Conduta em Paciente com DRC e Hipercalemia
A hipercalemia em pacientes com DRC deve ser tratada com medidas farmacológicas e dietéticas para reduzir o potássio, mantendo os inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (iSRAA) sempre que possível, pois a descontinuação desses medicamentos aumenta a mortalidade e acelera a progressão da doença renal. 1, 2
Abordagem Inicial e Avaliação
Primeiro, determine a gravidade da hipercalemia:
Verifique fatores contribuintes imediatamente: 1
- Medicamentos que elevam potássio (IECAs, BRAs, antagonistas de mineralocorticoides, AINEs, betabloqueadores não seletivos, heparina, trimetoprima, inibidores de calcineurina) 3
- Constipação intestinal 3
- Redução aguda da TFG 3
- Acidose metabólica 3
- Uso de substitutos de sal ricos em potássio 1
Manejo da Hipercalemia Aguda/Grave
Para hipercalemia grave (>6,5 mEq/L) ou com alterações eletrocardiográficas: 2, 3
- Administre 10 unidades de insulina regular IV com 50g de glicose (D50W) em 15-30 minutos (efeito dura 4-6 horas) 2
- Gluconato de cálcio 10% IV se houver alterações no ECG 3
- Salbutamol inalatório 3
- Considere hemodiálise se TFGe <10 mL/min 3
Evite bicarbonato parenteral e resinas em enema como tratamento de primeira linha 3
Manejo da Hipercalemia Crônica
Prioridade: Manter os iSRAA
A diretriz KDIGO 2024 é clara: a hipercalemia associada ao uso de iSRAA pode frequentemente ser manejada com medidas para reduzir o potássio sérico, em vez de diminuir a dose ou interromper os iSRAA. 1
Estratégia algorítmica baseada no nível de potássio:
Se K+ 5,0-5 mEq/L (hipercalemia leve): 1
- Geralmente não é necessário interromper iSRAA 1
- Inicie restrição dietética de potássio 1
- Considere quelantes de potássio se K+ persistir elevado 1
- Monitore K+ em 2-4 semanas 1
Se K+ 5,6-5,9 mEq/L (hipercalemia moderada): 1
- NÃO interrompa iSRAA imediatamente 1, 2
- Inicie quelante de potássio (patiromer ou ciclossilicato de zircônio e sódio) 1, 4
- Restrinja potássio dietético rigorosamente 1
- Reavalie medicações concomitantes 1
- Monitore K+ semanalmente até controle 1
Se K+ >5,9 mEq/L ou >6,5 mEq/L (hipercalemia grave): 1
- Considere reduzir dose ou descontinuar temporariamente iSRAA 1
- Inicie quelante de potássio imediatamente 1
- Reinicie iSRAA quando K+ <5,0 mEq/L, um medicamento por vez 1
- Monitore função renal e eletrólitos em 2-4 semanas 1
Intervenções Dietéticas
Implemente abordagem individualizada com nutricionista renal: 1
- Limite alimentos ricos em potássio biodisponível (especialmente alimentos processados) 1
- Recomende restrição de potássio com TFGe <20 mL/min ou <50 mL/min se em uso de medicamentos que elevam K+ 3
- Evite substitutos de sal contendo potássio 1
- Ingesta hídrica de 1,5-2 litros/dia (exceto em estados edematosos) 3
Quelantes de Potássio
Os novos quelantes (patiromer e ciclossilicato de zircônio e sódio) são preferíveis ao poliestirenossulfonato de sódio: 1, 4
Patiromer: 1
- Dose inicial: 8,4g/dia via oral
- Titulação até 16,8g ou 25,2g/dia conforme necessário
- Início de ação: 7 horas
- Administrar 3 horas antes ou depois de outros medicamentos 5
Ciclossilicato de Zircônio e Sódio (SZC): 1
- Correção inicial: 10g 3x/dia por 48 horas
- Manutenção: 5g em dias alternados até 15g/dia
- Início de ação: 1 hora
- Altamente seletivo para K+ 1
Poliestirenossulfonato de sódio (resina antiga): 5
- Dose: 15-60g/dia via oral dividido em 1-4 doses
- Evite uso concomitante com sorbitol (risco de necrose intestinal) 5
- Contraindicado em obstrução intestinal e neonatos 5
- Considere apenas se novos quelantes não disponíveis 1
Otimização da Terapia Cardiorrenal
Inibidores de SGLT2
Recomende iSGLT2 para pacientes com DM tipo 2 e DRC com TFGe ≥20 mL/min: 1
- Benefício adicional: iSGLT2 reduzem risco de hipercalemia comparado a inibidores de DPP-4 6
- Continue mesmo se TFGe cair abaixo de 20 mL/min após início 1
- Suspenda temporariamente durante jejum prolongado, cirurgia ou doença crítica 1
Antagonistas de Mineralocorticoides Não Esteroidais
Considere finerenona em pacientes com DM tipo 2, TFGe >25 mL/min, K+ normal e albuminúria persistente apesar de dose máxima tolerada de iSRAA: 1
Protocolo de monitoramento para finerenona: 1
- Dose inicial: 10mg/dia se TFGe <60 mL/min; 20mg/dia se TFGe ≥60 mL/min 1
- Monitore K+ em 1 mês, depois a cada 4 meses 1
- Se K+ >5 mEq/L: suspenda finerenona, ajuste dieta/medicações, reinicie quando K+ ≤5,0 mmol/L 1
Armadilhas Críticas a Evitar
Nunca descontinue permanentemente iSRAA devido à hipercalemia em nefropatia diabética - isso aumenta mortalidade: 2, 4
Nunca combine IECA + BRA + inibidor direto de renina - triplica risco de hipercalemia sem benefício adicional: 1
Não confie apenas em HbA1c em DRC avançada - considere monitorização contínua de glicose: 1, 2
Não use antagonistas de mineralocorticoides esteroidais rotineiramente em DRC avançada - alto risco de hipercalemia: 1, 3
Continue iSRAA mesmo quando TFGe cai abaixo de 30 mL/min, a menos que hipercalemia refratária ou hipotensão sintomática: 1
Descontinue iSRAA apenas se creatinina aumentar >30% em 4 semanas após início/aumento de dose: 1
Monitoramento
Frequência de monitoramento de K+ e creatinina: 1
- 2-4 semanas após início ou aumento de dose de iSRAA 1
- 1 semana após início de antagonista de mineralocorticoide 1
- Semanalmente durante tratamento ativo de hipercalemia 1
- A cada 4 meses em terapia estável com finerenona 1
Esteja ciente da variabilidade das medições de potássio: 1