Abordagem Diagnóstica e Manejo dos Distúrbios Gastrointestinais
A abordagem diagnóstica e manejo das síndromes diarreicas, hemorragia digestiva, câncer colorretal e síndromes hereditárias deve seguir protocolos específicos baseados em evidências, priorizando a identificação precoce e intervenção adequada para reduzir morbimortalidade.
Síndromes Diarreicas e Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Diagnóstico da SII
- O diagnóstico da SII deve ser baseado nos critérios de Roma IV, que incluem dor abdominal recorrente pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses, associada a pelo menos dois dos seguintes: relação com defecação, alteração na frequência das fezes ou alteração na forma das fezes 1
- A SII é um diagnóstico positivo baseado em sintomas característicos, não sendo um diagnóstico de exclusão 1
- Uma história clínica detalhada deve avaliar o impacto dos sintomas na vida do paciente, fatores psicossociais e comorbidades que influenciam a apresentação e manejo 1
Sinais de Alarme
- A presença de sinais de alarme requer investigação adicional para excluir causas orgânicas: perda de peso inexplicada, sangramento retal, anemia, história familiar de câncer colorretal ou doença inflamatória intestinal, início de sintomas após os 50 anos 1
- Bloqueio abdominal persistente em pacientes do sexo feminino deve levar à consideração de CA-125 e ultrassom pélvico para excluir câncer de ovário 1
Indicações de Colonoscopia
- Colonoscopia está indicada na presença de sinais de alarme, idade >50 anos com início recente dos sintomas, ou quando há forte suspeita de doença inflamatória intestinal 1
- A colonoscopia não é necessária em pacientes jovens com sintomas típicos de SII sem sinais de alarme 1
Manejo da Diarreia
- Independente da causa, a diarreia deve ser tratada com adequada reposição oral ou intravenosa de fluidos e eletrólitos 1
- Pacientes devem ser monitorados para sinais de desnutrição e estado catabólico 1
Hemorragia Digestiva Alta e Baixa
Causas Mais Comuns
- Hemorragia digestiva alta: varizes esofágicas, úlcera péptica, gastrite erosiva 1
- Hemorragia digestiva baixa: diverticulose, angiodisplasia, neoplasias, doença inflamatória intestinal 1
Conduta Inicial e Estabilização
- Avaliação hemodinâmica imediata com monitoramento de sinais vitais e acesso venoso adequado 1
- Reposição volêmica com cristaloides e/ou hemoderivados conforme necessário 1
- Correção de coagulopatias e suspensão de anticoagulantes/antiagregantes quando possível 1
Indicações de Endoscopia e Classificação de Risco
- Endoscopia digestiva alta deve ser realizada nas primeiras 24 horas em pacientes com hemorragia digestiva alta 1
- A classificação de Glasgow-Blatchford deve ser utilizada para estratificar o risco e determinar a urgência da endoscopia 1
- Escores de Rockall pós-endoscópico ajudam a prever o risco de ressangramento e mortalidade 1
Câncer Colorretal e Rastreamento
Diretrizes de Rastreamento
- Colonoscopia é o método recomendado para rastreamento de câncer colorretal em indivíduos de risco médio entre 50-74 anos, com intervalo de repetição de 10 anos para teste negativo 1
- Teste imunoquímico fecal (FIT) é recomendado anualmente para indivíduos que recusam colonoscopia 1
- Sigmoidoscopia flexível a cada 5-10 anos pode ser uma alternativa, preferencialmente combinada com teste de sangue oculto nas fezes anualmente 1
Pólipos Adenomatosos e Conduta
- Todos os pólipos detectados durante a colonoscopia devem ser removidos e enviados para análise histopatológica 1
- O intervalo de vigilância pós-polipectomia depende do número, tamanho e histologia dos pólipos removidos 1
Fatores de Risco Familiares e Síndromes Hereditárias
- Indivíduos com história familiar de câncer colorretal ou adenoma, doença inflamatória intestinal, ou síndromes hereditárias são considerados de alto risco e necessitam de rastreamento mais intensivo 1
Síndromes Hereditárias de Câncer Colorretal
Síndrome de Lynch (HNPCC)
- Testes tumorais com imuno-histoquímica para proteínas MMR e/ou MSI são recomendados em indivíduos com câncer colorretal 1
- Se houver perda de MLH1 no tumor, análise da mutação BRAF V600E ou análise da metilação do promotor MLH1 deve ser realizada para descartar caso esporádico 1
- Colonoscopia a cada 1-2 anos é recomendada para portadores de mutação 1
Polipose Adenomatosa Familiar (PAF)
- O diagnóstico é feito pela presença de mais de 100 pólipos adenomatosos colorretais ou pela identificação de mutação no gene APC 1
- Vigilância endoscópica anual é recomendada a partir dos 10-12 anos de idade 1
- Colectomia profilática é geralmente necessária antes dos 25 anos de idade 1
Síndrome de Polipose Serrilhada (SPS)
- O diagnóstico deve ser feito de acordo com os critérios da OMS 2019 para SPS 1
- Vigilância colonoscópica anual é recomendada após a remoção de todas as lesões >5mm 1
- Familiares de primeiro grau devem realizar colonoscopia de rastreamento aos 40 anos ou 10 anos antes do diagnóstico do caso índice 1
Avaliação Geriátrica Ampla em Distúrbios Gastrointestinais
- A avaliação geriátrica deve considerar comorbidades, polifarmácia, estado nutricional e funcional 1
- O rastreamento de câncer colorretal em idosos deve ser individualizado com base na expectativa de vida, comorbidades e preferências do paciente 1
- Em pacientes idosos com hemorragia digestiva, a estratificação de risco é especialmente importante devido à maior morbimortalidade nessa população 1
Considerações Especiais em Idosos
- Maior risco de desidratação e desequilíbrios eletrolíticos em casos de diarreia 1
- Maior risco de complicações relacionadas a procedimentos endoscópicos 1
- Necessidade de ajuste de doses medicamentosas e avaliação de interações medicamentosas 1
Abordagem Genômica em Distúrbios Gastrointestinais
- Métodos de sequenciamento de nova geração (NGS) estão disponíveis para testes clínicos de painéis de genes candidatos ou do exoma humano completo 1
- O custo varia de $500 a $3.000 para testes de painel de genes e de $7.000 a $12.000 para sequenciamento completo do exoma 1
- Pacientes com câncer colorretal diagnosticado antes dos 30 anos com dMMR devem realizar teste de painel constitucional para síndrome de Lynch, seguido de teste tumoral para análise somática se o teste constitucional for negativo 1