Mecanismo da Incontinência Urinária Induzida por Antipsicóticos
Os antipsicóticos causam incontinência urinária principalmente através de dois mecanismos: hiperatividade do detrusor (bexiga hiperativa) por antagonismo α-adrenérgico e dopaminérgico, e disfunção esfincteriana por efeitos anticolinérgicos paradoxais, resultando em dissincronia detrusor-esfíncter. 1, 2
Mecanismos Fisiopatológicos Primários
Hiperatividade do Detrusor (Mecanismo Predominante)
A hiperatividade do detrusor é o achado uroDinâmico mais comum, presente em 75% dos pacientes com incontinência induzida por antipsicóticos atípicos (risperidona, olanzapina, clozapina). 1
Estudos uroDinâmicos demonstram que 4 de 12 pacientes (33%) apresentam padrão de bexiga hiperativa, enquanto 5 de 12 (42%) mostram complacência vesical reduzida. 2
O antagonismo dos receptores α-adrenérgicos no colo vesical e uretra proximal causa relaxamento da musculatura lisa e diminuição da resistência uretral, facilitando a perda urinária involuntária. 3, 4
O bloqueio dopaminérgico nas vias neurais que controlam a continência desregula o controle central da micção, levando a contrações vesicais não inibidas. 4, 5
Dissincronia Detrusor-Esfíncter
A dissincronia detrusor-esfíncter (DSD) ocorre em 25% dos casos, onde o esfíncter não relaxa adequadamente durante a contração do detrusor. 1
Dois de oito pacientes (25%) em estudos uroDinâmicos apresentaram hiperatividade do detrusor COM dissincronia esfincteriana, resultando em esforço miccional e resíduo pós-miccional significativo. 1
Este padrão é similar ao encontrado em doenças neurológicas, sugerindo que os antipsicóticos afetam as vias neurais de coordenação vesico-esfincteriana. 1
Efeitos Anticolinérgicos Paradoxais
Apesar dos antipsicóticos terem propriedades anticolinérgicas, eles CAUSAM incontinência ao invés de preveni-la, através de mecanismos complexos que vão além do simples antagonismo muscarínico. 5
A rotulagem da FDA para olanzapina adverte especificamente sobre efeitos anticolinérgicos (antimuscarínicos), incluindo retenção urinária, mas paradoxalmente a incontinência também ocorre. 6
Um paciente com hipoatividade do detrusor e esfíncter não-relaxante durante a micção demonstra que alguns antipsicóticos podem causar disfunção vesical por múltiplos mecanismos simultâneos. 1
Neurotransmissores e Receptores Envolvidos
Os antipsicóticos afetam as vias neurais que controlam a continência através da ligação a receptores de serotonina, dopamina, acetilcolina e adrenalina. 4
Os receptores α-adrenérgicos estão altamente concentrados no colo vesical e uretra, onde sua estimulação causa contração muscular e aumento da resistência uretral; o bloqueio α causa o efeito oposto. 3
Tanto antipsicóticos típicos quanto atípicos podem induzir incontinência, indicando que o mecanismo não é exclusivo de uma classe farmacológica. 4, 5
Apresentação Clínica Característica
Os sintomas urinários mais comuns são urgência, enurese noturna e esforço miccional, refletindo a combinação de hiperatividade do detrusor e disfunção esfincteriana. 1
Resíduo pós-miccional significativo foi encontrado em 25% dos pacientes, indicando esvaziamento vesical incompleto. 1
A incontinência é provavelmente subnotificada na literatura, pois é um efeito adverso embaraçoso que os pacientes podem não relatar espontaneamente. 4
Armadilhas Clínicas Importantes
Não assuma que a incontinência é comportamental ou psiquiátrica em pacientes esquizofrênicos; avaliação uroDinâmica formal pode ser necessária para documentar disfunção vesical objetiva. 1, 2
A incontinência pode ser limitante ao tratamento e comprometer gravemente a adesão medicamentosa e reabilitação, exigindo intervenção ativa. 4, 2
Não confunda este efeito adverso com retenção urinária anticolinérgica clássica; os mecanismos são distintos e podem coexistir no mesmo paciente. 6, 5
Opções de Manejo Farmacológico
Amitriptilina, desmopressina, efedrina e anticolinérgicos (oxibutinina, triexifenidil) são os agentes mais frequentemente utilizados para tratar a incontinência induzida por antipsicóticos. 4
Aripiprazol pode ser uma alternativa antipsicótica com menor risco de disfunção urinária, baseado em relato de caso onde outros antipsicóticos falharam. 5
O manejo farmacológico da incontinência deve ser considerado quando há risco de descontinuação da terapia antipsicótica ou declínio na adesão do paciente. 4