Retocolite Ulcerativa: Visão Geral Completa
Definição e Características Fundamentais
A retocolite ulcerativa (RCU) é uma doença inflamatória crônica que causa inflamação contínua da mucosa do cólon, iniciando sempre no reto e estendendo-se proximalmente de forma contínua, caracterizada por períodos de recidiva e remissão. 1
- A RCU afeta o reto e, em extensão variável, o cólon de maneira contínua, sem granulomas na biópsia 1
- O reto está envolvido em mais de 97% dos casos não tratados 2
- A etiologia precisa permanece desconhecida, resultando da interação entre fatores genéticos e ambientais 1
- Não existe terapia médica curativa disponível atualmente 1
Apresentação Clínica
- Os sintomas clássicos incluem diarreia sanguinolenta com ou sem muco, urgência retal, tenesmo e graus variáveis de dor abdominal frequentemente aliviada pela defecação 3, 4
- A doença apresenta distribuição etária bimodal, com pico de incidência na 2ª ou 3ª década e segundo pico entre 50-80 anos 3
- Até 90% dos pacientes terão uma ou mais recidivas após o primeiro ataque 1
Classificação por Extensão da Doença
A extensão da doença é definida pela extensão macroscópica máxima na colonoscopia e influencia diretamente a modalidade de tratamento e a frequência de vigilância. 1
Três categorias principais:
- Proctite: inflamação limitada ao reto, tratada com supositórios de mesalazina 1g diariamente 1, 5
- Colite esquerda: estende-se do reto até a flexura esplênica, tratada com enemas de mesalazina 1-4g diariamente 1, 5
- Colite extensa: inflamação além da flexura esplênica, requer terapia oral frequentemente combinada com terapia tópica 1
Classificação por Gravidade (Critérios de Truelove & Witts)
A gravidade da doença determina a intensidade do tratamento e é classificada como leve, moderada ou grave. 1
Doença Grave (requer hospitalização):
- ≥6 evacuações sanguinolentas/dia E
- Frequência cardíaca >90 bpm OU
- Temperatura >37,8°C OU
- Hemoglobina <10,5 g/dl OU
- VHS >30 mm/h OU PCR >30 mg/l 1
Doença Leve:
- <4 evacuações sanguinolentas/dia
- Frequência cardíaca <90 bpm
- Temperatura <37,5°C
- Hemoglobina >11,5 g/dl
- VHS <20 mm/h, PCR normal 1
Doença Moderada:
- Parâmetros intermediários entre leve e grave 1
Diagnóstico
O diagnóstico de RCU baseia-se na combinação de apresentação clínica, achados endoscópicos, histologia e ausência de diagnósticos alternativos. 3, 4
Avaliação Endoscópica:
- Ileocolonoscopia completa é recomendada para delinear extensão da doença, gravidade da inflamação e excluir doença de Crohn 1
- Achado patognomônico: inflamação colônica contínua caracterizada por eritema, perda do padrão vascular normal, granularidade, erosões, friabilidade, sangramento e ulcerações, com demarcação distinta entre intestino inflamado e não inflamado 2, 3
- A demarcação entre áreas inflamadas e normais geralmente é clara e pode ocorrer abruptamente dentro de milímetros 1
Protocolo de Biópsia:
Para diagnóstico confiável, devem ser obtidas no mínimo duas biópsias de pelo menos cinco locais ao redor do cólon (incluindo reto) e íleo. 1, 2
- As biópsias devem ser acompanhadas de informações clínicas, incluindo achados endoscópicos, duração da doença e tratamento atual 1, 2
- As amostras devem ser fixadas imediatamente por imersão em formalina tamponada antes do transporte 1, 2
Características Histopatológicas:
A plasmocitose basal é a característica diagnóstica mais precoce com maior valor preditivo para o diagnóstico de RCU. 1, 2
Doença estabelecida:
- Distorção arquitetural difusa das criptas com ramificação e atrofia 1
- Infiltrado inflamatório transmucosal difuso com plasmocitose basal 1
- Inflamação ativa causando criptite e abscessos de cripta 1
- Depleção de mucina pronunciada 1
- Ausência de granulomas (exceto associados à ruptura de criptas) 2
- Ausência de fissuras e inflamação transmural 1
Doença precoce:
- Arquitetura de cripta preservada e ausência de infiltrado inflamatório transmucosal não excluem RCU em estágio inicial 1
- Apenas cerca de 20% dos pacientes mostram distorção de cripta dentro de 2 semanas dos primeiros sintomas 1
- Biópsias repetidas após intervalo podem ajudar a estabelecer diagnóstico definitivo 1, 2
Padrões de Distribuição Atípicos:
Embora a RCU classicamente apresente inflamação contínua começando no reto, padrões atípicos podem ocorrer, especialmente em pacientes tratados. 1
- "Cecal patch": inflamação periapendicular descontínua, diagnosticada em até 75% dos pacientes com doença distal 1
- "Backwash ileitis": ocorre em aproximadamente 20% dos pacientes com colite extensa 1
- Poupança retal: descrita em >3% dos pacientes, mais frequentemente inflamação irregular do reto pode ser vista naqueles que receberam terapia tópica empírica 1
- O tratamento pode alterar o padrão clássico de distribuição da inflamação, tornando-a irregular (em manchas) 1, 2
