Abordagem para Tontura e Palpitações
Para pacientes apresentando tontura e palpitações, a prioridade inicial é categorizar a tontura por tempo e gatilhos (não pela descrição subjetiva do paciente) e simultaneamente avaliar se as palpitações representam arritmia potencialmente fatal, especialmente arritmias ventriculares que podem causar síncope e morte súbita. 1, 2
Avaliação Inicial Crítica
História Direcionada para Palpitações
A combinação de tontura com palpitações levanta preocupação imediata para arritmias ventriculares, que podem se manifestar com palpitações, falta de ar, dor torácica, tontura, pré-síncope e síncope. 2 Pacientes com síncope documentada ou suspeita de arritmia ventricular devem ser hospitalizados imediatamente para avaliação, monitorização e manejo. 2
Elementos essenciais da história incluem:
- Características das palpitações: batimentos extras/pulados versus palpitações sustentadas 2
- Sintomas associados: dispneia, dor torácica, síncope ou pré-síncope 2
- Fatores precipitantes: exercício, estresse emocional 2
- Doença cardíaca conhecida: coronariana, valvular (prolapso de válvula mitral), cardiopatia congênita 2
- Fatores de risco cardiovascular: hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo 2
- Medicações: antiarrítmicos, drogas que prolongam QT, estimulantes (cocaína, anfetaminas), suplementos (esteroides anabolizantes) 2
- História familiar: morte súbita cardíaca, parada cardíaca súbita, afogamento inexplicado em parente de primeiro grau 2
Categorização da Tontura por Tempo e Gatilhos
Não confie na descrição do paciente de "girando" versus "cabeça leve" - foque em tempo e gatilhos. 1, 3 A tontura deve ser classificada em:
- Síndrome Vestibular Aguda (SVA): tontura persistente durando dias a semanas com sintomas constantes 1, 3
- Síndrome Vestibular Episódica Desencadeada: segundos a minutos de vertigem desencadeada por movimentos da cabeça 4, 3
- Síndrome Vestibular Episódica Espontânea: episódios espontâneos sem gatilhos posicionais 3
- Síndrome Vestibular Crônica: sintomas durando semanas a meses ou mais 4
Sintomas Associados Críticos
- Perda auditiva, zumbido ou plenitude aural: sugere doença de Ménière 1, 3
- Cefaleia, fotofobia, fonofobia: sugere enxaqueca vestibular 4
- Sintomas neurológicos focais: cefaleia, diplopia, disartria, dormência, fraqueza - indicam causas centrais 3
Exame Físico Estruturado
Avaliação Cardíaca
- Sinais vitais incluindo pressão arterial ortostática: hipotensão postural pode causar tontura episódica 2, 5
- Exame cardíaco completo: ausculta para sopros, ritmo irregular 2
- Exame neurológico completo: nervos cranianos, testes cerebelares, avaliação da marcha 1
Avaliação Vestibular
- Observar nistagmo espontâneo em todos os pacientes com tontura 3
- Manobra de Dix-Hallpike: para vertigem episódica desencadeada suspeita de VPPB, com critérios diagnósticos incluindo latência de 5-20 segundos, nistagmo torsional batendo em direção ao ouvido afetado, e sintomas resolvendo em 60 segundos 1, 3
- Exame HINTS (Head Impulse, Nystagmus, Test of Skew): SOMENTE se treinado para SVA, tem 100% de sensibilidade para AVC de circulação posterior quando realizado por profissionais treinados, superior à RM precoce (46% de sensibilidade) 1, 4
Armadilha crítica: 75-80% dos pacientes com AVC de circulação posterior NÃO têm déficits neurológicos focais, então exame neurológico normal NÃO exclui AVC. 1, 4
Investigação Diagnóstica
ECG de 12 Derivações (Obrigatório)
Obtenha ECG imediatamente em todos os pacientes com palpitações e tontura para avaliar: 2
- Arritmias ventriculares ou supraventriculares 2
- Pré-excitação (síndrome de WPW) que deve levar a encaminhamento para eletrofisiologista cardíaco 2
- Prolongamento do intervalo QT (risco de torsades de pointes) 2
- Intervalo PR >240 ms ou bloqueio AV de grau superior (risco de morte súbita) 2
- Duração do QRS >120 ms (especialmente com evidência de prolongamento do intervalo HV) 2
Monitorização Cardíaca
- Monitorização Holter ou telemetria ambulatorial: para pacientes com palpitações, tontura, síncope, ritmo não sinusal, ou anormalidades de condução 2
- Considerar estudo eletrofisiológico invasivo: para pacientes com intervalo PR >240 ms, duração do QRS >120 ms, ou bloqueio AV de segundo ou terceiro grau para possível implante de marca-passo ou CDI 2
Exames Laboratoriais
- Glicose: recomendado rotineiramente em todos os pacientes com tontura 6
