Riscos da Suplementação de Testosterona Após Bloqueio Hormonal para Câncer de Próstata
A suplementação de testosterona para níveis normais em pacientes que tiveram queda hormonal devido ao bloqueio androgênico para câncer de próstata apresenta riscos significativos e geralmente não é recomendada, pois pode potencialmente estimular o crescimento de células cancerígenas residuais ou ocultas.
Fundamentos Científicos
O bloqueio androgênico é um pilar do tratamento para câncer de próstata metastático, baseado no princípio de que a supressão dos níveis de testosterona causa regressão do câncer de próstata 1. Este princípio levanta a questão inversa: se diminuir a testosterona causa regressão do câncer, aumentá-la poderia estimular seu crescimento?
A preocupação com a suplementação de testosterona em pacientes com histórico de câncer de próstata é fundamentada em vários pontos:
- O câncer de próstata é considerado hormônio-dependente, e a terapia de privação androgênica (ADT) é o padrão-ouro para homens com doença metastática 1
- Historicamente, um histórico de câncer de próstata tem sido considerado uma contraindicação absoluta para terapia com testosterona 1
Evidências de Risco
Existem evidências que sugerem riscos significativos:
- Relatos de casos indicam que a terapia de reposição de testosterona pode converter um câncer oculto em uma lesão clinicamente aparente 1
- Um estudo identificou 20 homens diagnosticados com câncer de próstata após iniciarem terapia com testosterona, com 55% dos casos detectados dentro de 2 anos do início do tratamento 2
- Os tumores detectados após suplementação de testosterona tendem a ser de grau moderado a alto (Gleason 6-10) 2
Monitoramento e Detecção
Se, apesar dos riscos, a suplementação for considerada em casos selecionados:
- O exame digital retal mostrou-se particularmente importante na detecção desses cânceres, muitas vezes mais sensível que o PSA 2
- Recomenda-se monitoramento rigoroso com:
Mudança de Paradigma e Evidências Recentes
Apesar dos riscos, tem havido uma mudança de paradigma nas últimas duas décadas:
- Evidências recentes sugerem que níveis elevados de andrógenos endógenos não aumentam o risco de diagnóstico de câncer de próstata 3
- O modelo de saturação do receptor de andrógenos pode explicar por que a terapia com testosterona não necessariamente aumenta o risco 3
- Estudos limitados em homens que receberam terapia com testosterona após tratamento para câncer de próstata localizado não demonstraram taxas mais altas de recorrência 3, 4, 5
Considerações para Casos Específicos
Para pacientes que já foram tratados para câncer de próstata localizado:
- Um pequeno estudo com 5 homens que receberam suplementação de testosterona após radioterapia externa não mostrou aumento significativo do PSA, e todos relataram melhora nos sintomas de deficiência de testosterona 4
- Em uma coorte maior de 82 homens hipogonadais com câncer de próstata tratados com terapia de testosterona (incluindo 50 tratados com radioterapia, 22 com prostatectomia radical e 8 em vigilância ativa), apenas 3 (6%) tratados com radioterapia apresentaram recorrência bioquímica 5
Recomendações para Monitoramento
Se a terapia for considerada em casos muito selecionados:
- O PSA deve ter atingido um nadir antes de iniciar o tratamento 4
- O acompanhamento deve ser particularmente rigoroso, com monitoramento frequente do PSA e exame digital retal 1, 2
- Os pacientes devem estar cientes dos potenciais riscos e benefícios do tratamento 4
Conclusão
Embora haja uma tendência recente de reavaliação do papel da testosterona no câncer de próstata, os riscos potenciais da suplementação de testosterona após bloqueio hormonal para câncer de próstata ainda são significativos. A decisão deve ser baseada em uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, com monitoramento rigoroso se a terapia for iniciada.