Uso de Substâncias Vesicantes em Acesso Venoso Periférico em Pacientes Graves
O uso de substâncias vesicantes em acesso venoso periférico em pacientes graves não é recomendado, devendo-se priorizar o acesso venoso central para administração desses medicamentos devido ao alto risco de extravasamento e lesão tecidual grave. 1
Definição e Riscos das Substâncias Vesicantes
Substâncias vesicantes são medicamentos que, quando extravasados para o tecido subcutâneo ou subdérmico, podem causar:
- Danos teciduais graves
- Necrose
- Ulceração
- Formação de bolhas
- Dor intensa
- Comprometimento funcional permanente
Fatores de Risco para Extravasamento em Pacientes Graves
Os pacientes graves apresentam múltiplos fatores de risco para extravasamento:
- Veias pequenas e frágeis
- Veias endurecidas/esclerosadas devido a múltiplas punções anteriores
- Doenças associadas à circulação alterada (diabetes avançado, doença vascular periférica grave)
- Predisposição a sangramento ou anormalidades de coagulação
- Déficits sensoriais que prejudicam a capacidade de relatar sintomas
- Dificuldades de comunicação (pacientes intubados, sedados)
- Necessidade de infusões prolongadas 1
Recomendações Baseadas em Evidências
Escolha do Acesso Vascular
Para substâncias vesicantes:
Quando o acesso periférico for a única opção:
- Utilizar veias grandes do antebraço
- Evitar veias sobre articulações, fossa antecubital, dorso da mão e punho
- Não utilizar extremidades inferiores
- Evitar áreas com linfedema 1
Técnica de Administração
Se for absolutamente necessário utilizar acesso periférico para substâncias vesicantes:
- Utilizar cateteres flexíveis (nunca agulhas tipo "butterfly")
- Verificar o retorno venoso antes e durante a administração
- Monitorar continuamente o local de inserção
- Administrar doses em bolus juntamente com infusão rápida de solução compatível
- Realizar flush com 10-20 ml de solução salina entre diferentes infusões 1
Populações Especiais
Para pacientes críticos, as diretrizes da Sociedade de Doenças Infecciosas da América (IDSA) alertam sobre o risco aumentado de complicações vasculares com antimicrobianos vesicantes em acesso periférico 1. A evidência é de baixa qualidade, mas sugere associação entre o uso de antimicrobianos vesicantes e eventos adversos relacionados ao cateter.
Manejo de Extravasamento
Em caso de extravasamento:
- Interromper imediatamente a infusão
- Não remover o cateter
- Aspirar qualquer medicamento residual
- Administrar antídoto específico quando disponível (ex: fentolamina para vasopressores)
- Considerar hialuronidase para extravasamentos hiperosmolares 2, 3
Considerações Práticas
- A incidência de extravasamento pode chegar a 4% mesmo em condições controladas 4
- Medicamentos com pH extremo, alta osmolaridade ou propriedades vasoconstritoras apresentam maior risco 3
- A identificação precoce de sinais de extravasamento (dor, ardor, edema, vermelhidão) é crucial para minimizar danos 1
Conclusão
O uso de substâncias vesicantes em acesso venoso periférico em pacientes graves representa um risco significativo de morbidade. A prática segura exige avaliação cuidadosa do risco-benefício, com forte preferência por acesso venoso central quando substâncias vesicantes são necessárias. Quando o acesso central não for possível, medidas rigorosas de prevenção e monitoramento devem ser implementadas para minimizar o risco de extravasamento e suas consequências potencialmente devastadoras.