Analgesia Pós-Cirurgia de Gangrena Intestinal Secundária a Obstrução
A analgesia epidural torácica média (TEA) com anestésico local em baixa concentração combinado com opioide de curta ação, associada a paracetamol e AINEs intravenosos, é a estratégia analgésica superior para cirurgia abdominal aberta por gangrena intestinal, proporcionando melhor controle da dor, recuperação mais rápida da função intestinal e menor incidência de íleo paralítico. 1, 2, 3
Estratégia Analgésica Primária: Epidural Torácica Média
Técnica e Posicionamento
- A colocação epidural deve ser ao nível torácico médio (não torácico baixo), pois apenas o bloqueio torácico médio demonstra benefícios gastrointestinais significativos, incluindo retorno mais precoce de flatos, evacuação e tolerância à dieta oral 1
- Epidurais torácicas baixas não proporcionam os mesmos benefícios na função gastrointestinal 1
- A TEA oferece analgesia superior nas primeiras 72 horas pós-operatórias e recuperação mais precoce da função intestinal, desde que o paciente não esteja com sobrecarga hídrica 1, 2
Composição e Dosagem da Infusão Epidural
- Ropivacaína 0,125% com fentanil 1 μg/mL ou bupivacaína 0,125% com fentanil 1 μg/mL 2, 3, 4
- Taxa de infusão: 6-14 mL/hora (equivalente a 12-28 mg/hora de ropivacaína) 1, 4
- Usar concentrações baixas de anestésico local combinado com opioide de curta ação para minimizar bloqueio motor e hipotensão por bloqueio simpático 1
- Duração: mínimo 48-72 horas pós-operatórias, até o paciente ter evacuação 1, 2
Evidência de Eficácia
- Metanálises demonstram que epidural com anestésico local reduz o tempo para primeiro flato em 17,5 horas (SMD -1,28; IC 95% -1,71 a -0,86) 5
- Redução do tempo para primeira evacuação em 22 horas (SMD -0,67; IC 95% -0,86 a -0,47) 5
- Redução da dor ao movimento em 24 horas (SMD -0,89; IC 95% -1,08 a -0,70; equivalente a 2,5 pontos em escala 0-10) 5
Analgesia Multimodal Obrigatória
Adjuvantes Sistêmicos Essenciais
- Paracetamol IV 1 grama a cada 6 horas, iniciando 6 horas após cirurgia, continuando por 72 horas 1, 2, 3
- Ibuprofeno 800 mg IV a cada 6 horas (se não houver contraindicações) 2, 3
- A analgesia multimodal combinando técnicas regionais com anestésicos locais visa evitar opioides parenterais e seus efeitos colaterais 1
Papel Limitado dos Opioides
- Opioides devem ser reservados estritamente para dor refratária, não como analgesia primária 1, 2, 3
- Opioides exacerbam o íleo, retardam a recuperação da função intestinal e aumentam complicações 1, 3
- Se necessário, usar PCA (analgesia controlada pelo paciente) para titular a dose mínima 1
Considerações Especiais para Cirurgia de Emergência
Avaliação Pré-Epidural Obrigatória
- Avaliar presença de sepse e anormalidades de coagulação antes de colocar epidural ou raquianestesia 1
- Em cirurgia de emergência onde instabilidade hemodinâmica é comum, considerar usar apenas opioide na raquianestesia, omitindo o anestésico local para evitar bloqueio simpático e hipotensão vasodilatadora 1
- Bloqueios neuraxiais e cateteres devem ser colocados com cautela em pacientes com terapia anticoagulante concomitante ou sepse sistêmica 1
Manejo da Hipotensão
- Hipotensão induzida por bloqueio simpático deve ser tratada com vasopressores, desde que o paciente não esteja hipovolêmico 1
- Monitoramento adequado, volume e terapia vasopressora são necessários 1
Técnicas Analgésicas Alternativas
Quando TEA Não é Viável
- Bloqueio TAP (transversus abdominis plane) bilateral reduz significativamente o escore VAS em 12 horas pós-operatórias com efeito poupador de opioides 1, 2, 3
- Bloqueio de bainha dos retos é alternativa viável ao bloqueio TAP 3
- Considerar uso de cateteres de ferida e/ou bloqueios de parede abdominal para reduzir demanda de opioides, embora com eficácia variável 1
Infusão IV de Lidocaína
- Infusões perioperatórias de lidocaína IV podem diminuir dor pós-operatória, reduzir consumo de opioides e possivelmente diminuir tempo de internação, em parte pelo retorno mais precoce da função gastrointestinal 1
- Dose, tempo e duração ideais são incertos; monitoramento apropriado para efeitos tóxicos deve ser realizado 1
Infusão Subanestésica de Cetamina
- Doses de 0,1-0,5 mg/kg/h podem reduzir necessidade de opioides 1
- Taxas de infusão mais altas aumentam risco de alucinações e delirium; se ocorrerem, cessar por 1-2 horas e recomeçar em dose menor 1
Medidas Adjuvantes para Recuperação Intestinal
Intervenções Não-Farmacológicas
- Mascar chiclete imediatamente quando tolerado acelera retorno da função intestinal 1, 3
- Evitar sobrecarga hídrica durante e após cirurgia, pois prejudica função gastrointestinal 1
- Evitar descompressão nasogástrica, que pode prolongar íleo pós-operatório 1
Medicações Pró-Cinéticas
- Bisacodil 10 mg VO duas vezes ao dia desde o dia pré-operatório até o terceiro dia pós-operatório melhora função intestinal 1, 3
- Alvimopan (antagonista de receptor μ-opioide) acelera recuperação gastrointestinal quando se usa analgesia baseada em opioides 1
Armadilhas Críticas a Evitar
Erros Técnicos Comuns
- Não colocar epidurais torácicas baixas - não proporcionam benefícios gastrointestinais 1, 3
- Não usar opioides como analgesia primária - exacerbam íleo e retardam recuperação 1, 3
- Não usar TEA isoladamente sem adjuvantes sistêmicos (paracetamol, AINEs) 2, 3
- Não sobrecarregar pacientes com TEA com fluidos - prejudica função intestinal 1, 3
- Evitar via intramuscular para administração de analgésicos 1
Manejo de Cateter Vesical
- Drenagem vesical transuretral de rotina por 1-2 dias é recomendada 1
- O cateter vesical pode ser removido independentemente do uso ou duração da analgesia epidural torácica 1
- Não esquecer manejo do cateter vesical ao usar epidural 2, 3
Protocolo de Avaliação da Dor
Monitoramento Sistemático
- Avaliar dor usando escalas validadas (NRS, VAS) em repouso e com movimento a cada 4 horas inicialmente, depois a cada 6-8 horas 2, 3
- Reavaliar 30-60 minutos após cada intervenção 3
- Dor escalando pode indicar complicações (abscesso, deiscência anastomótica) e deve ser investigada, não apenas aumentar analgesia 3
Riscos e Complicações da TEA
Eventos Adversos Aumentados
- Maior risco de falha da técnica analgésica (RR 2,48; IC 95% 1,13-5,45) 6
- Aumento de prurido (RR 2,36; IC 95% 1,67-3,35) 6
- Episódios de hipotensão requerendo intervenção (RR 7,13; IC 95% 2,87-17,75) 6
- Auditoria nacional quantificou riscos e destacou segurança quando boas práticas são seguidas 1