O que é Trigeminismo Ventricular
Trigeminismo ventricular é um padrão específico de arritmia onde contrações ventriculares prematuras (CVPs) ocorrem de forma repetitiva a cada três batimentos cardíacos, criando uma sequência característica de dois batimentos sinusais normais seguidos por uma CVP. 1
Definição Eletrocardiográfica
O trigeminismo representa um padrão de ectopia ventricular onde as CVPs aparecem em agrupamentos específicos, caracterizado por: 1
- Complexo QRS prematuro e alargado (>110 ms) que se origina dos ventrículos 1
- Ausência de onda P precedendo o complexo ventricular prematuro, diferenciando-o de batimentos atriais prematuros com aberrância 2
- Pausa compensatória após cada CVP 1
- Eixo discordante entre QRS e onda T no complexo ectópico 1
Padrões de Apresentação
O trigeminismo pode manifestar-se de duas formas distintas no monitoramento eletrocardiográfico: 3
Tipo Domo
- Encurtamento gradual dos intervalos de acoplamento das CVPs durante as salvas 3
- Ciclo regular de aproximadamente 185 ± 40 segundos 3
- Duração média das salvas de 101 ± 31 segundos 3
- Sugere mecanismo de parasistolia ventricular 3
Tipo Horizontal
- Intervalos de acoplamento fixos durante as salvas 3
- Ciclo irregular de aproximadamente 210 ± 63 segundos 3
- Duração média das salvas de 98 ± 41 segundos 3
Significado Clínico e Avaliação de Risco
A importância clínica do trigeminismo depende fundamentalmente da frequência e do contexto cardíaco subjacente:
CVPs Ocasionais (< 10% dos batimentos)
- Geralmente benignas em corações estruturalmente normais 4, 5
- Não requerem tratamento específico na ausência de sintomas 4
CVPs Frequentes (> 10% dos batimentos)
- Podem causar fadiga e dispneia aos esforços 4
- Requerem investigação para doença cardíaca estrutural 5
CVPs Muito Frequentes (> 20% dos batimentos)
- Risco de desenvolvimento de cardiomiopatia induzida por CVPs 4, 5
- Podem levar à insuficiência cardíaca 4
- Indicação para tratamento agressivo 4
Investigação Diagnóstica Obrigatória
Todo paciente com trigeminismo ventricular deve ser submetido a avaliação específica para: 2
- ECG de 12 derivações em ritmo sinusal para buscar evidências de cardiopatia estrutural (bloqueios de ramo, hipertrofia ventricular, ondas Q) 2
- Ecocardiograma para avaliar função ventricular e anormalidades estruturais 2
- Medição cuidadosa do intervalo QT durante períodos de ritmo sinusal para excluir canalopatias 2
- Holter de 24 horas para quantificar a carga de CVPs e identificar padrões noturnos 6
- Teste ergométrico quando sintomas associados ao esforço ou suspeita de doença isquêmica 2
Contextos de Alto Risco que Exigem Atenção Especial
Doença Cardíaca Isquêmica
- A frequência e complexidade das CVPs correlacionam-se com mortalidade 5
- Taquicardia ventricular não sustentada (≥3 batimentos) em pacientes pós-infarto com fração de ejeção ≤40% tem significado prognóstico importante 7
Insuficiência Cardíaca
- CVPs não fornecem informação prognóstica incremental significativa além das variáveis clínicas 5
- Taquicardia ventricular não sustentada não deve guiar intervenções terapêuticas isoladamente 5
Cardiomiopatia Induzida por CVPs
- Conceito emergente onde a supressão farmacológica das CVPs melhora a disfunção sistólica ventricular esquerda 5
- Deve ser considerada quando CVPs muito frequentes coexistem com disfunção ventricular 5
Armadilhas Clínicas Importantes
Não subestime CVPs em pacientes com sono inadequado - a privação de sono ativa o sistema nervoso simpático, que é gatilho bem estabelecido para arritmias ventriculares 6
Investigue apneia do sono - arritmias noturnas, incluindo CVPs, ocorrem em até 50% dos pacientes com apneia do sono 6
Não confunda com bradicardia sinusal - períodos longos de bigeminismo atrial bloqueado podem simular bradicardia sinusal; a distinção é crucial pois bigeminismo bloqueado é benigno enquanto bradicardia severa pode acompanhar doença sistêmica 2
Atenção ao déficit de pulso - pacientes com bigeminismo e trigeminismo podem apresentar bradicardia efetiva, déficit de pulso apical-radial e hipertensão relativa com pressão de pulso ampla 2
Abordagem Terapêutica
Trate primeiro as causas reversíveis antes de escalar para terapia antiarrítmica ou ablação: 6
- Corrija distúrbios eletrolíticos
- Aborde privação de sono e trate apneia do sono subjacente 6
- Considere betabloqueadores que servem duplo propósito: suprimem CVPs e reduzem ativação simpática 6
- Tratamento antiarrítmico farmacológico deve ser considerado em CVPs frequentes 4
- Ablação por cateter é opção efetiva de tratamento 4