Imunologia do HIV
A infecção pelo HIV caracteriza-se por uma progressiva destruição dos linfócitos T CD4+, levando à imunodeficiência e consequente aumento da suscetibilidade a infecções oportunistas e neoplasias, resultando em maior morbidade e mortalidade se não tratada adequadamente.
Mecanismo de infecção e replicação viral
- O HIV é um retrovírus que infecta principalmente células que expressam o receptor CD4, incluindo linfócitos T CD4+, macrófagos e células dendríticas 1
- O ciclo de replicação viral inicia-se com a ligação da glicoproteína gp120 do envelope viral ao receptor CD4 e a um correceptor (principalmente CCR5 ou CXCR4) na superfície celular 1
- Após a fusão do envelope viral com a membrana celular, o material genético viral (RNA) é liberado no citoplasma e convertido em DNA pela enzima transcriptase reversa 1
- O DNA viral é então integrado ao genoma da célula hospedeira pela enzima integrase, formando o provírus 1
- A replicação viral ocorre quando a célula infectada é ativada, levando à produção de novas partículas virais que podem infectar outras células 1
Impacto na resposta imunológica
- A principal característica da infecção pelo HIV é a depleção progressiva dos linfócitos T CD4+, que são fundamentais para a coordenação da resposta imune 1
- Mesmo em estágios iniciais da infecção, quando os níveis de CD4 ainda são normais, há evidências de ativação imune e inflamação crônica que contribuem para a patogênese da doença 1
- A viremia não controlada causa ativação imune e inflamação que aumentam o risco de complicações a longo prazo, como doença coronariana, acidente vascular cerebral, comprometimento neurocognitivo, neoplasias e osteoporose 1
- A viremia por HIV é um fator de risco para morte independente da contagem de células CD4 1
Progressão da doença
Sem tratamento, a infecção pelo HIV progride através de diferentes estágios clínicos e imunológicos 1:
- Infecção aguda: caracterizada por alta viremia e queda transitória de CD4
- Fase crônica: relativa estabilidade clínica com declínio gradual de CD4
- Fase avançada: contagens de CD4 abaixo de 200 células/mm³ e maior risco de infecções oportunistas
A contagem normal de CD4 varia com a idade 1:
- Em lactentes até 12 meses: >1500 células/mm³
- Em crianças de 2-5 anos: >1000 células/mm³
- Após 5 anos: valores semelhantes aos adultos
Monitoramento imunológico
- A contagem de células CD4+ e a carga viral são os principais parâmetros laboratoriais para monitorar a progressão da doença e a resposta ao tratamento 1
- Recomenda-se monitorar a contagem de CD4 a cada 3-4 meses para avaliar a necessidade de iniciar terapia antirretroviral (TARV) ou a eficácia do tratamento 1
- Para pacientes em regimes supressivos de TARV cujas contagens de CD4 aumentaram significativamente acima do limiar de risco para infecções oportunistas, o monitoramento pode ser realizado a cada 6-12 meses 1
- O monitoramento exclusivo de CD4 não é suficiente para identificar com precisão pacientes com falha virológica em uso de TARV, sendo necessária a quantificação da carga viral 2
Impacto do tratamento na imunologia
- A terapia antirretroviral (TARV) suprime a replicação viral, permitindo a reconstituição parcial do sistema imunológico 1
- O início precoce da TARV está associado a melhor recuperação imunológica e menor risco de complicações relacionadas à AIDS e não relacionadas à AIDS 3
- A reconstituição imune parcial induzida pela TARV pode permitir a eliminação de terapias desnecessárias (como profilaxias para infecções oportunistas) 1
- O aparecimento de células T naive após início da TARV sugere recuperação da função tímica 1
Considerações especiais em populações específicas
Crianças
- Lactentes infectados pelo HIV devem iniciar TARV no primeiro ano de vida, independentemente da contagem de CD4, nível de RNA viral ou status clínico, devido à rápida progressão da doença nessa faixa etária 1
- As contagens normais de CD4 em crianças são consideravelmente mais altas que em adultos e diminuem gradualmente até os valores adultos por volta dos 6 anos de idade 1
- Em crianças pequenas, a porcentagem de CD4 é menos variável que a contagem absoluta, sendo um melhor marcador para identificar a progressão da doença 1
Gestantes
- Mulheres grávidas devem ser tratadas para infecção pelo HIV, independentemente do status imunológico ou virológico, para prevenir a infecção do feto 1
- A taxa de transmissão materno-infantil é <1% em mulheres que atingem carga viral indetectável durante o tratamento 1
Conclusão
A infecção pelo HIV causa um comprometimento progressivo do sistema imunológico, principalmente através da depleção de células T CD4+, levando à imunodeficiência. O tratamento antirretroviral precoce é fundamental para preservar a função imune, reduzir a inflamação crônica e prevenir complicações relacionadas e não relacionadas à AIDS, melhorando significativamente a morbidade e mortalidade dos pacientes infectados.