- Eletrólitos, função renal: especialmente se em diuréticos ou com história de doença renal 2
- Função tireoidiana: doença tireoidiana pode causar arritmias 2
Decisões de Imagem
Imagem NÃO é rotineiramente indicada para tontura isolada, mas considere RM em contextos específicos: 1, 4, 3
RM de crânio sem contraste é recomendada para: 1, 4, 3
- Exame neurológico anormal
- Exame HINTS sugerindo causa central (se treinado)
- Pacientes de alto risco vascular com síndrome vestibular aguda
- Zumbido unilateral ou pulsátil
- Perda auditiva assimétrica
- Déficits neurológicos focais
- Cefaleia nova e grave
TC de crânio tem rendimento diagnóstico muito baixo (<1%) para tontura isolada e sensibilidade de apenas 20-40% para detectar patologia causativa, particularmente para infartos de circulação posterior. 4 Não use TC em vez de RM quando AVC é suspeito. 1
Bandeiras Vermelhas Exigindo Avaliação Urgente
Hospitalize e avalie urgentemente se qualquer um dos seguintes estiver presente: 1, 4, 3
- Síncope documentada ou suspeita de arritmia ventricular 2
- Déficits neurológicos focais 1, 3
- Perda auditiva súbita 1, 3
- Incapacidade de ficar em pé ou andar 1, 3
- Nistagmo de batimento inferior ou outros padrões de nistagmo central 1, 3
- Cefaleia nova e grave 4
- Intervalo PR >240 ms, duração do QRS >120 ms, ou bloqueio AV de grau superior no ECG 2
Diferenciais Principais
Causas Cardíacas (Prioridade com Palpitações)
- Arritmias ventriculares: taquicardia ventricular, fibrilação ventricular 2
- Arritmias supraventriculares: fibrilação atrial, flutter atrial, TSVP, TRNAV 2
- Síndrome de WPW: pré-excitação com risco de morte súbita 2
- Síndrome do QT longo: congênita ou adquirida (medicações) 2
- Cardiomiopatia: dilatada, hipertrófica, não compactação ventricular 2, 7
Causas Vestibulares Periféricas
- VPPB: vertigem episódica breve (<1 minuto) desencadeada por mudanças de posição 1, 3
- Doença de Ménière: episódios espontâneos com perda auditiva, zumbido, plenitude aural 1, 4
- Neurite vestibular: tontura persistente aguda sem perda auditiva 5, 8
- Labirintite: tontura persistente aguda com perda auditiva 5, 8
Causas Centrais
- AVC de circulação posterior: 4% da tontura isolada, 70% dos achados positivos na RM 4, 3
- Enxaqueca vestibular: episódios com cefaleia, fotofobia, fonofobia 4
- Esclerose múltipla: pode apresentar vertigem aguda 2
Outras Causas
- Efeitos colaterais de medicações: anti-hipertensivos, sedativos, anticonvulsivantes, psicotrópicos 4
- Hipotensão ortostática: tontura ao mover de supino para em pé 2, 5
- Transtornos psiquiátricos: ansiedade, transtorno do pânico, depressão 4, 5
Manejo Baseado no Diagnóstico
Se Arritmia Documentada ou Suspeita
- Hospitalizar para monitorização e manejo 2
- Consulta com cardiologia/eletrofisiologia para avaliação de risco e possível ablação ou implante de dispositivo 2
Se VPPB Confirmada
- Procedimentos de reposicionamento de canalitos (manobra de Epley) como tratamento de primeira linha, com taxa de sucesso de 90-98% 1, 3
- Nenhuma imagem ou medicação é necessária para casos típicos 4
- Aconselhar sobre risco de recorrência: 10-18% em um ano, até 36% a longo prazo 1, 3
Se Síndrome Vestibular Aguda
- Se HINTS sugere causa periférica (por profissional treinado) e exame neurológico normal: manejo ambulatorial com supressores vestibulares por curto prazo 1
- Se HINTS sugere causa central ou paciente de alto risco: RM urgente e consulta neurológica 1, 4
Se Doença de Ménière
Se Enxaqueca Vestibular
Reabilitação Vestibular
- Intervenção primária para tontura persistente que falhou no tratamento inicial, melhora significativamente a estabilidade da marcha, particularmente benéfica para pacientes idosos ou com risco aumentado de quedas 4
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não confie apenas na descrição do paciente de "girando" versus "cabeça leve" 1, 3
- Não assuma que exame neurológico normal exclui AVC - 75-80% dos AVCs de circulação posterior não têm déficits focais 1, 4
- Não use TC em vez de RM quando AVC é suspeito 1, 4
- Não deixe de realizar Dix-Hallpike para vertigem episódica desencadeada 1, 3
- Não realize exame HINTS se não treinado - resultados não confiáveis 4
- Não ignore palpitações com síncope - requer hospitalização imediata 2
- Não esqueça de revisar medicações - causa principal reversível de tontura crônica 4