Manejo da Febre Infantil
Abordagem Inicial Baseada na Idade
A idade da criança determina completamente a estratégia de avaliação e tratamento, sendo o fator mais crítico na decisão clínica para febre infantil. 1, 2
Recém-nascidos (0-28 dias)
- Hospitalização imediata e antibióticos IV empíricos são obrigatórios para todos os neonatos febris devido ao risco elevado de infecção bacteriana grave 2, 3
- Realizar avaliação completa de sepse incluindo hemoculturas, urinocultura (por cateterização), e punção lombar 4, 2
- A atividade diminuída de opsoninas, macrófagos e neutrófilos nesta faixa etária aumenta significativamente o risco 4
Lactentes (29-60 dias)
- Estratificação de risco baseada na aparência clínica e achados laboratoriais 2, 5
- Urinocultura por cateterização é obrigatória, pois infecções urinárias representam >90% das infecções bacterianas graves nesta idade 2, 5
- Lactentes de baixo risco (bem aparentes, sem sinais localizadores, exames normais) podem receber alta com seguimento rigoroso em 24 horas 2
- Lactentes de alto risco ou com aparência tóxica requerem hospitalização e antibióticos empíricos 2
Lactentes e Crianças (>2-3 meses)
- Avaliação clínica focada em sinais localizadores de infecção 1, 2
- Testes seletivos baseados em achados clínicos, não rotineiros 1
- Crianças bem aparentes com provável infecção viral podem receber apenas cuidados sintomáticos e seguimento próximo 1
Verificação da Febre
- Confirmar febre com temperatura retal documentada ≥38.0°C (100.4°F) no ambiente clínico 1, 2
- Medição axilar com termômetro digital é recomendada para crianças <4 semanas; para ≥4 semanas, axilar digital ou timpânica infravermelha são aceitáveis 3, 6
- A palpação parental tem sensibilidade de apenas 67-81% e superestima a presença de febre, mas valor preditivo negativo de 93-95% 7
- Considerar a criança febril se os pais relatam febre, mesmo que afebril no momento da avaliação 3
- Verificar uso de antipiréticos nas últimas 4 horas, pois pode mascarar febre ou infecção grave 1
Avaliação de Sinais de Alerta
Aparência Tóxica ou Doente
- Apenas 58% dos lactentes com bacteremia ou meningite bacteriana parecem clinicamente doentes, portanto não confiar apenas na aparência 1
- Sinais críticos: alteração do estado mental, letargia grave, má perfusão/choque, desconforto respiratório, erupção petequial/purpúrica, recusa alimentar, desidratação grave 1, 8
Sinais Respiratórios
- Taquipneia, retrações, hipoxia, estertores/crepitações, cianose requerem atenção imediata 1, 8
- Saturação de oxigênio ≤92% é indicação absoluta de internação hospitalar 8
Investigação Diagnóstica Direcionada
Infecção Urinária
- Urinocultura por cateterização (não saco coletor) é preferida devido a menores taxas de contaminação 1
- Considerar em: sexo feminino, febre >24 horas, temperatura ≥39°C, meninos não circuncidados 1, 2
Pneumonia
- Radiografia de tórax indicada se: tosse, hipoxia, estertores/crepitações à ausculta, febre alta (≥39°C), ou duração da febre >48 horas 1, 2
- Evitar radiografia em crianças com sibilância ou alta probabilidade de bronquiolite 1
- Até 26% das crianças com febre sem foco e leucócitos >20.000/mm³ podem ter pneumonia oculta 4
Meningite
- Para lactentes 1-3 meses, punção lombar pode ser considerada, embora não existam preditores definitivos para identificar quais lactentes febris bem aparentes necessitam avaliação do líquor 1
- Para crianças >2 anos, punção lombar geralmente não é necessária a menos que haja sinais ou sintomas específicos sugerindo meningite 1
Tratamento Antipirético
- Paracetamol (acetaminofeno) ou ibuprofeno são os únicos antipiréticos recomendados, e apenas quando a febre está associada a desconforto 3, 6
- Uso combinado ou alternado de antipiréticos é desencorajado 3, 6
- Dose baseada no peso da criança, não na idade 3
- Administração oral de paracetamol é preferível à retal quando possível 3
- Ibuprofeno não é recomendado em crianças febris com varicela ou desidratação 3
- Métodos físicos de redução da febre são desencorajados, exceto em casos de hipertermia 3
- Antipiréticos não são eficazes na prevenção de convulsões febris ou efeitos adversos de vacinas 3
Resposta a Antipiréticos NÃO Prediz Gravidade
- A redução da febre com medicação antipirética não indica menor probabilidade de infecção bacteriana grave 4
- Múltiplos estudos ao longo de 20 anos demonstraram consistentemente ausência de correlação entre resposta a antipiréticos e presença de infecção bacteriana grave 4
- Não usar a resposta a antipiréticos como ferramenta diagnóstica 4
Decisão de Internação vs. Alta
Indicações de Internação
- Idade 0-28 dias (todos) 2, 3
- Aparência tóxica ou gravemente doente 2, 8
- Saturação de oxigênio ≤92% ou desconforto respiratório persistente 8
- Desidratação grave ou incapacidade de manter hidratação oral 2, 8
- Urinálise anormal com má ingesta oral 2
- Preocupações sobre capacidade dos pais de monitorar ou acessar cuidados 1, 2
Critérios para Alta Segura
- Criança bem aparente com todos os testes negativos 2, 8
- Saturação de oxigênio normal 8
- Hidratação adequada 2
- Seguimento confiável garantido em 24 horas 2, 8
- Capacidade dos cuidadores de monitorar e retornar se necessário 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não confiar apenas na aparência clínica - muitas crianças com infecções bacterianas graves podem parecer bem 1
- Não ignorar o impacto do uso recente de antipiréticos na temperatura 1
- Evitar estudos radiográficos desnecessários em crianças com doenças virais prováveis 1
- Não usar saco coletor para urinocultura devido a altas taxas de contaminação 1
- Não usar a resposta a antipiréticos como indicador de gravidade da doença 4
- Não esquecer que infecções virais podem coexistir com infecções bacterianas 1
Considerações Especiais para Febres Recorrentes
- Documentar padrão, frequência e duração dos episódios febris 1
- Considerar avaliação de imunodeficiência se as infecções forem graves, causadas por organismos incomuns, ou ocorrerem com frequência incomum 1
- Avaliar causas não infecciosas de febre recorrente 1
- Considerar encaminhamento a especialistas se febres recorrentes persistirem sem etiologia clara 1
Antibioticoterapia Empírica
- Indicada se infecção bacteriana for suspeitada 1, 2
- Obter culturas apropriadas antes de iniciar antibióticos 1
- Escolha do antibiótico depende da fonte suspeita de infecção e aparência clínica do lactente 2
- Descontinuar antibióticos em 24-36 horas se culturas negativas e criança clinicamente melhorada 2