Investigação e Manejo de Icterícia Obstrutiva com Lama Biliar
Para este paciente com icterícia obstrutiva, colúria e acolia, mas sem dilatação de vias biliares ou sinais de colangite na CPRM, a lama biliar pode ser a causa da obstrução e deve ser tratada com colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) com papilotomia e remoção da lama, especialmente se houver sintomas persistentes ou deterioração clínica.
Investigação Laboratorial Inicial
A avaliação laboratorial completa é essencial para caracterizar o padrão de obstrução biliar:
- Solicite bilirrubina total e fracionada, hemograma completo, enzimas hepáticas (AST, ALT, fosfatase alcalina, GGT) e testes de função sintética hepática 1
- A fosfatase alcalina elevada é particularmente indicativa de obstrução biliar, enquanto AST/ALT elevadas sugerem mais lesão hepatocelular 1
- GGT é menos específica que fosfatase alcalina para obstrução biliar neste contexto 1
Investigação por Imagem Adicional
Embora a CPRM já tenha sido realizada, a avaliação deve ser complementada:
- TC de abdome com contraste é recomendada para avaliar melhor a causa da obstrução, com sensibilidade de 74-96% e especificidade de 90-94% para detectar obstrução biliar 2
- A TC também permite avaliar massas pancreáticas ou periampulares que podem não ser evidentes na CPRM 3
- Ultrassonografia pode confirmar a presença de lama biliar e avaliar a vesícula biliar 1
Considerações Diagnósticas Importantes
Lama Biliar como Causa de Obstrução
- Lama biliar espessada pode causar icterícia obstrutiva, especialmente em mulheres usando contraceptivos orais, e pode ser demonstrada e removida por CPRE 4
- A obstrução por lama pode se apresentar com icterícia progressiva, prurido e perda de peso, mesmo sem cálculos visíveis 4
- A ausência de dilatação de vias biliares não exclui obstrução significativa, particularmente em casos de obstrução intermitente ou recente 4
Exclusão de Malignidade
- Perda de peso e icterícia obstrutiva são altamente sugestivos de malignidade e devem ser investigados agressivamente 3
- A ausência de vesícula palpável (sinal de Courvoisier) não exclui malignidade, mas sua presença sugere fortemente neoplasia em aproximadamente 87% dos casos 2
- Investigação expedita é crítica, pois atrasos no diagnóstico pioram o prognóstico de doenças potencialmente ressecáveis 3
Manejo Terapêutico
Indicações para CPRE
A CPRE com papilotomia está indicada neste cenário por múltiplas razões:
- Permite diagnóstico definitivo e tratamento simultâneo da obstrução por lama biliar 2, 4
- A remoção da lama pode ser realizada com cateter-balão após papilotomia, resultando em resolução rápida da icterícia 4
- Se houver suspeita de malignidade, a CPRE permite citologia por escovado para confirmação histológica, apesar do risco de complicações maiores de 4-5% e mortalidade de 0,4% 3
Tratamento Conservador vs. Intervencionista
- Tratamento conservador inicial pode ser tentado se a icterícia for leve e o paciente estável, pois algumas obstruções por lama podem resolver espontaneamente 5
- Drenagem biliar cirúrgica está indicada quando há icterícia persistente por mais de um mês ou complicações como colangite ou cálculos secundários 5
- Modalidades endoscópicas são preferidas sobre procedimentos percutâneos devido ao menor risco de complicações 6
Papel do Ácido Ursodesoxicólico
- Ácido ursodesoxicólico (8-10 mg/kg/dia) pode ser considerado para dissolução de cálculos radiotransparentes < 20 mm, com dissolução completa esperada em aproximadamente 30% dos pacientes não selecionados tratados por até 2 anos 7
- A chance de dissolução aumenta para 50% em cálculos flutuantes (alto conteúdo de colesterol) e 81% em cálculos ≤ 5 mm 7
- Este tratamento é mais apropriado após descompressão endoscópica inicial e para prevenção de recorrência, não como tratamento primário de obstrução aguda 7
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não assuma que a ausência de dilatação de vias biliares exclui obstrução significativa - a obstrução por lama pode ser intermitente ou recente 4
- Não atrase a investigação de malignidade - mesmo com lama biliar identificada, neoplasias periampulares ou pancreáticas devem ser excluídas com TC 3
- Não realize apenas tratamento conservador prolongado - se a icterícia persistir ou piorar, a descompressão endoscópica deve ser realizada prontamente 5
- Monitore para pancreatite pós-CPRE, que é uma complicação reconhecida do procedimento 4
Seguimento
- Após remoção bem-sucedida da lama, monitore função hepática para normalização (geralmente em poucos dias) 4
- Ultrassonografia seriada deve ser realizada para monitorar recorrência de lama ou formação de cálculos 7
- Se houver recorrência, considere ácido ursodesoxicólico profilático, embora a dose ideal não esteja estabelecida 7