Mirtazapina e Hipotireoidismo
Recomendação Principal
A mirtazapina pode ser usada com segurança em pacientes com hipotireoidismo, mas requer monitoramento cuidadoso da função tireoidiana, pois pode aumentar o risco de hipotiroxinemia e alterar os níveis de hormônios tireoidianos.
Evidências sobre Mirtazapina e Função Tireoidiana
Efeitos Documentados nos Hormônios Tireoidianos
- A mirtazapina está associada a um risco aumentado de desenvolver hipotiroxinemia em pacientes com transtorno depressivo maior, com risco relativo de 1,70 (IC 95%: 1,21-2,43) após ajuste para fatores de confusão 1
- A incidência de hipotiroxinemia foi significativamente maior em pacientes usando mirtazapina (37,5%) comparado aos que não usaram (19,7%) 1
- O tratamento prolongado (6 meses) com mirtazapina aumenta significativamente os níveis de T3 livre (P=0,015) e diminui os níveis de T4 livre (P=0,046), possivelmente envolvendo o processo de desiodação de T4 em T3 2
- Não foram encontradas alterações significativas nos níveis de TSH durante o tratamento com mirtazapina 2
Mecanismo Fisiopatológico
- O mecanismo subjacente pode envolver alteração do ponto de ajuste central da homeostase tireoidiana, com a hipófise apresentando sensibilidade possivelmente prejudicada aos níveis mais baixos de hormônios tireoidianos 1
- A redução no índice quantílico de feedback tireoidiano foi significativamente maior no grupo mirtazapina comparado ao grupo sem mirtazapina 1
Protocolo de Uso em Pacientes com Hipotireoidismo
Avaliação Pré-Tratamento
- Antes de iniciar mirtazapina, obtenha níveis basais de TSH e T4 livre para estabelecer a função tireoidiana atual 3
- Confirme que pacientes com hipotireoidismo estão adequadamente tratados com levotiroxina, com TSH dentro da faixa de referência (0,5-4,5 mIU/L) 3
- Nunca inicie hormônio tireoidiano antes de descartar insuficiência adrenal em pacientes com suspeita de hipotireoidismo central, pois isso pode precipitar crise adrenal 4
Monitoramento Durante o Tratamento
- Monitore TSH e T4 livre a cada 6-8 semanas durante os primeiros 3-6 meses de tratamento com mirtazapina em pacientes com hipotireoidismo 3, 5
- Após estabilização, repita os testes a cada 6-12 meses ou se houver mudança nos sintomas 3, 5
- Avalie especificamente o desenvolvimento de hipotiroxinemia (T4 livre baixo), mesmo com TSH normal, pois este é o padrão mais comum associado à mirtazapina 1
Ajuste da Dose de Levotiroxina
- Se TSH aumentar para >10 mIU/L durante o tratamento com mirtazapina, aumente a dose de levotiroxina em 12,5-25 mcg, independentemente dos sintomas 3
- Para TSH entre 4,5-10 mIU/L com T4 livre normal, considere ajuste de dose se o paciente desenvolver sintomas de hipotireoidismo (fadiga, ganho de peso, intolerância ao frio) 3
- Reavalie a função tireoidiana 6-8 semanas após qualquer ajuste de dose 3, 5
Considerações Especiais
Pacientes Idosos ou com Doença Cardíaca
- Para pacientes >70 anos ou com doença cardíaca, use incrementos menores de levotiroxina (12,5 mcg) para evitar complicações cardíacas potenciais 3
- Monitore mais frequentemente (a cada 2 semanas) em pacientes com fibrilação atrial ou doença cardíaca grave 3
Mulheres Grávidas ou Planejando Gravidez
- O hipotireoidismo inadequadamente tratado durante a gravidez está associado a risco aumentado de pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e efeitos no neurodesenvolvimento 4, 3
- Normalização mais agressiva do TSH é necessária em mulheres planejando gravidez, pois os requisitos de levotiroxina tipicamente aumentam 25-50% durante a gravidez 3
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não trate baseado em um único valor elevado de TSH - 30-60% dos valores elevados normalizam na repetição do teste 3
- Não negligencie a hipotiroxinemia - atenção apenas ao TSH elevado pode perder casos de hipotiroxinemia com TSH normal, que é o padrão mais comum com mirtazapina 1
- Evite ajustes de dose muito frequentes - aguarde 6-8 semanas entre ajustes para permitir que o estado de equilíbrio seja alcançado 3, 5
- Não subestime o risco de sobretratamento - levotiroxina excessiva aumenta o risco de fibrilação atrial, osteoporose e complicações cardíacas, especialmente em idosos 3
Comparação com Outros Antidepressivos
- Os ISRSs (fluoxetina e sertralina) demonstraram segurança em pacientes hipotireoideos em terapia adequada com levotiroxina, sem alterações clinicamente significativas na função tireoidiana 6
- A mirtazapina oferece benefícios adicionais, incluindo estimulação do apetite e pode ser usada para sono, tornando-a uma opção valiosa apesar da necessidade de monitoramento tireoidiano 4
- A mirtazapina demonstrou ser segura em pacientes com doença cardiovascular, com menos eventos adversos anticolinérgicos, adrenérgicos e serotoninérgicos comparada aos antidepressivos tricíclicos 4, 7