Avaliação Laboratorial e de Imagem
Avaliação inicial obrigatória:
- Culturas de fezes e ensaio de toxina de Clostridium difficile devem sempre ser realizados para excluir causas infecciosas 1
- Hemograma completo, PCR, albumina, função hepática, estudos de ferro e função renal 6
- Calprotectina fecal >100 μg/g apoia o diagnóstico de DII, com sensibilidade de 93% e especificidade de 96% 6
Imagem radiológica:
- Tomografia computadorizada abdominal é o estudo de imagem radiográfica inicial preferido em pacientes com sintomas abdominais agudos 3
- Achado tomográfico característico: espessamento mural com espessura média de parede de 8 mm, em oposição à espessura média de 2-3 mm do cólon normal 3
- Imagem transversal para avaliar envolvimento do intestino delgado e complicações 6
Diagnóstico Diferencial
Causas infecciosas:
- Salmonella, Shigella e Campylobacter podem produzir características endoscópicas semelhantes à RCU 6
- Colite infecciosa tipicamente mostra arquitetura de cripta preservada com apenas inflamação aguda 6
- Yersinia e enterocolite por citomegalovírus assemelham-se à doença de Crohn 6
Causas não infecciosas:
- Colite isquêmica: diagnóstico diferencial comum, particularmente em pacientes idosos com fatores de risco vascular, tipicamente afeta áreas de watershed 6
- Colite medicamentosa: AINEs, imunossupressores e agentes quimioterápicos podem causar colite erosiva 6
- Doença de Crohn: considerar quando lesões salteadas, inflamação transmural ou doença perianal estão presentes 6
Vigilância e Prognóstico
A extensão da colite influencia o risco de desenvolver displasia ou câncer colorretal (CCR), determinando o início e a frequência da vigilância colonoscópica. 1
Estratificação de risco:
- Colite extensa: maior risco de desenvolver CCR 1
- Colite esquerda: risco intermediário, mas aproxima-se do risco de colite extensa à medida que a duração da doença aumenta 1
- Proctite: risco semelhante à população geral, não requer vigilância 1
Progressão da doença:
- Extensão proximal de proctite ou colite esquerda pode ocorrer em 20-50% dos pacientes adultos com RCU 1, 5
- A extensão histológica pode exceder a extensão macroscópica, exigindo biópsias para determinar a extensão completa da inflamação 5
Tratamento
Proctite e colite esquerda leve a moderada:
Supositórios de mesalazina (1g diariamente) são o tratamento inicial preferido para proctossigmoidite, com OR agrupado de 8,3 para remissão sintomática (IC 95% 4,28-16,12) comparado a esteroides tópicos. 5
- Para colite esquerda, enemas de mesalazina (1-4g diariamente) são a escolha de primeira linha, com dosagem padrão de 4g à noite para indução (RR 0,50 vs placebo, IC 95% 0,35-0,73) 5
- 5-ASA tópico é superior a corticosteroides tópicos para induzir remissão (RR 0,74, IC 95% 0,61-0,90) 5
Terapia combinada:
Combinar mesalazina tópica com mesalazina oral é mais eficaz do que qualquer um isoladamente. 5
- Mesalazina oral 2-4g diariamente ou balsalazida 6,75g diariamente são opções eficazes de primeira linha quando combinadas com agentes tópicos 5
Doença extensa ou grave:
- Doença mais extensa ou grave deve ser tratada com combinação de compostos 5-ASA orais e locais +/- corticosteroides para induzir remissão 3, 7
- Pacientes com RCU grave necessitam hospitalização para tratamento 3, 7
Doença refratária:
Doença refratária pode requerer esteroides sistêmicos (prednisolona 40mg diariamente), imunossupressores (azatioprina 1,5-2,5 mg/kg/dia ou mercaptopurina 0,75-1,5 mg/kg/dia), ou biológicos (infliximabe, vedolizumabe ou outros inibidores de TNF-alfa). 5
- Opções em pacientes hospitalizados incluem esteroides intravenosos e, se refratários, inibidores de calcineurina (ciclosporina, tacrolimo) ou anticorpos anti-fator de necrose tumoral-α (infliximabe) 3, 7
Indicações cirúrgicas de emergência:
- Megacólon tóxico refratário, perfuração colônica ou sangramento colorretal grave contínuo 3, 7
- Aproximadamente 15% dos pacientes desenvolvem ataque agudo de colite grave, e 30% destes requerem colectomia 8
- Colaboração estreita entre gastroenterologista e cirurgião é obrigatória para não atrasar a terapia cirúrgica quando necessária 7
Armadilhas Comuns e Considerações Práticas
- Efeitos relacionados ao tratamento: o tratamento pode modificar o padrão clássico de distribuição da inflamação, levando a aparência não uniforme (em manchas) ou ausência de envolvimento retal 2
- Colite fulminante: a aparência macroscópica da mucosa não é suficiente para distinguir RCU de doença de Crohn, sendo necessário exame microscópico 2
- Extensão subestimada: a extensão macroscópica na colonoscopia pode subestimar a extensão da doença comparada à histologia 1
- Doença Inflamatória Intestinal Não Classificada (DIINC): termo adequado para casos minoritários nos quais distinção definitiva entre RCU, doença de Crohn ou outras causas de colite não pode ser feita 1