Medicações para Aumento de Massa Muscular e Perda de Gordura
Não existem medicações aprovadas que possam ser recomendadas de forma segura e ética para aumentar massa muscular e reduzir gordura simultaneamente em indivíduos saudáveis, pois as substâncias com esses efeitos (esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento) apresentam riscos cardiovasculares e metabólicos graves que superam qualquer benefício potencial. 1, 2
Contexto Clínico e Limitações das Evidências
A literatura médica sobre substâncias que aumentam massa muscular e reduzem gordura é extremamente limitada por questões éticas e metodológicas. Estudos randomizados controlados são considerados antiéticos quando envolvem substâncias banidas, e a maioria das evidências disponíveis é observacional e de baixa qualidade 1. A variabilidade interindividual nas respostas a essas substâncias é enorme, tornando impossível prever benefícios ou riscos para um paciente específico 3, 2.
Substâncias Investigadas e Seus Riscos
Esteroides Anabolizantes-Androgênicos
- Um estudo prospectivo randomizado demonstrou que doses suprafisiológicas de testosterona combinadas com treinamento de força aumentaram massa livre de gordura, tamanho muscular e força em homens normais 1
- Porém, os esteroides anabolizantes causam alterações lipídicas graves, eventos cardiovasculares isquêmicos, hipertensão arterial, disfunção hepática, alterações psiquiátricas e dependência 1, 2, 4
- Não há dose segura estabelecida para uso não-médico 1, 2
Hormônio do Crescimento (GH)
- Altera a composição corporal aumentando massa magra, mas não fornece benefício em força ou performance atlética 2
- Efeitos adversos incluem edema de tecidos moles, fadiga, artralgias, síndrome do túnel do carpo e potencial risco cardiovascular 2
- Evidências insuficientes de que o GH aumente a síntese proteica muscular em atletas 1
Moduladores Seletivos do Receptor Androgênico (SARMs)
- Substâncias não-esteroidais projetadas para ativar seletivamente o receptor androgênico no músculo esquelético 1
- Nenhum agente desta classe recebeu aprovação para tratamento em qualquer contexto clínico 1
- Estão em fases iniciais de ensaios clínicos e não devem ser usados fora de pesquisa 1
Aminoácidos e Metabólitos
- Beta-hidroxi-beta-metilbutirato (HMB), glutamina e arginina foram estudados, mas dados são inconsistentes e insuficientes para recomendar seu uso 1
- Um estudo em 472 pacientes caquéticos com câncer falhou devido a problemas de adesão, com apenas 37% completando o protocolo 1
Abordagem para Pacientes com Indicações Médicas Legítimas
Para Pacientes com Obesidade e Diabetes Tipo 2
A única abordagem farmacológica eticamente justificável para perda de gordura com preservação de massa magra é o uso de agonistas do receptor GLP-1 ou agonistas duplos GIP/GLP-1 em pacientes com IMC ≥27 kg/m² e comorbidades relacionadas ao peso 1, 5:
- Semaglutida 2,4 mg semanal ou tirzepatida são as escolhas de primeira linha, com perda de peso de 15-21% e benefícios cardiovasculares comprovados 5
- Liraglutida 3,0 mg diária produz 5,4% de redução de peso ajustada por placebo 1, 5
- Estes medicamentos devem ser combinados com dieta hipocalórica e atividade física aumentada 1
Para Pacientes com HIV e Perda de Peso
- Tratamento antirretroviral eficaz é a prioridade absoluta 6
- Suporte nutricional com 1,2-1,5 g/kg/dia de proteína combinado com exercício resistido supervisionado 6
- Testosterona pode ser considerada apenas em homens com hipogonadismo documentado (testosterona total matinal baixa) 6
Para Pacientes com Caquexia por Câncer
- Corticosteroides por período limitado (1-3 semanas) para estimular apetite, mas causam perda muscular e resistência insulínica 1
- Progestinas aumentam apetite e peso corporal, mas não massa livre de gordura, e têm risco de tromboembolismo 1
- Ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa podem estabilizar ou melhorar apetite, ingestão alimentar e massa corporal magra em pacientes com câncer avançado em quimioterapia 1
Armadilhas Comuns e Advertências Críticas
Suplementos Dietéticos de Venda Livre
- Apresentam altas taxas de contaminação com substâncias proibidas não declaradas no rótulo 7
- Uso de suplementos legais correlaciona-se com uso futuro de esteroides anabolizantes 7
- A FDA não exige comprovação de eficácia para suplementos alimentares 1
Fentermina
- Aprovada apenas para uso de curto prazo (≤12 semanas) como monoterapia para obesidade 8
- Contraindicada em doença cardiovascular, hipertensão não controlada, hipertireoidismo, glaucoma, história de abuso de drogas e gravidez 8
- Relacionada química e farmacologicamente à anfetamina, com potencial de abuso 8
- Não aumenta massa muscular 8
Medicações que Promovem Ganho de Peso
Devem ser minimizadas ou substituídas sempre que possível 1, 5:
- Antipsicóticos (clozapina, olanzapina, risperidona)
- Alguns antidepressivos (tricíclicos, alguns ISRSs, IMAOs)
- Glicocorticoides
- Progestinas injetáveis
- Alguns anticonvulsivantes (gabapentina, pregabalina)
- Beta-bloqueadores (atenolol, metoprolol, propranolol)
Monitoramento de Peso com Terapia Antirretroviral
- Inibidores de integrase e tenofovir alafenamida estão associados a maior ganho de peso do que outros antirretrovirais 1
- Documentar peso e IMC a cada 6 meses ao iniciar ou trocar para regimes baseados em inibidores de integrase ou tenofovir alafenamida 1
- Não é recomendado trocar de regime devido ao ganho de peso, pois não há benefício demonstrado 1
- Agonistas do receptor GLP-1 podem ser eficazes para perda de peso em pessoas com HIV, mas podem causar perda de massa muscular 1
Posição Definitiva
A busca por medicações para aumentar massa muscular e perder gordura em indivíduos saudáveis representa uma abordagem fundamentalmente equivocada que prioriza aparência ou performance sobre saúde e longevidade. 1, 2, 9 As substâncias com esses efeitos carregam riscos cardiovasculares, metabólicos e psiquiátricos graves que não podem ser justificados na ausência de indicação médica legítima 1, 2, 4. Para pacientes com condições médicas específicas (obesidade com comorbidades, HIV com perda de peso, caquexia por câncer), existem abordagens farmacológicas apropriadas que devem ser implementadas apenas sob supervisão médica rigorosa e como parte de um plano terapêutico abrangente 1, 6.