Lítio e Diarreia Crônica
Sim, o lítio pode causar diarreia crônica, sendo este um efeito adverso bem reconhecido que ocorre em aproximadamente 6% dos pacientes em tratamento prolongado, embora a diarreia seja mais frequentemente um sinal precoce de toxicidade do que um efeito colateral isolado. 1, 2
Mecanismos e Padrões de Apresentação
O lítio pode causar diarreia através de dois mecanismos principais:
Como efeito adverso dose-dependente: A diarreia aparece como sintoma de toxicidade quando os níveis séricos excedem 1.5 mEq/L, frequentemente acompanhada de vômitos, sonolência, fraqueza muscular e falta de coordenação 1, 3
Como efeito colateral em doses terapêuticas: Aproximadamente 6% dos pacientes desenvolvem queixas de diarreia (fezes soltas, urgência defecatória) durante os primeiros 6 meses de tratamento, com a frequência aumentando acentuadamente quando os níveis séricos ultrapassam 0.8 mmol/L 2
Diferenciação Crítica: Toxicidade vs. Efeito Colateral
É fundamental distinguir entre diarreia como manifestação de toxicidade versus efeito colateral benigno:
Sinais de alerta para toxicidade: Diarreia acompanhada de vômitos, tremor, ataxia leve, sonolência ou fraqueza muscular indica toxicidade precoce e requer suspensão imediata do lítio e contato com o médico 1, 3
Efeito colateral isolado: Diarreia leve e transitória pode ocorrer nos primeiros dias de tratamento, geralmente desaparecendo com a continuação do tratamento ou redução temporária da dose 1
Fatores de Risco e Precipitantes
Várias condições aumentam o risco de diarreia relacionada ao lítio:
Desidratação e depleção de sódio: O lítio diminui a reabsorção tubular renal de sódio, podendo levar à depleção de sódio. Sudorese prolongada ou diarreia preexistente reduzem a tolerância ao lítio, criando um ciclo vicioso 1, 3
Administração em jejum: Estudos demonstram que aproximadamente 20% dos indivíduos desenvolvem diarreia quando o lítio é administrado em jejum, comparado a praticamente nenhum efeito colateral quando administrado após refeições 4
Interações medicamentosas: AINEs, diuréticos e inibidores da ECA podem aumentar os níveis séricos de lítio ao reduzir sua depuração renal, aumentando o risco de toxicidade e diarreia 1, 3
Abordagem Clínica Recomendada
Avaliação Inicial
Quando um paciente em uso de lítio apresenta diarreia:
Medir imediatamente os níveis séricos de lítio para distinguir entre efeito colateral e toxicidade 3
Avaliar fatores precipitantes: desidratação, interações medicamentosas (especialmente AINEs), comprometimento renal, ou doenças intercorrentes 3
Verificar sinais associados de toxicidade: tremor, náusea, fraqueza muscular, ataxia, alterações do estado mental 1, 3
Manejo Baseado na Gravidade
Para diarreia leve isolada com níveis terapêuticos (<1.0 mEq/L):
- Administrar o lítio após as refeições para minimizar irritação gastrointestinal 4
- Manter hidratação adequada (2500-3000 mL/dia) e ingestão normal de sal 1
- Considerar redução temporária da dose se os sintomas persistirem 1
Para diarreia com níveis séricos elevados (>1.5 mEq/L) ou sinais de toxicidade:
- Suspender imediatamente o lítio 1, 3
- Administrar fluidos e suplementação de sal conforme necessário 1
- Monitorar eletrólitos e função renal 3
- Considerar hemodiálise se níveis ≥3.5 mEq/L com sintomas significativos ou comprometimento cardiovascular 3
Armadilhas Comuns e Prevenção
Não ignorar diarreia "leve": Mesmo sintomas aparentemente benignos podem preceder toxicidade grave, especialmente em intoxicação crônica 5
Evitar AINEs: Estes medicamentos aumentam significativamente os níveis de lítio; indometacina e piroxicam são particularmente problemáticos 1
Suspender temporariamente durante doenças intercorrentes: Febre, infecções, preparação intestinal para procedimentos, ou cirurgia de grande porte requerem suspensão temporária do lítio 3
Monitoramento regular: Níveis séricos de lítio, eletrólitos e função renal devem ser monitorados regularmente, especialmente durante a fase aguda do tratamento 3
Consideração Paradoxal
Interessantemente, existe um relato de caso isolado onde o lítio foi usado com sucesso para tratar diarreia secretória crônica refratária, sugerindo que o lítio pode ter efeitos antidiarreicos em contextos específicos de diarreia secretória mediada por AMPc 6. No entanto, este é um achado experimental isolado e não altera a recomendação clínica padrão de que a diarreia em pacientes usando lítio deve ser considerada um efeito adverso potencialmente grave.