Manejo Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca
Avaliação Inicial e Monitorização Hemodinâmica
A otimização hemodinâmica sistemática com monitorização do volume sistólico e balanço hídrico rigoroso deve ser implementada imediatamente no pós-operatório para reduzir complicações e tempo de internação hospitalar. 1
Monitorização Essencial
- Inicie monitorização hemodinâmica avançada imediatamente na chegada à UTI, incluindo avaliação do volume sistólico como parte da terapia guiada por objetivos (goal-directed therapy) 1
- Utilize ecocardiografia transesofágica (ETE) como primeira linha para avaliação imediata da função cardíaca, estado valvular e diferenciação entre disfunção ventricular direita, esquerda ou global 1, 2
- Implemente parâmetros dinâmicos para avaliar o estado volêmico ao invés de medidas estáticas como pressão venosa central ou pressão capilar pulmonar 1
- Considere cateter de artéria pulmonar após diagnóstico ecocardiográfico de disfunção ventricular direita para diferenciar entre hipertensão pulmonar e isquemia do VD 1, 2
- Monitore troponina cardíaca, lactato sérico e saturação venosa mista (SvO2) ou central (ScvO2) para detectar hipoperfusão tecidual e extração aumentada de oxigênio 1
Armadilhas Comuns na Monitorização
- Não confie apenas em medidas estáticas de pressão para guiar a reposição volêmica - use desafios de volume com avaliação dinâmica 1
- A disfunção ventricular direita está presente em aproximadamente 40% dos pacientes que desenvolvem choque pós-operatório - não subestime sua importância 2
- Mais de 20% dos pacientes apresentam disfunção cardiovascular aguda no período perioperatório 1
Ventilação Mecânica Protetora
Aplique estratégia de ventilação pulmonar protetora durante os períodos pré e pós-circulação extracorpórea, especialmente em pacientes com insuficiência respiratória aguda. 1
Parâmetros Ventilatórios
- Volume corrente baixo: 6-8 mL/kg do peso corporal ideal 1
- PEEP (pressão expiratória final positiva): aplicar níveis adequados considerando preocupações cirúrgicas relacionadas ao acesso ao campo operatório 1
- Manobras de recrutamento alveolar: devem ser realizadas levando em conta o risco de lesões pleurais/pulmonares 1
Evidência Sobre Ventilação Durante CEC
- O estudo PROVECS não demonstrou benefício da ventilação mantida durante a circulação extracorpórea na incidência de complicações pulmonares pós-operatórias 1
- O estudo MECANO não encontrou diferença em mortalidade, insuficiência respiratória precoce ou taxa de reintubação entre grupos com e sem ventilação durante CEC 1
Manejo Hemodinâmico e Reposição Volêmica
A otimização hemodinâmica é a única medida comprovadamente eficaz na prevenção de insuficiência renal aguda no pós-operatório de cirurgia cardíaca. 1
Estratégia de Reposição Volêmica
- Avalie repetidamente o estado volêmico através de medidas dinâmicas antes e após desafios de volume 1
- Coloides (73%) são mais utilizados que cristaloides (21,2%) na prática clínica alemã, embora ambos sejam aceitáveis 3
- Meta-análise com 699 pacientes demonstrou redução significativa de complicações pós-operatórias com otimização hemodinâmica (OR 0,33; IC 95% 0,15-0,73) 1
- Reduza o tempo de internação hospitalar através da otimização hemodinâmica, embora o impacto no tempo de UTI seja menos evidente 1
Armadilhas na Reposição Volêmica
- Exclua hipovolemia em pacientes sob vasopressores através de avaliações repetidas de volume 1, 2
- Não assuma que disfunção cardiovascular é exclusivamente cardíaca quando a volemia e função cardíaca estão normais - considere disfunção vascular 1, 2
Suporte Inotrópico e Vasopressor
Disfunção Miocárdica
Para disfunção miocárdica, considere as seguintes opções isoladamente ou em combinação: 1
- Dobutamina e epinefrina em doses baixas a moderadas são drogas de primeira escolha (41,8% e 30,9% respectivamente na prática alemã) 1, 3
- Milrinone (inibidor de fosfodiesterase III) diminui pressão capilar pulmonar e resistência vascular sistêmica enquanto aumenta volume sistólico com menos taquicardia que dobutamina 1, 2
- Levosimendana aumenta volume sistólico e frequência cardíaca enquanto diminui resistência vascular sistêmica 1, 2
Levosimendana: Evidência Específica
- Reduz tempo de extubação comparado à milrinone 1
- Comparado à dobutamina, levosimendana diminui incidência de fibrilação atrial pós-operatória, infarto do miocárdio, tempo de permanência na UTI, disfunção renal aguda, arritmias ventriculares e mortalidade no tratamento de disfunção ventricular esquerda 1
- Demonstra pouca alteração no consumo miocárdico de oxigênio (MVO2) e melhora o relaxamento cardíaco precoce após substituição valvar aórtica 1
- Dose única de 24 μg/kg durante 10 minutos administrada antes da CEC reduz tempo de extubação, permanência na UTI e concentrações de troponina I pós-operatória 1
- Meta-análise com 139 pacientes demonstrou que levosimendana reduz liberação de troponina cardíaca pós-operatória independentemente da CEC 1
Síndrome Vasoplégica
- Use norepinefrina para manter pressão de perfusão adequada em hipotensão induzida por vasoplegia 1, 2
- Avalie repetidamente o estado volêmico para garantir que o paciente não está hipovolêmico enquanto sob vasopressores 1, 2
Disfunção Ventricular Direita
