Incontinência Fecal Indolor com Restos Alimentares: Diagnóstico e Manejo
Diagnóstico Mais Provável
Este paciente apresenta incontinência fecal por diarreia secundária a dismotilidade intestinal grave, provavelmente com trânsito intestinal acelerado e má absorção, evidenciado pela presença de restos alimentares não digeridos nas fezes. A ausência de dor sugere fortemente uma causa neuromiopática ao invés de obstrução mecânica 1.
Características Clínicas Diagnósticas
Achados que Confirmam Dismotilidade Intestinal
- Restos alimentares visíveis nas fezes indicam trânsito intestinal extremamente rápido com falha na digestão e absorção adequadas 1
- Ausência de dor é característica de dismotilidade de etiologia neurológica, ao contrário da obstrução mecânica que causa dor cólica 1
- Diarreia é o fator de risco mais importante para incontinência fecal (OR=53), sendo a causa dominante em estudos populacionais 2
Diferenciação de Outras Causas
Este quadro não é síndrome do intestino irritável, pois:
- SII requer dor abdominal associada à defecação 3
- Disfunção intestinal indolor não é classificada como SII 3
- Desnutrição significativa é rara em distúrbios funcionais como SII 3
Investigação Diagnóstica Obrigatória
Avaliação Inicial Essencial
Exame retal digital para excluir impactação fecal com diarreia de extravasamento, especialmente em idosos 1
- Impactação fecal pode apresentar-se com "diarreia" paradoxal
- Pacientes típicos têm problemas cognitivos, comportamentais ou neurológicos 1
Identificar causas reversíveis imediatamente 4:
Investigar má absorção de ácidos biliares 2:
- Comum em diarreia idiopática (25-33% dos casos)
- Especialmente após ressecção ileal (mesmo segmentos >5 cm)
- Teste SeHCAT ou 7α-hidroxi-4-colesten-3-ona sérico
Supercrescimento bacteriano intestinal (SIBO) 2:
- Contribui para urgência através de motilidade alterada e diarreia
- Tratamento empírico com antibióticos é aceitável 1
Investigações Especializadas (se disponíveis)
- Manometria do intestino delgado: confirma falha propulsiva, mostrando complexos motores migratórios (MMC) ausentes ou distorcidos 4
- Cintilografia: documenta trânsito acelerado de líquidos/sólidos 1
- Tomografia computadorizada: exclui obstrução mecânica (ausência de ponto de transição) 4
Manejo Terapêutico Estruturado
Etapa 1: Intervenções Imediatas (Primeiras 24-48 horas)
Suspender todos os opioides e anticolinérgicos imediatamente 4
- Para síndrome do intestino narcótico: substituir por medicamentos para dor neuropática, retirada controlada de opioides, considerar clonidina para sintomas de abstinência 4
Corrigir anormalidades eletrolíticas (particularmente hipocalemia) e endócrinas (hipotireoidismo) 4
Controlar a diarreia 1:
- Loperamida (agonista opioide): primeira linha
- Codeína fosfato ou difenoxilato: alternativas
- Ondansetrona (antagonista 5-HT3): especialmente útil em diarreia refratária
Etapa 2: Tratamento do Supercrescimento Bacteriano
Antibioticoterapia empírica é recomendada, pois SIBO é comum em dismotilidade 1:
- Amoxicilina-clavulanato
- Ciprofloxacino
- Metronidazol ou tinidazol
- Rifaximina (não absorvível, preferível)
Etapa 3: Suporte Nutricional (se desnutrição presente)
Escalada gradual conforme necessidade 1, 4:
- Suplementos orais/ajustes dietéticos
- Alimentação gástrica (se não houver vômitos)
- Alimentação jejunal via sonda nasojejunal → PEGJ ou jejunostomia direta se bem-sucedida
- Nutrição parenteral apenas se alimentação jejunal falhar
Armadilha comum: Evitar medicalização precoce (acesso enteral, cateteres) no início da doença 1
Etapa 4: Terapia Sintomática Direcionada
Tratar o sintoma mais incômodo usando o menor número de medicamentos possível 1:
- Para dor abdominal (se presente): antiespasmódicos anticolinérgicos em baixa dose 1
- Para distensão/náusea: evitar doses altas de ciclizina 1
- Para constipação alternada (se ocorrer): laxativos osmóticos (macrogol, lactulose) 1
É aceitável usar medicamentos com ações opostas quando cada um visa o sintoma predominante (por exemplo, procinéticos para constipação junto com anticolinérgicos para dor) 3
Considerações Cirúrgicas
Evitar cirurgia desnecessária 4:
- Múltiplas laparotomias são frequentemente realizadas antes do reconhecimento da dismotilidade, cada cirurgia aumentando aderências e piorando a condição
- Cirurgia reservada apenas para obstrução mecânica confirmada ou complicações que requerem intervenção
- Otimizar estado nutricional antes de qualquer procedimento 1
Equipe Multidisciplinar Necessária
Membros essenciais incluem 4:
- Gastroenterologista
- Fisiologista gastrointestinal
- Cirurgião gastrointestinal
- Especialista em dor
- Psiquiatra/psicólogo (suporte psiquiátrico é crucial)
- Equipe de suporte nutricional
- Radiologista e histopatologista
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não assumir SII em paciente com incontinência indolor e restos alimentares - isso sugere dismotilidade grave 3
- Não realizar colonoscopia de rotina a menos que haja sinais de alarme ou suspeita de colite microscópica 1
- Não escalar para intervenções nutricionais invasivas sem distúrbio bioquímico objetivo ou em pacientes com IMC normal/alto 3
- Não ignorar impactação fecal - sempre realizar toque retal 1
- Não continuar opioides - eles inibem a motilidade intestinal e perpetuam o problema 4, 2