Manejo da Intolerância a Ruídos e Estresse Auditivo em Pacientes com TDAH
A abordagem terapêutica primária para pacientes com TDAH que apresentam intolerância a ruídos deve incluir terapia de dessensibilização sonora gradual e sistemática combinada com aconselhamento, reconhecendo que a sensibilidade ao ruído está frequentemente associada a transtornos psiquiátricos e requer manejo integrado.
Compreensão do Mecanismo Fisiopatológico
A intolerância a ruídos em pacientes com TDAH envolve múltiplos mecanismos neurobiológicos:
- A sensibilidade ao ruído está moderadamente estável como característica e fortemente associada a transtornos psiquiátricos atuais e disposição à afetividade negativa 1
- Pessoas sensíveis ao ruído apresentam maior condutância tônica da pele, frequência cardíaca elevada e respostas de defesa/sobressalto aumentadas durante exposição ao ruído 1
- O processamento auditivo envolve resposta de orientação, reflexo de sobressalto e resposta defensiva que traduzem estímulos sonoros em ações e mudanças corporais induzidas por estresse através de mecanismos neurais de "luta ou fuga" 2
- A hiperatividade do sistema límbico e autonômico produz reações emocionais como ansiedade, medo e depressão 3
Diferenciação de Condições de Intolerância Sonora
É fundamental diferenciar entre as várias condições de intolerância sonora para direcionar o tratamento adequadamente:
- Hiperacusia descreve desconforto físico ou dor quando qualquer som atinge um nível de intensidade que seria tolerável para a maioria das pessoas 4
- Misofonia refere-se a reações emocionais intensas a certos sons (frequentemente sons corporais como mastigação) que não são influenciadas pela intensidade percebida desses sons 4
- Sensibilidade ao ruído refere-se a reatividade aumentada a sons que pode incluir desconforto geral (irritação ou sensação de sobrecarga) devido a um ambiente percebido como ruidoso, independentemente de sua intensidade 4
- Fonofobia descreve resposta emocional como ansiedade e evitação de som devido ao "medo" de que o som possa piorar uma condição comórbida 4
Avaliação Clínica Específica
Durante a anamnese, investigar sistematicamente:
- Sintomas consistentes com Síndrome do Tensor do Tímpano Tônico (TTTS): dor/dormência/queimação dentro e ao redor da orelha; "bloqueio" aural; vertigem leve/náusea; audição "abafada"; flutter timpânico; cefaleia 5
- Início ou exacerbação dos sintomas após exposição a sons altos ou intoleráveis 5
- 60% dos pacientes com zumbido e 81,1% dos pacientes com hiperacusia apresentam pelo menos um sintoma de TTTS 5
- A prevalência de sintomas de TTTS aumenta para 68% em pacientes com zumbido grave e 91,3% em pacientes com hiperacusia grave 5
Protocolo de Tratamento Baseado em Evidências
Abordagem Primária: Dessensibilização Sonora
O tratamento deve basear-se em estimulação acústica através da introdução progressiva de som (Terapia de Retreinamento do Zumbido - TRT) 3:
- Iniciar com exposição gradual e sistemática a sons em níveis confortáveis
- Aumentar progressivamente a intensidade e duração da exposição sonora
- Utilizar geradores de ruído e aparelhos auditivos em casos graves 3
Intervenção Psicológica
- A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) possui a evidência mais forte para melhorar a qualidade de vida em pacientes com sintomas persistentes 6
- O aconselhamento deve abordar como a atenção aumentada, expectativas e crenças sobre a doença podem inibir movimentos normais e promover respostas anormais 7
- Explicar ao paciente que pessoas sensíveis ao ruído prestam mais atenção aos ruídos, discriminam mais entre ruídos, consideram os ruídos mais ameaçadores e fora de controle, e reagem e se adaptam aos ruídos mais lentamente 1
Considerações Farmacológicas
- O papel da serotonina, também envolvida em outras doenças relacionadas à hiperacusia (enxaqueca, depressão), pode ser crucial neste transtorno 3
- Medicamentos envolvidos no metabolismo da serotonina abrem novas abordagens para o manejo da hiperacusia 3
- Teorias confirmam o efeito das endorfinas que ativam a função excitatória do glutamato, o neurotransmissor auditivo, aumentando sua toxicidade 3
Avaliação Audiológica e Exclusão de Patologias
- Obter exame audiológico abrangente para excluir perda auditiva neurossensorial súbita (PANSS), que requer intervenção urgente 6
- A tríade de zumbido, otalgia e tontura sugere fortemente patologia do ouvido interno 6
- Solicitar imagem (RM preferida, ou TC se RM contraindicada) se houver zumbido unilateral, zumbido pulsátil, anormalidades neurológicas focais ou perda auditiva assimétrica na audiometria 6
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não descartar "plenitude auricular" como trivial quando pode representar patologia grave do ouvido interno 6
- Reconhecer que a sensibilidade ao ruído pode cair com a recuperação da depressão, mas ainda permanece elevada, sugerindo um nível subjacente alto de sensibilidade ao ruído 1
- Pacientes com ansiedade ou depressão grave requerem intervenção imediata devido ao risco de suicídio 6
- Não iniciar tratamento sem definir claramente os termos utilizados para que o paciente e todos os profissionais de saúde envolvidos estejam alinhados com os objetivos do plano de tratamento 4
Monitoramento e Seguimento
- A avaliação de aparelhos auditivos é recomendada mesmo se a perda auditiva for leve ou unilateral 6
- Acompanhamento audiométrico repetido com seguimento contínuo é necessário 7
- Reconhecer que o transtorno psiquiátrico existente contribui para altos níveis de irritação, mas também existe a possibilidade de que a tendência à irritação possa ser um fator de risco para morbidade psiquiátrica 1