Por que monitorar LDH em SMD com neutropenia febril quando se suspeita de progressão para LMA?
O acompanhamento seriado do LDH em pacientes com SMD e neutropenia febril é essencial porque elevações progressivas do LDH identificam precocemente a progressão da doença para categorias de maior risco ou transformação leucêmica, permitindo ajustes terapêuticos oportunos mesmo quando a contagem de blastos ainda não pode ser avaliada devido à neutropenia.
Fundamento Fisiopatológico
- O LDH sérico elevado reflete alta carga tumoral e apresentação clínica agressiva em neoplasias hematológicas, incluindo SMD em progressão 1, 2.
- Aumentos seriados do LDH precedem outros sinais de progressão da doença em 2 a 6 meses, incluindo o aparecimento de trombocitopenia ou blastos circulantes 3.
- Em análise multivariada, o aumento do LDH foi identificado como variável prognóstica independente para progressão de SMD 3.
Limitações Diagnósticas Durante Neutropenia Febril
- Os critérios padronizados de progressão de SMD dependem de avaliação da medula óssea para documentar aumento de blastos de ≥50% ou mudança para categoria FAB mais avançada 1.
- Durante neutropenia febril, a realização de aspirado e biópsia de medula óssea apresenta riscos aumentados de sangramento e infecção, especialmente se houver trombocitopenia concomitante.
- A neutropenia febril impede a avaliação confiável de blastos circulantes no sangue periférico, que é um dos critérios de progressão 1.
Algoritmo de Monitoramento do LDH
Fase Inicial (Diagnóstico de SMD)
- Medir LDH basal antes de qualquer transfusão de hemácias, pois o LDH tem valor prognóstico estabelecido no momento do diagnóstico 1.
- LDH elevado ao diagnóstico associa-se a maior probabilidade de evolução para LMA e menor sobrevida (P < 0,05) 3.
- O LDH deve ser medido junto com beta-2 microglobulina e ferritina na avaliação inicial para estratificação de risco 1.
Durante Acompanhamento (Paciente Estável)
- Determinar LDH a cada 3 meses em pacientes com SMD de baixo risco para detectar progressão precoce 3.
- Em pacientes que progrediram, os níveis de LDH nos dois períodos de 3 meses precedendo a progressão foram significativamente maiores comparados aos dois períodos iniciais de 3 meses (P < 0,005) 3.
Durante Neutropenia Febril com Suspeita de Progressão
- Medir LDH imediatamente ao apresentar neutropenia febril e comparar com valores basais recentes 3.
- Se LDH >2× o valor basal do paciente, considerar fortemente progressão da doença mesmo sem poder avaliar blastos medulares 3, 4.
- Repetir LDH a cada 48-72 horas durante o episódio febril para identificar tendência de elevação progressiva 3.
Interpretação de Elevações do LDH
- Elevações de LDH >10× o limite superior da normalidade têm mortalidade de 53% e indicam prognóstico grave 4.
- Normalização do LDH indica resposta ao tratamento; elevações persistentes indicam falha terapêutica em neoplasias hematológicas 4, 5.
- Em mieloma múltiplo (doença relacionada), LDH pode aumentar até 27× o normal com progressão e desenvolvimento de plasmocitomas extramedulares 5.
Armadilhas Clínicas Importantes
Causas Benignas de Elevação do LDH
- Hemólise in vitro pode elevar falsamente o LDH - repetir a dosagem se a amostra estiver hemolisada 2, 6.
- Transfusões de hemácias, fatores de crescimento, radioterapia e quimioterapia podem elevar transitoriamente o LDH 4.
- Doença hepática, infarto do miocárdio, doença renal e infecções são causas benignas de elevação 2.
- Exercício físico intenso pode elevar temporariamente o LDH por dano muscular 2.
Quando Não Atribuir Elevação do LDH à Progressão
- Medir LDH distante de tratamentos (quimioterapia, transfusões, G-CSF) para evitar interpretação errônea 4.
- Durante síndrome de lise tumoral, o LDH pode elevar transitoriamente - se aumentar entre dia 1 do ciclo 1 e dia 1 do ciclo 2, repetir no meio do ciclo 2 2.
- Avaliar função hepática (ALT, AST, fosfatase alcalina, bilirrubina total) quando LDH estiver levemente elevado (~1,5× LSN) 6.
Decisões Terapêuticas Baseadas no LDH
Quando o LDH Sugere Progressão Durante Neutropenia Febril
- Considerar intensificação do tratamento para SMD de alto risco com agentes hipometilantes (azacitidina categoria 1, decitabina) 1, 7.
- Avaliar elegibilidade para transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas, que é potencialmente curativo 1, 7.
- Planejar aspirado/biópsia de medula óssea assim que as condições clínicas permitirem para confirmar progressão e quantificar blastos 1.
Contexto de Risco de Síndrome de Lise Tumoral
- Carga tumoral refletida pelo LDH sérico é o principal preditor para desenvolvimento de síndrome de lise tumoral 2.
- Medir ácido úrico sérico junto com LDH em pacientes com alta carga tumoral para avaliar risco de lise tumoral espontânea 2.
Integração com Outros Marcadores
- O LDH não deve ser usado isoladamente - combinar com marcadores específicos da doença (beta-2 microglobulina, ferritina) 2.
- Monitorar hemograma completo para detectar piora das citopenias (queda de ≥50% em granulócitos/plaquetas ou redução de ≥2 g/dL na hemoglobina) 1.
- Documentar dependência transfusional, que é critério de progressão 1.