Sim, a polineuropatia periférica pode aumentar os níveis plasmáticos de neurofilamentos de cadeias leves (NfL)
A polineuropatia periférica causa elevação significativa dos níveis plasmáticos de NfL, refletindo o dano neuroaxonal ativo, com níveis que se correlacionam diretamente com a gravidade e atividade da doença. 1, 2
Evidência do Aumento de NfL em Polineuropatias
Os níveis de NfL estão significativamente elevados em pacientes com neuropatias periféricas adquiridas quando comparados a controles saudáveis (P < 0.001), tanto no soro (mediana: 31.52 pg/mL, variação: 4.33-1178) quanto no líquido cefalorraquidiano (mediana: 1407 pg/mL, variação: 140.2-12,661). 1
Esta elevação foi documentada em múltiplos subtipos de polineuropatia, incluindo:
Síndrome de Guillain-Barré (SGB): Níveis elevados de NfL predizem incapacidade funcional após 1 ano, com odds ratio de 2.18 (IC 95%: 1.04-4.56) para incapacidade de correr em pacientes com níveis altos. 2
Polineuropatia Desmielinizante Inflamatória Crônica (CIDP): Estudos mostram resultados divergentes, com 2 de 5 estudos encontrando associação significativa entre níveis de NfL e desfechos clínicos. 2
Amiloidose ATTR-V30M: NfL plasmático discrimina portadores assintomáticos de pacientes sintomáticos precoces com alta acurácia (AUC = 0.97; P < 0.001), sensibilidade de 92.3% e especificidade de 93.8%. 3, 4
Correlação com Atividade e Gravidade da Doença
Existe correlação estatisticamente significativa entre os níveis séricos de NfL e a atividade da doença no momento da coleta (r = 0.52, P < 0.01) e no seguimento final (r = 0.53, P < 0.01). 1
Os níveis de NfL aumentam proporcionalmente à gravidade da doença, conforme avaliado por escores de incapacidade polineuropática, escores de exame neurológico (CMTNS, NIS, MRC; todos P < 0.01) e estadiamento da doença (PND e FAP; todos P < 0.05). 5
Fatores Confundidores Importantes a Considerar
A Associação Americana de Geriatria e a Academia Nacional de Envelhecimento enfatizam que a idade é o fator confundidor mais importante na interpretação de NfL, com relação idade-dependente forte que complica a avaliação clínica, especialmente em pacientes acima de 70 anos. 6, 7
Outros fatores que influenciam os níveis de NfL incluem:
- Índice de massa corporal (IMC) 6, 7
- Função renal comprometida 6, 7
- Presença de outras neuropatias periféricas concomitantes 6, 7
Algoritmo Prático de Interpretação
Para interpretar adequadamente os níveis elevados de NfL no contexto de polineuropatia periférica:
Ajuste para idade: Utilize valores de referência ajustados para idade, pois valores considerados patológicos em jovens podem ser normais em idosos. 7, 8
Avalie fatores confundidores: Verifique função renal, IMC e presença de outras condições neurológicas. 7
Correlacione com gravidade clínica: Níveis mais altos indicam maior dano neuroaxonal e pior prognóstico. 1, 2
Monitore longitudinalmente: Um incremento de 17% nos níveis de NfL em 6 meses pode discriminar conversão de assintomático para sintomático (sensibilidade = 88.9%, especificidade = 80.0%). 5
Armadilhas Comuns e Como Evitá-las
Não interprete NfL isoladamente, pois reflete apenas o grau de dano neuronal, não a patologia subjacente específica, e tem especificidade limitada para doenças específicas. 7, 9
Não negligencie a idade do paciente ao interpretar resultados, pois o NfL aumenta naturalmente com o envelhecimento. 6, 7, 8
Não descarte doença neurodegenerativa precoce com NfL normal, pois estágios iniciais podem apresentar níveis normais antes de dano neuronal significativo. 7, 9
Lembre-se que o NfL é abundante perifericamente, portanto, em casos de lesão tecidual direta (cirurgia, trauma) ou lesão indireta via hipoperfusão (hipovolemia, sepse), os níveis plasmáticos podem refletir a gravidade da lesão periférica e não necessariamente lesão cerebral. 6