- Reduza a pós-carga do VD pois o ventrículo direito isquêmico é muito sensível a aumentos de pós-carga 2
- Introduza cateter de artéria pulmonar após diagnóstico ecocardiográfico de falência do VD para diferenciar entre hipertensão pulmonar e isquemia do VD 2
Suporte Mecânico Circulatório
- Balão intra-aórtico (BIA) é altamente recomendado em disfunção cardíaca com suspeita de hipoperfusão coronariana 1, 2
- Considere dispositivo de assistência ventricular antes que disfunção de órgãos-alvo se torne evidente 1
- ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea) é uma solução elegante como ponte para recuperação e/ou tomada de decisão 1
Profilaxia de Fibrilação Atrial Pós-Operatória
Betabloqueadores são recomendados como terapia de primeira linha para profilaxia de fibrilação atrial após cirurgia cardíaca. 1
Recomendações Específicas
- Betabloqueadores (classe II de Vaughan-Williams): recomendação forte (força A, evidência razoável, benefício substancial) 1
- Sotalol (agente classe III): pode ser considerado mas está associado a maior toxicidade (força B, evidência boa, benefício intermediário) 1
- Amiodarona: deve ser considerada em pacientes individuais com contraindicação a betabloqueadores (força B, evidência boa, benefício intermediário) 1
- NÃO recomendado: antagonistas de canais de cálcio (verapamil e diltiazem), magnésio de rotina, ou digitálicos em monoterapia 1
Manejo de Arritmias Estabelecidas
- Betabloqueadores são primeira linha para controle de frequência em arritmias supraventriculares, incluindo fibrilação atrial 2
- Cardioversão elétrica está indicada em pacientes hemodinamicamente instáveis com arritmias 2
- Corrija causas subjacentes: anormalidades eletrolíticas e otimize oxigenação 2
- Considere marcapasso permanente antes da alta em disfunção do nó sinusal ou bloqueio atrioventricular pós-operatório novo com sintomas persistentes ou instabilidade hemodinâmica 2
Mobilização Precoce e Reabilitação
Inicie mobilização no primeiro dia pós-operatório para reduzir pneumonia, atelectasia e tempo de permanência na UTI. 4
Protocolo de Mobilização
- Mobilize pacientes no dia pós-operatório 1 independentemente do procedimento cirúrgico 4
- Remova drenos, cateteres e linhas assim que for seguro para facilitar a mobilização 4
- Inicie reabilitação multimodal abrangente dentro das primeiras 2 semanas, combinando fisioterapia cardiovascular, respiratória e de mobilização 4
- Continue reabilitação estruturada por 9-12 meses para pacientes retornando a atividades de alta demanda 4
Evidência de Benefício
- Reabilitação pós-operatória iniciada dentro de 8 semanas reduz mortalidade em médio e longo prazo (1 ano e 10 anos) 5, 4
- Mobilização precoce melhora capacidade física na alta hospitalar 4
- Combinação de pré-habilitação com reabilitação pós-operatória reduz complicações e tempo de internação (recomendação Grau 2+) 4
Armadilha Crítica
- Não confie apenas na reabilitação pós-operatória - apenas a combinação de reabilitação pré e pós-operatória demonstra benefícios em complicações e tempo de internação 5, 4
Profilaxia Antimicrobiana Perioperatória
Cefazolina é o antibiótico de escolha para profilaxia em cirurgia cardíaca, devendo ser descontinuada dentro de 24 horas após o procedimento na maioria dos casos. 6
Protocolo de Profilaxia
- Administre cefazolina pré-operatoriamente, intraoperatoriamente e pós-operatoriamente para reduzir infecções pós-operatórias 6
- Descontinue a profilaxia geralmente dentro de 24 horas após o procedimento cirúrgico 6
- Em cirurgias onde infecção seria particularmente devastadora (cirurgia cardíaca aberta e artroplastia protética), a profilaxia pode ser continuada por 3-5 dias após a cirurgia 6
Anticoagulação Perioperatória
Para trombose de válvula protética em pacientes hemodinamicamente estáveis com anticoagulação subterapêutica recente, use heparina intravenosa inicialmente. 2, 7
Dosagem de Heparina em Cirurgia Cardíaca
- Cirurgia com circulação extracorpórea: dose inicial não inferior a 150 unidades/kg de peso corporal 7
- Procedimentos estimados em menos de 60 minutos: frequentemente usa-se dose de 300 unidades/kg 7
- Procedimentos estimados em mais de 60 minutos: 400 unidades/kg 7
Monitorização da Anticoagulação
- Ajuste a dosagem de acordo com os resultados dos testes de coagulação do paciente 7
- TTPa (tempo de tromboplastina parcial ativada): dosagem adequada quando TTPa é 1,5 a 2 vezes o normal 7
- Monitore contagens de plaquetas, hematócrito e sangue oculto nas fezes periodicamente durante todo o curso da terapia com heparina 7
Classificação da Insuficiência Cardíaca Perioperatória
A classificação da insuficiência cardíaca no período perioperatório deve ser baseada no momento de ocorrência e gravidade hemodinâmica. 1
Momentos de Ocorrência
- Pré-cardiotomia: disfunção antes da cirurgia, pode requerer BIA pré-operatório 1
- Falha no desmame: incapacidade de sair da circulação extracorpórea 1
- Pós-cardiotomia: disfunção após a cirurgia 1
Perfis de Gravidade Hemodinâmica
- "Crash and burn": choque cardiogênico refratário (PAS <80 mmHg e/ou IC <1,8 L/min/m² apesar de tratamento máximo) 1
- Deterioração rápida: instabilidade hemodinâmica com necessidade de doses crescentes de inotrópicos e/ou BIA 1
- Estável mas dependente de inotrópicos: inotrópicos intravenosos e/ou BIA necessários para manter PAS >80 mmHg 1