Uso da Relação PaO2/FiO2 na Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica
Papel da Relação PaO2/FiO2 no Diagnóstico e Monitorização
A relação PaO2/FiO2 NÃO deve ser utilizada como critério diagnóstico isolado para pneumonia associada à ventilação (PAV), mas sim como ferramenta de monitorização da gravidade da insuficiência respiratória e resposta ao tratamento. 1
- A relação PaO2/FiO2 ≤240 mmHg foi proposta como critério diagnóstico para PAV, porém estudos demonstram que este limiar tem associação pobre com a confirmação microbiológica da pneumonia (área sob a curva ROC de apenas 0,645). 1
- Paradoxalmente, pacientes com PaO2/FiO2 ≤240 apresentam MENOS confirmação microbiológica de pneumonia (69% vs 85%, p=0,008) comparado aos pacientes com PaO2/FiO2 >240, apesar de terem maior gravidade clínica. 1
- Utilizar PaO2/FiO2 ≤240 como critério diagnóstico pode subestimar a incidência real de PAV, pois valores >240 não excluem a infecção. 1
Utilização Adequada da Relação PaO2/FiO2 na PAV
Avaliação Inicial da Gravidade
- A relação PaO2/FiO2 deve ser integrada aos critérios de gravidade para determinar necessidade de ventilação mecânica invasiva, não como critério diagnóstico de pneumonia. 2
- PaO2/FiO2 <250 mmHg constitui um dos critérios menores de pneumonia grave, sendo necessários 3 critérios menores OU 1 critério maior para indicar admissão em UTI. 2
- Para pneumonia grave com PaO2/FiO2 <150 mmHg, recomenda-se uso de PEEP mais elevada, ventilação em prona por >12 horas/dia e estratégia de sedação profunda com relaxamento muscular nas primeiras 48 horas. 2
Monitorização da Resposta ao Tratamento
A avaliação seriada da relação PaO2/FiO2 nas primeiras 48-72 horas é fundamental para predizer desfecho e orientar ajustes terapêuticos. 2, 3
- Melhora progressiva da relação PaO2/FiO2 durante as primeiras 48 horas de ventilação mecânica indica prognóstico favorável. 3
- Um aumento >56 mmHg na relação PaO2/FiO2 nas primeiras 48 horas tem sensibilidade de 75% e especificidade de 81% para sobrevida. 3
- Pacientes que não melhoram a relação PaO2/FiO2 nas primeiras 48-72 horas devem ter a terapia antimicrobiana reavaliada, com coleta de novas culturas de secreções respiratórias. 2
Padronização da Medida
Para melhor estratificação de risco, a relação PaO2/FiO2 deve ser medida sob configurações ventilatórias padronizadas: PEEP ≥10 cmH2O e FiO2 ≥0,5,24 horas após o diagnóstico de SDRA. 4
- Esta padronização permite reclassificar pacientes em SDRA leve (PaO2/FiO2 >200), moderada (101-200) e grave (≤100), com mortalidades de 17%, 40,9% e 58,1%, respectivamente. 4
- A reclassificação 24 horas após o manejo inicial fornece melhor informação prognóstica que o valor inicial. 5, 4
Algoritmo de Manejo Baseado na Relação PaO2/FiO2
PaO2/FiO2 201-300 mmHg (Insuficiência Respiratória Leve)
- Considerar oxigenoterapia de alto fluxo (30-40 L/min, FiO2 50-60%) se oxigenoterapia convencional for insuficiente. 2
- Monitorizar continuamente com oximetria de pulso. 6
- Avaliar resposta clínica a cada 48-72 horas. 2
PaO2/FiO2 101-200 mmHg (Insuficiência Respiratória Moderada)
- Considerar oxigenoterapia de alto fluxo ou ventilação não-invasiva se não houver contraindicações (instabilidade hemodinâmica, falência multiorgânica, alteração do estado mental). 2
- Se ventilação não-invasiva falhar após ~1 hora, proceder com intubação orotraqueal. 2
- Implementar estratégia de ventilação protetora: volume corrente 4-6 mL/kg de peso predito, pressão de platô <30 cmH2O, PEEP apropriada. 2
PaO2/FiO2 ≤100 mmHg (Insuficiência Respiratória Grave)
- Intubação precoce e ventilação mecânica invasiva com estratégia protetora são mandatórias. 2, 5
- Implementar PEEP elevada, ventilação em prona >12 horas/dia, sedação profunda e relaxamento muscular nas primeiras 48 horas. 2
- Considerar ECMO se hipoxemia refratária persistir apesar de bloqueio neuromuscular e prona (PaCO2 >60 mmHg excluindo disfunção ventilatória). 2
Armadilhas Comuns e Como Evitá-las
- Não utilizar PaO2/FiO2 ≤240 como critério diagnóstico isolado para PAV, pois isto reduz a acurácia diagnóstica e pode retardar o tratamento adequado. 1
- Não confiar apenas na relação PaO2/FiO2 para decisões clínicas; integrar com avaliação clínica (temperatura, volume e purulência de secreções, radiografia de tórax, leucograma) e escores como CPIS, SOFA e APACHE II. 2
- Lembrar que a relação PaO2/FiO2 pode ser afetada por hipercapnia e pressão atmosférica, não apenas pela patologia pulmonar. 5, 7
- Não atrasar a ventilação em prona em SDRA grave (PaO2/FiO2 <100 mmHg), pois isto reduz significativamente a mortalidade. 5
- A melhora radiográfica frequentemente atrasa em relação aos parâmetros clínicos, especialmente em idosos e pacientes com DPOC; não aguardar melhora radiográfica para considerar resposta ao tratamento. 2
- Terapia antimicrobiana inadequada está associada a menor melhora da relação PaO2/FiO2 e mortalidade de 86% quando a melhora é <56 mmHg. 3