Prolongamento da Onda F em Neuropatia Periférica
Significado Clínico
O prolongamento da onda F indica envolvimento proximal das fibras nervosas motoras, sugerindo uma polineuropatia desmielinizante ou axonal que afeta os segmentos proximais dos nervos periféricos, incluindo raízes nervosas e plexos. 1
O achado de onda F prolongada é particularmente significativo porque:
- Reflete disfunção ao longo de todo o trajeto do nervo motor, desde a medula espinhal até o músculo, sendo especialmente sensível para detectar anormalidades proximais que podem não ser evidentes nos estudos de condução nervosa padrão 2
- Em neuropatias axonais, os estudos de onda F são significativamente mais sensíveis do que os estudos de condução motora padrão para identificar anormalidades fisiológicas dos axônios motores 2
- A latência mínima prolongada da onda F, ou a ausência de ondas F em nervos com amplitude normal do potencial de ação muscular composto (CMAP), é altamente específica para a presença de desmielinização em pacientes com polineuropatia adquirida 2
Diagnóstico Diferencial Prioritário
Neuropatias Desmielinizantes Inflamatórias
A primeira consideração diagnóstica deve ser polineuropatia inflamatória desmielinizante crônica (CIDP), especialmente se houver:
- Latências de onda F significativamente prolongadas em múltiplos nervos, com cronodispersão aumentada nos nervos mediano e ulnar 3
- Padrão de envolvimento relativamente uniforme em múltiplos nervos testados, diferenciando de processos multifocais 1
- Progressão de fraqueza ou padrão clínico que não se encaixa em polineuropatia típica dependente de comprimento 4
Neuropatias Axonais
Em neuropatias axonais, o prolongamento da onda F pode ocorrer, mas geralmente é acompanhado por:
- Redução da amplitude dos potenciais de ação sensorial (SNAP) e CMAP, com preservação relativa das velocidades de condução 5
- Padrão dependente de comprimento com sintomas iniciando distalmente nos pés 1
Próximos Passos Diagnósticos
Avaliação Laboratorial Essencial
Deve-se realizar triagem abrangente para causas reversíveis, incluindo:
- Glicemia de jejum e HbA1c (mesmo com HbA1c normal prévia, reavaliar para diabetes ou pré-diabetes) 4
- Vitamina B12 e folato 4
- TSH e função tireoidiana 4
- Função renal e ureia (neuropatia urêmica) 1
- Eletroforese de proteínas séricas e imunofixação (paraproteinemias, mieloma múltiplo) 1
- HIV 4
Avaliação Neurológica Adicional
- Considerar consulta neurológica se houver incerteza diagnóstica, padrão assimétrico de sintomas, ou exame clínico normal apesar das queixas do paciente 5
- Avaliar para neuropatia de pequenas fibras se os estudos de condução nervosa convencionais forem normais, considerando biópsia de pele para densidade de fibras nervosas intraepidérmicas 1, 4
- Testes autonômicos (resposta simpática cutânea, variabilidade da frequência cardíaca) se houver suspeita de neuropatia autonômica 5
Parâmetros Adicionais da Onda F
Além da latência mínima, avaliar:
- Latência máxima da onda F (Fmax), que pode ser o parâmetro anormal mais frequente 6
- Cronodispersão da onda F, particularmente útil em nervos dos membros superiores na CIDP 3
- Persistência da onda F, especialmente nos nervos tibiais 3
- Relação de amplitude F/M média e velocidade de condução da onda F, úteis para discriminar gravidade 7
Abordagem Terapêutica
Tratamento Sintomático da Dor Neuropática
Iniciar com agentes de primeira linha:
- Duloxetina: iniciar com 30 mg/dia, titular para 60-120 mg/dia ao longo de 1-2 semanas 4
- Pregabalina: 150-600 mg/dia, ou Gabapentina: 1800-3600 mg/dia 4
- Antidepressivos tricíclicos (nortriptilina ou desipramina): iniciar com 10-25 mg ao deitar, titular para 75-150 mg/dia ao longo de 2-4 semanas 4
Agentes de segunda linha se os de primeira linha forem ineficazes:
- Tramadol ou outros analgésicos opioides para casos refratários 8
- Agentes tópicos para dor neuropática localizada 8
Tratamento Específico para CIDP (se confirmada)
- Imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese são os tratamentos de escolha 1
- Corticosteroides podem ser benéficos em neuropatia relacionada a inibidores de checkpoint imunológico 1
Monitoramento
- Exames neurológicos seriados são preferíveis a EMG repetida para monitorar neuropatia estável 4
- EMG repetida só é justificada quando há incerteza sobre processos neurológicos novos ou em piora 1
- Avaliar risco de quedas e fornecer dispositivos auxiliares apropriados se houver perda proprioceptiva significativa, ataxia sensorial ou pé caído 4
Armadilhas Comuns
- Não realizar estudos eletrodiagnósticos muito precocemente no curso da doença, pois estudos realizados na primeira semana do início dos sintomas podem ser normais em 30-34% dos pacientes, mesmo com doença desmielinizante ativa 1
- Estudos de condução nervosa normais não excluem neuropatia, especialmente neuropatia de pequenas fibras que afeta 79,6-91,4% das fibras nervosas periféricas 1
- Evitar solicitar EMG para neuropatia diabética típica com distribuição clássica em meia-luva, pois adiciona custo sem alterar o manejo 1