O que é a Neuropatia de Fibras Finas
A neuropatia de fibras finas (NFF) é uma doença do sistema nervoso periférico caracterizada pelo dano às fibras nervosas finas mielinizadas Aδ e às fibras não-mielinizadas C, manifestando-se principalmente com dor neuropática (frequentemente descrita como queimação), alterações na percepção de temperatura e dor, e disfunção autonômica. 1, 2
Características Fisiopatológicas
- As fibras finas constituem 79,6% a 91,4% das fibras nervosas periféricas 3
- As fibras Aδ são finamente mielinizadas e as fibras C são não-mielinizadas, ambas responsáveis pela percepção de dor e temperatura 4, 1
- Diferentemente das neuropatias de fibras grandes (que afetam fibras Aα e Aβ mielinizadas), a NFF não pode ser detectada por estudos de condução nervosa convencionais 5, 6
Apresentação Clínica
Sintomas Sensoriais
- Dor neuropática tipicamente distal, simétrica, com exacerbação noturna 3
- Descritores de dor incluem: queimação, formigamento, dor em pontada, choques elétricos 3, 7
- Alodinia e disestesias ao exame físico 3
- Hipoestesia térmica e dolorosa em aproximadamente 50% dos pacientes 7
Sintomas Autonômicos
- Disfunção vascular periférica em cerca de 70% dos pacientes 7
- Hipotensão postural, distúrbios vesicais, redução da variabilidade da frequência cardíaca 5
- Alterações sudomotoras que contribuem para ulceração plantar em diabéticos 3
Apresentação Heterogênea
- Estudos recentes identificam três fenótipos distintos: um subgrupo com dor intensa (20% dos pacientes), um grupo pauci-sintomático, e o maior grupo caracterizado por fadiga intensa e mialgias com dor menos proeminente 8
Diagnóstico
Padrão-Ouro
A biópsia de pele com quantificação da densidade de fibras nervosas intraepidérmicas (IENFD) é o padrão-ouro para diagnóstico, especialmente quando os estudos de condução nervosa são normais. 6
- Sensibilidade de 77,2-88% e especificidade de 79,6-88,8% 3, 6
- Eficiência diagnóstica de 88,4% comparada a 46,9% dos testes sensoriais quantitativos 7
- Ponto de corte de ≤8 fibras/mm no tornozelo demonstra boa acurácia 3
- A densidade diminui com a idade, mas não é influenciada por peso ou altura 3
Testes Complementares
- Testes sensoriais quantitativos (QST) para limiares térmicos complementam a biópsia de pele 6, 7
- Testes de função autonômica como QSART (teste quantitativo do reflexo axonal sudomotor) documentam disfunção de fibras finas com alta sensibilidade 6
- Correlação inversa significativa entre densidade de IENF e limiares térmicos na perna 7
Critérios Diagnósticos
- Critérios de Besta (prática clínica): incluem biópsia de pele e testes sensoriais quantitativos 1
- Critérios ACTTION são recomendados para ensaios clínicos 1
- Diagnóstico estabelecido com pelo menos dois resultados anormais entre: exame clínico, QST e biópsia de pele 7
Armadilhas Diagnósticas Comuns
- Nunca confiar apenas em estudos de condução nervosa, pois estes avaliam apenas fibras grandes e perderão o diagnóstico de NFF 6
- O dano às fibras finas frequentemente precede o dano às fibras grandes na neuropatia diabética 3, 6, 4
- A densidade de IENF está significativamente reduzida em pacientes diabéticos mesmo com condução nervosa normal, sugerindo dano precoce 3, 6
Etiologia e Evolução
Causas Associadas
- Diabetes e pré-diabetes 3, 1, 2
- Doenças autoimunes 1, 2
- Exposição a drogas e toxinas 1, 2
- Canalopatias genéticas (mutações em SCN9A, SCN10A, SCN11A, TRPA1) 1, 2
- Permanece idiopática em 41,8% dos casos inicialmente 7
Progressão Natural
- Em 13% dos pacientes, ocorre envolvimento de fibras grandes em 2 anos 7
- Remissão espontânea da dor em 10,9% dos casos 7
- Piora da dor em 30,4% dos pacientes 7
- A densidade de IENF correlaciona-se inversamente com a gravidade da neuropatia diabética 3
Considerações Especiais
- A intensidade da dor neuropática é mais grave na NFF do que em neuropatias de fibras grandes ou mistas, mas não há correlação significativa com a densidade de IENF 7
- Evitar resfriamento excessivo das extremidades como estratégia de alívio da dor, pois pode piorar o dano tecidual e levar a ulcerações 6
- Considerar biópsia de pele repetida em casos selecionados para monitorar progressão ou resposta ao tratamento 6
- Controle glicêmico rigoroso é essencial para prevenir progressão em diabéticos 6