Manejo de Trombose Venosa Profunda Tibial Posterior Pós-Cirurgia Abdominal com História de Hemorragia Subaracnoide
Este paciente requer anticoagulação terapêutica imediata com heparina não fracionada intravenosa, iniciando após avaliação rigorosa do risco hemorrágico intracraniano, idealmente 48-72 horas após a cirurgia abdominal se a hemostasia cirúrgica estiver segura.
Avaliação Inicial Obrigatória
Determinar o tempo exato desde a hemorragia subaracnoide e desde a cirurgia abdominal:
- Se a hemorragia subaracnoide ocorreu há mais de 3 meses e não há evidência de aneurisma não tratado, o risco hemorrágico intracraniano é substancialmente reduzido 1
- Solicitar TC de crânio urgente para excluir sangramento ativo ou hidrocefalia 2
- Avaliar o sítio cirúrgico abdominal para sinais de sangramento ativo ou hematoma em expansão 3
Estratificação do risco hemorrágico:
- Pacientes com cirurgia abdominal maior há apenas 2 dias apresentam risco moderado a alto de sangramento (2-4%) 4
- História de hemorragia subaracnoide aumenta significativamente o risco de ressangramento intracraniano se anticoagulação for iniciada precocemente 3
- Avaliar estudos de coagulação basais, hemograma completo e função renal 4
Protocolo de Anticoagulação Escalonada
Primeiras 48-72 horas pós-cirurgia:
- Iniciar profilaxia mecânica imediatamente: meias de compressão graduada e compressão pneumática intermitente 3, 4
- Adiar anticoagulação farmacológica se houver qualquer evidência de sangramento cirúrgico ativo ou instabilidade hemodinâmica 3
- Monitorar rigorosamente sinais vitais, débito de drenos cirúrgicos e hemoglobina seriada 4
Após 48-72 horas (se hemostasia segura):
- Iniciar heparina não fracionada intravenosa em dose profilática (5.000 unidades subcutânea a cada 8-12 horas) 5
- A heparina não fracionada é preferível à heparina de baixo peso molecular porque pode ser rapidamente revertida se ocorrer sangramento 5
- Monitorar TTPa a cada 4 horas inicialmente, ajustando para 1,5-2,5 vezes o controle 5
Progressão para dose terapêutica (após 2-3 dias de dose profilática):
- Escalonar para heparina terapêutica: bolus inicial de 5.000 unidades IV, seguido de infusão contínua de 20.000-40.000 unidades/24 horas 5
- Objetivo de TTPa: 60-85 segundos (refletindo nível anti-Fator Xa de 0,35-0,70) 5
- Realizar TC de crânio de controle antes de escalonar para dose terapêutica se houver qualquer sintoma neurológico novo 3
Considerações Específicas para Trombose Tibial Posterior
Significância clínica da TVP distal:
- Trombose venosa tibial posterior isolada tem risco relativamente baixo de recorrência (1,9 eventos por 100 pessoas-ano) comparado à TVP proximal (10,3 eventos) 3
- Entretanto, este paciente tem múltiplos fatores de alto risco (cirurgia abdominal maior recente, imobilização, hipercoagulabilidade pós-operatória persistente por 30 dias) que justificam anticoagulação plena 3, 4
- Realizar ultrassom venoso seriado a cada 3-5 dias para monitorar extensão proximal 3
Indicações absolutas para anticoagulação terapêutica neste caso:
- Paciente hospitalizado com múltiplos fatores de risco para extensão 3
- Cirurgia abdominal maior (hipercoagulabilidade persiste por 30 dias) 3, 4
- Risco de síndrome pós-trombótica se não tratado adequadamente 6
Duração da Anticoagulação
Fase aguda hospitalar:
- Manter heparina IV até INR terapêutico (2,0-3,0) por >48 horas se transição para varfarina 5
- Alternativamente, transicionar para anticoagulante oral direto após 5-7 dias de heparina se função renal adequada 1
Profilaxia estendida pós-alta:
- Continuar anticoagulação por no mínimo 28-30 dias após cirurgia abdominal maior, dado o risco persistente de TEV 3, 4, 7
- Diretrizes da ASCO, ACCP, ASH e NICE recomendam profilaxia estendida para pacientes de alto risco pós-cirurgia abdominopélvica 3
- Após 30 dias, reavaliar necessidade de anticoagulação prolongada (geralmente 3 meses para TVP provocada) 3
Armadilhas Críticas a Evitar
Não subestimar o risco de extensão proximal:
- TVP distal em paciente hospitalizado pós-cirurgia maior tem risco significativo de progressão para veias proximais 3
- Monitoramento com ultrassom seriado é mandatório se anticoagulação for adiada 3
Não iniciar anticoagulação plena antes de 48-72 horas pós-cirurgia:
- Risco de sangramento cirúrgico é máximo nas primeiras 48-72 horas 1, 4
- Usar profilaxia mecânica agressiva neste período 3, 4
Não ignorar a história de hemorragia subaracnoide:
- Obter TC de crânio antes de iniciar anticoagulação terapêutica 3
- Se hemorragia subaracnoide foi recente (<3 meses) ou aneurisma não está tratado, considerar filtro de veia cava inferior temporário enquanto aguarda estabilização 1
- Pacientes com HSA e hidrocefalia requerendo DVE têm risco aumentado de TEV, mas também de complicações hemorrágicas 2
Não usar dose profilática padrão como tratamento definitivo:
- TVP sintomática requer anticoagulação terapêutica, não apenas profilática 3
- Dose profilática é apenas uma ponte temporária até que seja seguro escalonar 1, 4
Monitoramento Contínuo
- Hemoglobina e hematócrito diários durante anticoagulação 3
- Contagem plaquetária a cada 2-3 dias (vigilância para trombocitopenia induzida por heparina) 5
- Exame neurológico diário com baixo limiar para neuroimagem se alterações 3, 2
- Avaliação do sítio cirúrgico para hematoma ou sangramento 4
- Mobilização precoce assim que clinicamente viável (dentro de 24 horas se possível) 4