Protocolo de Tratamento do Infarto Medular Pós-Cirurgia de Aorta
O tratamento do infarto medular pós-cirurgia de aorta requer intervenção imediata e agressiva com drenagem liquórica de emergência (se não estiver já instalada), elevação da pressão arterial média, expansão volêmica e maximização da oferta de oxigênio, conforme protocolo Classe I das diretrizes ACC/AHA. 1
Reconhecimento da Lesão Medular
A paraplegia tardia representa quase 60% de todos os déficits medulares após cirurgia de aorta toracoabdominal, ocorrendo mesmo quando o exame neurológico estava intacto imediatamente após a cirurgia. 1 Esta apresentação tardia exige vigilância neurológica rigorosa no período pós-operatório inicial. 2
Fatores de Risco Identificados
- Extensão do aneurisma: Aneurismas mais extensos (Crawford tipo I e II) apresentam maior risco de lesão medular 1
- Cirurgia aórtica prévia: Pacientes com reparo prévio de aneurisma abdominal têm risco de 10-12% de isquemia medular 1, 3
- Tempo de clampeamento: Tempo superior a 30-40 minutos aumenta significativamente o risco 4, 1
- Hipotensão perioperatória: Constitui fator de risco importante para isquemia medular 2, 5
Protocolo de Intervenção Imediata
Medidas de Primeira Linha (Classe I)
Ao detectar déficit neurológico medular no pós-operatório, inicie imediatamente: 1
Drenagem liquórica de emergência: Se o dreno não estiver instalado, proceda à inserção imediata de cateter de drenagem liquórica 1
Expansão volêmica agressiva: Administre volume para otimizar a pré-carga e pressão arterial 1
Maximização da oferta de oxigênio: 1
- Otimize oxigenação arterial
- Considere transfusão se hemoglobina inadequada
- Mantenha débito cardíaco adequado
Medidas Adjuvantes (Classe IIa/IIb)
Corticosteroides e Manitol: 4
- Metilprednisolona 30 mg/kg antes e após oclusão aórtica pode oferecer neuroproteção 4
- Manitol 0,25-1,0 g/kg pode modular a extensão da lesão medular isquêmica 4
- Mecanismos propostos incluem redução do edema medular e eliminação de radicais livres de oxigênio 4
Hipotermia: 4
- Hipotermia moderada (32°C) pode melhorar desfechos após cirurgia de aorta torácica 4
- Mecanismos neuroprotetores incluem redução da liberação de neurotransmissores excitatórios e diminuição da produção de radicais livres 4
Prevenção em Pacientes de Alto Risco
Indicações para Drenagem Liquórica Profilática (Classe I)
A drenagem liquórica profilática é fortemente recomendada para: 1
- Reparos extensos de aneurisma toracoabdominal (Crawford I e II) 1
- Cirurgia aórtica abdominal prévia 1, 3
- Tempo de clampeamento aórtico previsto >30 minutos 1
- TEVAR com cobertura extensa da aorta (>15 cm ou >40 mm proximal à artéria celíaca) 1, 3
- Cobertura planejada da artéria subclávia esquerda sem revascularização 3
Evidência: Um ensaio clínico randomizado demonstrou redução significativa de paraplegia/paraparesia de 13,0% para 2,6% (P=0,03) com drenagem liquórica em reparos extensos de aorta toracoabdominal. 4, 1
Monitorização Neurofisiológica Intraoperatória
Potenciais evocados motores (MEP) são superiores aos potenciais evocados somatossensoriais (SSEP): 4
- MEPs detectam isquemia medular mais precocemente que SSEPs 4
- SSEPs apresentam altas taxas de falsos negativos e falsos positivos 4
- MEPs monitoram diretamente a coluna motora anterior, mais vulnerável à lesão isquêmica 4
- Alterações nos potenciais evocados permitem intervenção cirúrgica imediata (reimplante de artérias intercostais, otimização hemodinâmica) 4
Armadilhas Comuns e Como Evitá-las
Contraindicações Absolutas à Drenagem Liquórica
Nunca realize punção lombar sem: 6
- Neuroimagem prévia (TC ou RM) para excluir lesões expansivas ou hidrocefalia obstrutiva que possam precipitar herniação cerebral 6
- Verificação do estado de anticoagulação/antiagregação plaquetária 6
Técnicas neuraxiais são contraindicadas (Classe III) em: 6
- Pacientes em uso de tienopiridínicos (clopidogrel, ticagrelor)
- Anticoagulação clinicamente significativa
- Heparinas de baixo peso molecular em doses terapêuticas
Complicações da Drenagem Liquórica
- Hematoma subdural (relatado após cirurgia aórtica com drenagem liquórica) 4
- Hematoma espinhal ou epidural 4
- Meningite 6
- Cefaleia liquórica persistente 4, 6
- Vasoespasmo por introdução de sangue no espaço subaracnóideo 4
Considerações Especiais para TEVAR
A revascularização da artéria subclávia esquerda antes do TEVAR (Classe I) pode reduzir a necessidade de drenagem profilática ao preservar fluxo colateral para a medula espinhal. 3 Esta estratégia deve ser considerada no planejamento pré-operatório de pacientes de alto risco. 3
Abordagem Multimodal
A proteção medular é mais eficaz quando múltiplas estratégias são utilizadas concomitantemente: 7
- Drenagem liquórica + otimização hemodinâmica + reimplante de artérias intercostais críticas 4, 7
- Perfusão distal durante clampeamento aórtico (pressão distal ≥60 mmHg) 4, 1
- Monitorização neurofisiológica para detecção precoce 4, 7
- Hipotermia moderada quando apropriado 4, 7
A detecção precoce e tratamento imediato da isquemia medular antes que evolua para infarto podem prevenir paraplegia permanente em muitos pacientes de alto risco. 2 A mortalidade e morbidade associadas à paraplegia permanente justificam os riscos das intervenções terapêuticas estabelecidas. 2