alterações nas características do escarro 5
Pacientes com Doença Bolhosa
- Usar configurações de pressão mais cautelosas devido ao risco de pneumotórax
- Monitorar para dor torácica súbita, aumento da dispneia ou movimento torácico assimétrico 5
Pacientes com Hiperventilação
- Excluir doença orgânica antes de diagnosticar hiperventilação
- Pacientes com diagnóstico definitivo de hiperventilação devem ter sua saturação de oxigênio monitorada
- Aqueles com SpO₂ normal ou alta não necessitam de oxigenoterapia
- NÃO recomenda-se respirar em um saco de papel como tratamento para hiperventilação, pois pode ser perigoso 1
Armadilhas e Cuidados
- Evitar a normalização rápida dos níveis de CO₂, pois pode levar à alcalose metabólica 5
- Não atrasar a escalada de cuidados em caso de deterioração, pois pode resultar em piora da hipercapnia e acidose 5
- Lembrar que a hipercapnia é um sintoma, não um diagnóstico - identificar e tratar a causa subjacente 5
- Reconhecer que a interrupção súbita da oxigenoterapia suplementar pode causar hipoxemia de rebote potencialmente fatal 1
- Evitar a administração rotineira de oxigênio em pacientes não hipoxêmicos, pois não traz benefícios e pode ser prejudicial 2, 6
O manejo cuidadoso da oxigenoterapia, com metas de saturação apropriadas e monitoramento adequado, é essencial para evitar os efeitos deletérios tanto da hiperóxia quanto da hipocapnia, melhorando os resultados clínicos dos pacientes.