Manejo da Síndrome do Intestino Curto em Paciente com Múltiplas Cirurgias Intestinais
Em pacientes com história de múltiplas cirurgias intestinais que desenvolvem síndrome do intestino curto (SIC), o manejo deve focar em três pilares: controle de perdas hídricas e eletrolíticas, otimização da absorção intestinal com medicações antidiarreicas e antissecretoras, e suporte nutricional parenteral quando necessário, sempre com objetivo de promover adaptação intestinal e eventual desmame da nutrição parenteral. 1
Avaliação Inicial e Classificação
A primeira etapa é determinar a anatomia intestinal remanescente, pois isso define completamente o prognóstico e a estratégia terapêutica 1:
- Jejunostomia ou ileostomia terminal (sem cólon): Pior prognóstico, geralmente requer nutrição parenteral se <100 cm de intestino delgado 1
- Jejuno-íleo-cólon em continuidade: Melhor prognóstico, maior capacidade de adaptação 1
- Presença da válvula ileocecal: Melhora significativamente o prognóstico 1
Realize avaliação nutricional completa incluindo história de perda de peso, sintomas gastrointestinais, deficiências de micronutrientes, histórico cirúrgico detalhado, e exames laboratoriais (hemograma completo, painel metabólico, níveis de micronutrientes, densidade mineral óssea) 1
Manejo de Fluidos e Eletrólitos
Para pacientes com jejunostomia de alto débito (>1,5 L/24h), a restrição de líquidos hipotônicos é paradoxalmente essencial 1:
- Limite água, chá, café e álcool: Estes líquidos hipotônicos aumentam as perdas pela ostomia, criando um ciclo vicioso 1
- Prescreva solução de reidratação oral (SRO): Contém glicose e sódio em proporções que estimulam absorção ativa de sódio, seguida por água 1
- Evite bebidas esportivas comerciais: Têm sódio insuficiente e açúcar excessivo comparado às SROs 1
- Meta de débito urinário: Manter >1 L/dia para confirmar hidratação adequada 1
- Suplementação parenteral: Pode ser necessária se as perdas fecais consistentemente excederem a ingestão oral, especialmente em meses quentes 1
Terapia Farmacológica Agressiva
Inicie tratamento farmacológico imediatamente, não espere 1:
Agentes Antidiarreicos
- Loperamida: Primeira linha, até 16 comprimidos/dia (32 mg) são frequentemente necessários devido à interrupção da circulação êntero-hepática 1
- Codeína: Pode ter efeito sinérgico quando combinada com loperamida 1
- Administração: 30 minutos antes das refeições e ao deitar para máxima eficácia 1
Agentes Antissecretores
- Inibidores de bomba de prótons (IBP): Reduzem hipersecreção gástrica que persiste por 6-12 meses pós-operatório 1
- Considere descontinuar após 12 meses: Exceto se houver benefício documentado, pois a supressão ácida pode piorar supercrescimento bacteriano 1
- Octreotida: Reserve para pacientes com perdas volumosas refratárias onde manejo hidroeletrolítico é problemático; evite durante período de adaptação pois pode inibir enzimas pancreáticas 1
Tratamento de Complicações Específicas
Supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) 1:
- Rifaximina 550 mg duas vezes ao dia por 1-2 semanas: Primeira linha 2
- Rotacione antibióticos a cada 2-6 semanas: Amoxicilina-clavulanato, metronidazol, ciprofloxacino ou doxiciclina para prevenir resistência 2
- Monitore neuropatia periférica com metronidazol e tendinite com ciprofloxacino 2
Má absorção de ácidos biliares e insuficiência pancreática exócrina: Devem ser excluídas e tratadas se presentes 1
Otimização Dietética
Pacientes com cólon remanescente 1:
- Dieta hipercalórica, hiperproteica
- Podem tolerar líquidos hipotônicos
- Fibras solúveis podem ser benéficas
Pacientes sem cólon (jejunostomia) 1:
- Restrição rigorosa de líquidos hipotônicos
- Uso obrigatório de SRO
- Evite formulações de liberação prolongada de medicamentos 1
Suporte Nutricional Parenteral
Inicie nutrição parenteral (NP) se 1:
- Intestino delgado remanescente <100 cm sem cólon
- Débito de ostomia >4 L/dia persistente
- Incapacidade de manter hidratação ou estado nutricional por via oral
Otimize a NP 1:
- Cicle a infusão em 10-14 horas durante a noite para liberdade diurna 1
- Eduque rigorosamente sobre cuidados com cateter para prevenir sepse relacionada ao cateter 1
- Monitore complicações: doença hepática associada à falência intestinal, trombose venosa central, sepse de cateter 1
Terapia com Fator de Crescimento
Teduglutide (análogo de GLP-2) 1:
- Considere apenas após otimizar dieta e tratamentos convencionais 1
- Contraindicação absoluta: Malignidade ativa ou recente (<5 anos arbitrariamente) 1
- Benefício: 50-60% dos pacientes podem eventualmente desmamar da NP 3
- Efeitos colaterais significativos e custo elevado: Requer seleção cuidadosa de pacientes 1
- Prescreva apenas se experiente no manejo de SIC: Com capacidade de monitoramento regular 1
Intervenções Cirúrgicas
Restauração da continuidade intestinal 1, 3:
- Realize o mais precocemente possível: Recrutar intestino distal não utilizado melhora função e reduz dependência de NP 1, 3
- Não atrase: Cada centímetro de intestino é precioso 1, 3
Procedimentos de alongamento e afilamento intestinal 1, 3:
- LILT (Bianchi) ou STEP: Para segmentos dilatados em pacientes com SIC estabelecida 1, 3
- Enteroplastia de afilamento simples: Quando comprimento intestinal claramente não é preocupação 1, 3
- Indicação: Alças dilatadas promovem estase e SIBO, piorando absorção 1, 3
Princípio cirúrgico fundamental: Primum non nocere - pacientes com SIC não podem perder mais intestino por cirurgia mal planejada 1, 3
Encaminhamento para Transplante Intestinal
Encaminhe precocemente se 1:
- Doença hepática progressiva associada à falência intestinal
- Sepse recorrente relacionada ao cateter
- Perda de acesso venoso central por trombose 1
- Não espere até necessitar transplante hepático simultâneo: Mortalidade na lista de espera é muito maior 1
Considere transplante precoce em casos selecionados 1:
- Alta morbidade ou baixa aceitação de NP
- Tumores desmoides abdominais grandes
- Síndromes de dismotilidade grave sem perspectiva de desmame de NP 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não incentive ingestão excessiva de água: Piora débito de ostomia em pacientes sem cólon 1
- Não use medicamentos de liberação prolongada: Não serão absorvidos adequadamente 1
- Não prescreva teduglutide como "mais um antidiarreico": É terapia especializada com riscos significativos 1
- Não atrase restauração da continuidade intestinal: Cada dia com ostomia é oportunidade perdida de adaptação 1, 3
- Não realize cirurgia sem planejamento meticuloso: Perda adicional de intestino pode ser catastrófica 1, 3
Modelo de Cuidado
Equipe multidisciplinar especializada é obrigatória 1, 4:
- Gastroenterologista com expertise em SIC
- Cirurgião com experiência em reabilitação intestinal
- Nutricionista especializado
- Enfermagem treinada em NP domiciliar
- Acesso rápido a atendimento médico para desidratação ou sepse 1
Monitoramento contínuo: Sintomas melhoram nos primeiros 3 meses; melhora espontânea após isso é rara, exigindo busca ativa de casos e intervenção 1