Dipirona para Enxaqueca
Sim, a dipirona (metamizol) pode ser usada efetivamente no tratamento agudo da enxaqueca, com evidências demonstrando superioridade ao placebo tanto para alívio da dor quanto dos sintomas associados. 1, 2
Evidência de Eficácia
A dipirona demonstrou eficácia significativa no tratamento agudo da enxaqueca em estudos controlados:
Via intravenosa 1g: Em estudo randomizado, duplo-cego, controlado por placebo com 74 pacientes com enxaqueca sem aura e 30 com aura, a dipirona IV demonstrou melhora estatisticamente superior (P<0.05 e P<0.01) na dor e em todos os sintomas associados (náusea, fotofobia, fonofobia) comparado ao placebo 1
Via oral: Estudo com 356 pacientes demonstrou que dipirona oral 1g foi significativamente superior ao placebo e ao ácido acetilsalicílico 1g para cefaleia tensional episódica 2
Comparação com outros analgésicos: Quando comparada diretamente com dipirona IV, a lisina clonixinato foi superior (73% vs 13% livre de dor em 60 minutos, p<0.001), sugerindo que dipirona tem eficácia moderada mas não é o agente mais potente disponível 3
Posicionamento no Algoritmo de Tratamento
Embora a dipirona demonstre eficácia, as diretrizes internacionais mais recentes não a incluem como primeira linha:
Primeira linha recomendada: AINEs (ácido acetilsalicílico, ibuprofeno, diclofenaco potássico) são os agentes de primeira linha segundo diretrizes de 2021 4
Segunda linha: Triptanos são recomendados quando AINEs falham ou para ataques moderados a graves 4
Posição da dipirona: A dipirona pode ser considerada como alternativa aos AINEs de primeira linha, particularmente em países onde está disponível e aprovada, baseado em evidências de eficácia comparável 2
Dosagem e Administração
- Via intravenosa: 1g IV demonstrou eficácia em estudos clínicos 1, 2
- Via oral: 1g oral foi efetiva e superior a 500mg 2
- Momento de administração: Deve ser administrada precocemente na fase de cefaleia para máxima efetividade, seguindo o princípio geral de tratamento agudo 4
Perfil de Segurança e Considerações Críticas
Armadilha importante: A dipirona está associada a discrasias sanguíneas potencialmente fatais, particularmente agranulocitose, razão pela qual não está disponível nos EUA e Reino Unido 2
- Nos estudos incluídos (636 pacientes), nenhum evento adverso grave foi relatado 2
- Eventos adversos comuns incluem dor no local da injeção (mais frequente que com outras medicações) 3
- A agranulocitose é rara e provavelmente não seria observada em amostras relativamente pequenas de estudos clínicos 2
Limitação de Frequência para Prevenir Cefaleia por Uso Excessivo
Limite crítico: Restringir o uso de dipirona a não mais que 2 dias por semana para prevenir cefaleia por uso excessivo de medicação, que pode paradoxalmente aumentar a frequência de cefaleia e levar a cefaleia diária 4, 5
Se o paciente necessita tratamento agudo mais de 2 vezes por semana, deve-se iniciar terapia preventiva imediatamente 4
Medicações Adjuvantes
Para pacientes com náusea e/ou vômito durante ataques de enxaqueca:
- Adicionar antieméticos procinéticos como domperidona ou metoclopramida como adjuvantes orais 4
- Metoclopramida 10mg IV também fornece analgesia sinérgica além do efeito antiemético 5
Contexto Prático
A dipirona é amplamente utilizada no Brasil e outros países da América Latina para tratamento de enxaqueca 1. Embora não seja mencionada nas diretrizes internacionais mais prestigiadas (Nature Reviews Neurology 2021, Annals of Internal Medicine 2002) 4, a evidência de eficácia é sólida em estudos controlados 1, 2. A escolha entre dipirona e AINEs convencionais deve considerar disponibilidade local, experiência do paciente com a medicação, e o perfil de risco-benefício individual, sempre respeitando o limite de frequência de uso para evitar cefaleia por uso excessivo.