Conduta e Hipótese Diagnóstica na Pancreatite Aguda
Para confirmar o diagnóstico de pancreatite aguda, solicite imediatamente lipase sérica (≥3 vezes o limite superior da normalidade) e realize ultrassonografia abdominal na admissão para identificar cálculos biliares, completando a investigação diagnóstica dentro de 48 horas. 1, 2
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico de pancreatite aguda é estabelecido quando pelo menos 2 dos 3 critérios estão presentes: 2
- Dor abdominal consistente com pancreatite
- Lipase ou amilase sérica ≥3 vezes o limite superior da normalidade
- Achados característicos em TC com contraste ou ressonância magnética
Exames Laboratoriais Iniciais
Lipase sérica é o teste de primeira linha preferencial (superior à amilase devido à maior sensibilidade e especificidade, especialmente na pancreatite alcoólica e apresentações tardias). 1, 2
- Limiar diagnóstico: Lipase ≥3 vezes o limite superior da normalidade 1, 2
- Se lipase indisponível, use amilase com limiar de ≥4 vezes o limite superior 1
- Elevações <3 vezes têm baixa especificidade e não são diagnósticas isoladamente 1
Armadilha importante: O grau de elevação enzimática NÃO se correlaciona com gravidade da doença—pacientes podem ter pancreatite grave com elevações modestas. 1 Não repita dosagens diárias de enzimas pancreáticas para monitoramento, pois não fornecem informação útil. 1
Investigação Etiológica (Admissão)
- Enzimas hepáticas (bilirrubinas, AST, ALT, fosfatase alcalina) - elevação precoce sugere etiologia biliar 2
- Triglicerídeos séricos - níveis >1000 mg/dL indicam pancreatite por hipertrigliceridemia 1, 2
- Cálcio sérico - para identificar hipercalcemia como fator precipitante 1, 2
Estratégia de Imagem
Exames Iniciais Obrigatórios
Ultrassonografia abdominal deve ser realizada em TODOS os pacientes na admissão para detectar cálculos biliares, dilatação de vias biliares e líquido peritoneal livre. 1, 2 A detecção precoce de cálculos é essencial para decidir sobre CPRE urgente em doença grave. 1
Limitação: O pâncreas é mal visualizado em 25-50% dos exames, limitando a capacidade de excluir pancreatite. 1
Radiografias de tórax e abdome devem ser obtidas rotineiramente para excluir condições alternativas potencialmente fatais (perfuração visceral, obstrução intestinal). 1, 2
Tomografia Computadorizada com Contraste
NÃO solicite TC rotineiramente nas primeiras 72 horas. 1, 2 A TC precoce subestima necrose pancreática e raramente altera o manejo inicial. 1
Indicações específicas para TC (após 72-96 horas do início dos sintomas): 1, 2
- Incerteza diagnóstica após avaliação clínica e bioquímica
- Doença grave prevista (APACHE II >8)
- Evidência de falência orgânica nas primeiras 72 horas
- Sinais de sepse ou deterioração clínica 6-10 dias após admissão 3
Estratificação de Gravidade
Avalie gravidade usando os seguintes parâmetros: 1, 2
- APACHE II ≥8 prediz doença grave 1, 2
- Proteína C-reativa >150 mg/L às 48 horas é o marcador laboratorial mais confiável para doença grave 1, 2
- Presença de falência orgânica (pulmonar, circulatória ou renal) define ataque grave 1, 2
- Procalcitonina é o teste mais sensível para detectar infecção pancreática; valores baixos predizem fortemente ausência de necrose infectada 3, 1
Escore de Glasgow ≥3 ou falência orgânica persistente após 48 horas também indicam gravidade. 3
Manejo Inicial por Gravidade
Pancreatite Leve
- Dieta geral regular, avançar conforme tolerado 3
- Controle da dor com medicações orais 3
- Monitoramento de sinais vitais de rotina 3
Pancreatite Moderadamente Grave
- Nutrição enteral (oral, sonda nasogástrica ou nasoentérica); se não tolerada, usar nutrição parenteral 3
- Analgesia intravenosa 3
- Hidratação venosa para manter hidratação 3
- Monitorar hematócrito, ureia, creatinina 3
- Monitoramento contínuo de sinais vitais 3
Pancreatite Grave
- Nutrição enteral (preferencial); se não tolerada, nutrição parenteral 3
- Analgesia intravenosa 3
- Reanimação volêmica precoce 3
- Ventilação mecânica se necessário 3
- Admissão em UTI sempre que possível 2
Antibioticoterapia
Antibióticos profiláticos de rotina NÃO são recomendados em pancreatite aguda, pois não reduzem significativamente mortalidade ou morbidade. 3
Antibióticos são indicados APENAS para tratar pancreatite aguda grave infectada. 3
Quando Suspeitar de Infecção
- Procalcitonina elevada 3
- Aspiração por agulha fina guiada por TC ou ultrassonografia endoscópica para Gram e cultura 3
Esquemas Empíricos (Função Renal Normal)
Pacientes imunocompetentes sem colonização por MDR: 3
- Meropenem 1g a cada 6h em infusão estendida, OU
- Doripenem 500mg a cada 8h em infusão estendida, OU
- Imipenem/cilastatina 500mg a cada 6h em infusão estendida
Pacientes com suspeita de MDR: 3
- Imipenem/cilastatina-relebactam 1,25g a cada 6h em infusão estendida, OU
- Meropenem/vaborbactam 2g/2g a cada 8h, OU
- Ceftazidima/avibactam 2,5g a cada 8h + Metronidazol 500mg a cada 8h
Alergia documentada a beta-lactâmicos: 3
- Eraviciclina 1mg/kg a cada 12h
Duração máxima: 7-14 dias se controle adequado da fonte 3
CPRE em Pancreatite Biliar
CPRE terapêutica urgente deve ser realizada o mais rápido possível em pacientes com pancreatite biliar aguda e obstrução do ducto biliar comum. 3
Situações Especiais
Em pacientes >40 anos com pancreatite inexplicada, realize TC ou ultrassonografia endoscópica para excluir malignidade pancreática subjacente, mesmo após episódio único. 1, 2
Ultrassonografia endoscópica (USE) é o teste preferencial para pancreatite idiopática, realizada 2-6 semanas após resolução, identificando etiologia em 29-88% dos pacientes. 1, 2
Antes de aceitar diagnóstico "idiopático", obtenha pelo menos dois exames de ultrassonografia abdominal de boa qualidade para procurar cálculos ocultos. 1, 2