Comentário sobre a Conduta Psiquiátrica Proposta
Avaliação da Conduta Sugerida
A conduta proposta está parcialmente adequada, mas requer ajustes importantes considerando o contexto de traumatismo cranioencefálico (TCE) grave com hematomas intracranianos e o risco de abstinência alcoólica concomitante.
Contexto Clínico Crítico
Este paciente apresenta múltiplos fatores confundidores que dificultam a avaliação neuropsiquiátrica:
- TCE com lesões intracranianas significativas (HEDA frontal direito 2cm + HSDCA frontal esquerdo 2,2cm) com cisternas da base não patentes, indicando hipertensão intracraniana 1
- História de convulsão e possível rebaixamento do nível de consciência 1
- Uso crônico de álcool com agitação noturna sugestiva de abstinência alcoólica 1
- Confusão e desorientação que podem ser secundárias ao TCE, intoxicação/abstinência alcoólica, ou ambos 1, 2
Análise das Modificações Propostas
1. Redução do Diazepam (de 5mg 8/8h para 5mg 12/12h)
Esta redução é INADEQUADA neste contexto clínico.
- O paciente apresenta sinais sugestivos de síndrome de abstinência alcoólica (SAA): agitação noturna, insônia, inquietação, desejo de consumir álcool 1, 3
- A avaliação cognitiva deve guiar a decisão, não apenas níveis de alcoolemia, e o paciente permanece confuso e desorientado 1
- Benzodiazepínicos são o tratamento de escolha para SAA e sua redução prematura pode precipitar complicações graves, incluindo convulsões 3
- Em pacientes com TCE e risco de SAA, a literatura mostra que não há evidência clara de que benzodiazepínicos devam ser minimizados quando há risco real de abstinência 2
- Recomendação: manter diazepam 5mg 8/8h ou considerar protocolo CIWA para titulação adequada, observando que o TCE pode elevar falsamente os escores CIWA 2
2. Suspensão da Levomepromazina
Esta modificação é APROPRIADA.
- Levomepromazina tem propriedades anticolinérgicas significativas que podem piorar a confusão em pacientes com TCE 1
- Antipsicóticos típicos de baixa potência não são primeira linha para agitação em TCE 4, 5
3. Introdução de Olanzapina 5mg às 20h
Esta escolha requer CAUTELA SIGNIFICATIVA neste contexto.
- Olanzapina intramuscular mostrou eficácia em agitação aguda, mas há relatos de eventos adversos graves (incluindo 8 fatalidades) quando combinada com depressores do SNC 6
- Em pacientes com TCE e lesões intracranianas ativas, antipsicóticos atípicos devem ser usados com extrema cautela devido ao risco de rebaixamento do nível de consciência que pode mascarar deterioração neurológica 1
- A via oral pode ter absorção errática em pacientes confusos e agitados 6
- Alternativa preferível: se necessário antipsicótico, considerar haloperidol em doses baixas (2,5mg) que permite melhor monitorização neurológica 4, 5, 6
4. Protocolo de Emergência (Haloperidol 5mg IM + Prometazina 50mg IM)
Este protocolo está ADEQUADO como resgate para agitação grave.
- Haloperidol tem a base de evidência mais extensa para agitação violenta 4, 5
- A combinação haloperidol + prometazina é efetiva e mais segura que haloperidol isolado em altas doses 4
- Os limites propostos (haloperidol máximo 10mg/dia, prometazina máximo 100mg/dia) são apropriados 4
- Importante: monitorizar QTc antes de doses repetidas de haloperidol 4
Conduta Alternativa Recomendada
Para este paciente específico com TCE grave + provável SAA:
Manter benzodiazepínico em dose adequada:
Suspender levomepromazina (concordo com a conduta proposta) 1
Para agitação noturna:
- Primeira linha: otimizar dose de benzodiazepínico se SAA for a causa predominante 1, 3
- Se necessário antipsicótico adicional: haloperidol 2,5mg VO às 20h (dose menor que olanzapina proposta, permite melhor avaliação neurológica) 4, 5, 6
- Evitar olanzapina em dose plena (5-10mg) pelo risco de sedação excessiva mascarando deterioração neurológica 1, 6
Protocolo de resgate: manter haloperidol 5mg IM + prometazina 50mg IM conforme proposto 4, 5
Monitorização essencial:
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não atribuir toda agitação ao TCE quando há história clara de alcoolismo - SAA pode ser fatal se não tratada 1, 3
- Não reduzir benzodiazepínicos prematuramente em paciente com risco de SAA apenas por ter TCE 2
- Não usar sedação excessiva que impeça avaliação neurológica seriada em paciente com lesões intracranianas e cisternas comprimidas 1
- Não ignorar causas médicas reversíveis de agitação (dor, retenção urinária, hipóxia) 5
- Não usar antipsicóticos em doses plenas sem primeiro otimizar tratamento da SAA 1, 2
Considerações Prognósticas
- Paciente tem lesões intracranianas significativas com cisternas não patentes, sugerindo hipertensão intracraniana 1, 7
- A combinação TCE + SAA aumenta significativamente a morbimortalidade 8, 2
- Período de observação prolongado é essencial para prognosticação adequada 1
- Discussão com neurocirurgia deve ser mantida para possível deterioração neurológica 1