Análise do Manejo Clínico e Oportunidades de Prevenção do Óbito
A paciente apresentou um quadro de fasciite necrotizante com choque séptico refratário, e as principais falhas evitáveis foram: antibioticoterapia empírica inadequada pré-hospitalar, atraso no controle cirúrgico da fonte de infecção, e possível abordagem cirúrgica inicial inadequada para uma paciente em choque séptico.
Falhas Críticas na Antibioticoterapia
Escolha Inadequada de Antibióticos Pré-Hospitalares
- O esquema inicial com benzetacil, metronidazol e ciprofloxacino foi completamente inadequado para uma infecção necrotizante de tecidos moles com sinais de sepse grave. 1, 2
- Para infecções graves de tecidos moles com sinais de choque séptico, a terapia empírica deve incluir cobertura de amplo espectro com beta-lactâmico de espectro estendido (piperacilina-tazobactam ou carbapenem) iniciada dentro da primeira hora do reconhecimento da sepse. 1, 2
- A benzetacil (penicilina benzatina) tem absorção lenta e não atinge níveis séricos adequados para infecções graves, sendo completamente contraindicada em sepse. 1
Atraso na Administração de Antibióticos Apropriados
- Cada hora de atraso na administração de antibióticos apropriados em choque séptico aumenta significativamente a mortalidade. 1, 2, 3
- A paciente recebeu dois dias de antibioticoterapia inadequada antes da admissão hospitalar, permitindo progressão descontrolada da infecção. 1
- O esquema correto deveria ter sido piperacilina-tazobactam 4,5g IV a cada 6 horas OU meropenem 1g IV a cada 8 horas, iniciado imediatamente ao reconhecimento dos sinais de sepse. 2
Ausência de Terapia Combinada
- Em pacientes com choque séptico e infecções necrotizantes de tecidos moles, a terapia combinada com pelo menos duas classes de antibióticos aumenta a probabilidade de cobertura adequada e melhora os desfechos. 1
- Deveria ter sido considerada a adição de clindamicina (para efeito antitoxina e cobertura de Streptococcus e Staphylococcus) ou aminoglicosídeo (amicacina) ao beta-lactâmico de amplo espectro. 1, 2
Falhas no Controle da Fonte de Infecção
Atraso no Debridamento Cirúrgico
- O controle cirúrgico da fonte deve ser realizado dentro das primeiras 12 horas após o diagnóstico de infecção necrotizante, idealmente assim que o paciente esteja hemodinamicamente estável. 1, 3
- A paciente apresentava sinais de infecção necrotizante há pelo menos 3 dias antes da admissão, com atraso crítico no debridamento definitivo. 1
- O controle inadequado da fonte é um determinante independente de mortalidade em sepse abdominal e de tecidos moles. 3
Estratégia Cirúrgica Inicial Inadequada
- Em pacientes com fasciite necrotizante complicada por choque séptico na admissão, uma estratégia cirúrgica temporária (incisões e drenagem simples sob anestesia regional) seguida de debridamento completo 24 horas depois demonstrou menor mortalidade (26,3% vs 60%) comparada ao debridamento agressivo imediato. 4
- A abordagem temporária resulta em: menor tempo operatório (40 vs 102 minutos), menor sangramento (120 vs 417 mL), menor necessidade de vasopressores intraoperatórios, e menores níveis de lactato ao final da cirurgia. 4
- Não está claro se a paciente foi submetida a debridamento agressivo imediato enquanto em choque séptico refratário, o que pode ter agravado a instabilidade hemodinâmica. 4
Falhas na Ressuscitação Inicial
Possível Ressuscitação Volêmica Inadequada
- A ressuscitação inicial deve visar PAM ≥65 mmHg com endpoints clínicos incluindo perfusão cutânea, estado mental e débito urinário. 1, 3
- O uso de noradrenalina e vasopressina sugere choque refratário, mas não há informação sobre a adequação da ressuscitação volêmica prévia. 1
- Ressuscitação volêmica excessivamente agressiva em infecções abdominais/tecidos moles pode aumentar a pressão intra-abdominal e piorar a resposta inflamatória, mas ressuscitação inadequada também aumenta mortalidade. 1
Monitorização e Ajustes Hemodinâmicos
- Não há menção de monitorização de lactato seriado, que é fundamental para avaliar resposta à ressuscitação. 4
- A necessidade de dois vasopressores (noradrenalina E vasopressina) indica choque profundo, possivelmente relacionado ao atraso no controle da fonte e antibioticoterapia inadequada. 1, 3
Algoritmo do Que Deveria Ter Sido Feito
Nas Primeiras 3 Horas (Pré-Hospitalar/Emergência)
- Reconhecimento imediato de sepse grave: dor intensa, edema, hiperemia em nádega + febre + dispneia = SEPSE GRAVE 1, 3
- Coleta de culturas (sangue, tecido) sem atrasar antibióticos 3
- Antibióticos IV dentro de 1 hora:
- Ressuscitação volêmica agressiva inicial visando PAM ≥65 mmHg 1, 3
- Avaliação cirúrgica URGENTE 1, 3
Nas Primeiras 6-12 Horas
- Se choque séptico presente na admissão:
- Se hemodinamicamente estável:
- Debridamento agressivo imediato 1
- Reavaliação a cada 6-12 horas 3
Nas Primeiras 24-48 Horas
- Debridamento completo se estratégia temporária foi usada 4
- Desescalonamento antibiótico baseado em culturas 1, 2, 3
- Reavaliação cirúrgica diária para novos debridamentos se necessário 1
Armadilhas Comuns Evitáveis
- Nunca usar penicilina benzatina (benzetacil) em infecções graves ou sepse - absorção inadequada e níveis séricos insuficientes 1
- Não atrasar antibióticos para aguardar culturas - coletar culturas rapidamente mas não atrasar terapia empírica 3
- Não subestimar infecções de tecidos moles em pacientes jovens - fasciite necrotizante pode progredir rapidamente independente da idade 1, 4
- Evitar debridamento agressivo prolongado em pacientes com choque séptico não controlado - considerar abordagem temporária primeiro 4
- Não usar monoterapia em choque séptico - terapia combinada aumenta probabilidade de cobertura adequada 1
Fatores Prognósticos Desfavoráveis Presentes
- Choque séptico refratário a dois vasopressores indica alta mortalidade basal 5, 6
- Atraso de 3 dias com antibioticoterapia inadequada permitiu progressão para necrose extensa 1, 4
- Possível síndrome compartimental ou hipertensão intra-abdominal não mencionada mas provável 1
A combinação de antibioticoterapia inadequada por 48-72 horas, atraso no controle cirúrgico da fonte, e possível estratégia cirúrgica inadequada para o grau de choque foram os fatores modificáveis mais críticos que contribuíram para o desfecho fatal. 1, 2, 3, 4