Tratamento da Epistaxe em Ambiente Hospitalar
O tratamento hospitalar da epistaxe deve iniciar com compressão nasal firme e contínua por 10-15 minutos no terço inferior do nariz, seguida de vasoconstritores tópicos se o sangramento persistir, reservando o tamponamento nasal apenas para falha dessas medidas ou sangramento com risco de vida. 1
Avaliação Inicial e Estratificação de Risco
Posicionamento e Estabilização:
- Posicione o paciente sentado com a cabeça levemente inclinada para frente para prevenir aspiração ou deglutição de sangue 1
- Instrua o paciente a respirar pela boca e cuspir o sangue ao invés de engolir 1
- Avalie imediatamente a estabilidade hemodinâmica (sinais vitais, estado mental, permeabilidade das vias aéreas) 1
Documentação de Fatores de Risco Críticos:
- História pessoal ou familiar de distúrbios de coagulação (doença de von Willebrand, hemofilia) 1
- Uso de anticoagulantes (varfarina, apixabana, rivaroxabana, dabigatrana) ou antiplaquetários (aspirina, clopidogrel) 1
- Duração do sangramento, hospitalizações prévias por epistaxe, e uso de drogas intranasais 1
- Obtenha pressão arterial basal, pois aproximadamente 33% dos pacientes com epistaxe têm hipertensão não diagnosticada 1
Tratamento de Primeira Linha
Compressão Nasal (Medida Mais Importante)
A compressão nasal firme e contínua resolve a grande maioria dos casos de epistaxe anterior. 1
- Aplique pressão firme e sustentada no terço inferior mole do nariz por 10-15 minutos completos sem verificar se o sangramento parou 1
- A liberação prematura da pressão é a causa mais comum de falha terapêutica 1
- A compressão pode ser realizada pelo paciente, cuidador ou clínico 2
Vasoconstritores Tópicos
Se a compressão isolada for insuficiente após 10-15 minutos:
- Limpe a cavidade nasal de coágulos por sucção ou assoar suave 1
- Aplique vasoconstritor tópico (oximetazolina ou fenilefrina) - 2 sprays na narina sangrante 1
- Os vasoconstritores param o sangramento em 65-75% dos casos atendidos no departamento de emergência 1, 3
- Retome compressão firme por mais 5-10 minutos 1
Precauções com Vasoconstritores:
- Evite uso repetido ou prolongado, pois pode precipitar rinite medicamentosa 1
- Use com cautela em pacientes hipertensos ou com risco cardiovascular aumentado 1
Identificação do Sítio de Sangramento
Após controle inicial:
- Realize rinoscopia anterior após remoção de coágulos para identificar o ponto de sangramento 1
- Se a rinoscopia anterior não identificar a fonte ou o sangramento for difícil de controlar, proceda à endoscopia nasal, que localiza o sítio em 87-93% dos casos 1, 3
Cauterização (Quando Identificado Ponto Focal)
- Anestesie o local com lidocaína tópica antes da cauterização 1
- Limite a aplicação da cauterização estritamente ao ponto de sangramento ativo 1
- NUNCA realize cauterização septal bilateral simultânea - isso aumenta marcadamente o risco de perfuração septal 1
- A eletrocauterização é mais efetiva com menos recorrências (14,5%) comparada à cauterização química (35,1%) 1, 3
Indicações para Tamponamento Nasal
Proceda ao tamponamento nasal SOMENTE quando: 1
- Sangramento persiste após 15-30 minutos de compressão adequada combinada com vasoconstritores
- Hemorragia com risco de vida está presente
- Suspeita de fonte de sangramento posterior
Seleção do Material de Tamponamento
Para pacientes em uso de anticoagulantes ou antiplaquetários:
- Use EXCLUSIVAMENTE materiais absorvíveis (Nasopore, Surgicel, Floseal) para minimizar trauma na remoção 2, 1, 4
- Materiais não-absorvíveis devem ser evitados nesta população 1
Para pacientes sem fatores de risco hemorrágico:
- Podem ser utilizados materiais absorvíveis ou não-absorvíveis 1
Educação Pós-Tamponamento:
- Informe o tipo de tamponamento colocado 1
- Explique o tempo e plano de remoção (se não-absorvível) 1
- Oriente sobre cuidados pós-procedimento e sinais de alerta 2, 1
- Instrua aplicação frequente de spray salino para manter o tamponamento úmido 1
Manejo de Anticoagulação
Princípio Fundamental: Na ausência de sangramento com risco de vida, inicie tratamentos locais de primeira linha ANTES de transfusão, reversão de anticoagulação ou suspensão de medicações antitrombóticas. 2, 1, 4
Pacientes Hemodinamicamente Estáveis
- NÃO suspenda anticoagulantes ou antiplaquetários para epistaxe não-ameaçadora à vida 1, 4
- O controle local é preferível porque a reversão sistêmica carrega riscos associados à exposição a plasma, crioprecipitado e transfusão de plaquetas 1
Reversão para Sangramento com Risco de Vida
Apenas quando houver hemorragia maciça, instabilidade hemodinâmica ou comprometimento de vias aéreas: 1
- Varfarina: Plasma fresco congelado, concentrado de complexo protrombínico de 4 fatores (PCC), vitamina K - o PCC de 4 fatores fornece correção mais rápida do INR 1
- Heparina não-fracionada/HBPM: Sulfato de protamina 1
- Anticoagulantes orais diretos (dabigatrana, apixabana, rivaroxabana): PCC de 4 fatores; idarucizumabe especificamente para dabigatrana 1
- Inibidores plaquetários: Transfusão de plaquetas 1
Sinais de Alerta Exigindo Escalada Imediata
Encaminhe imediatamente para otorrinolaringologia se: 1
- Sangramento ativo apesar de tamponamento corretamente posicionado
- Instabilidade hemodinâmica (taquicardia, hipotensão)
- Febre > 38,3°C (101°F)
- Novos distúrbios visuais
- Tontura ou outros sinais de perda sanguínea significativa
Opções Cirúrgicas e Intervencionistas
Para sangramento persistente ou recorrente não controlado por tamponamento ou cauterização:
- Avalie candidatura para ligadura arterial cirúrgica ou embolização endovascular 2, 1
- A ligadura endoscópica da artéria esfenopalatina tem taxa de sucesso de 97% versus 62% do tamponamento convencional 1, 3
- A embolização endovascular tem taxa de sucesso de 80% com recorrência < 10% comparada a 50% do tamponamento nasal 1, 3
Prevenção de Recorrência
Após controle do sangramento:
- Aplique vaselina ou agentes lubrificantes na mucosa nasal 2-3 vezes ao dia 1
- Prescreva sprays nasais salinos para uso frequente ao longo do dia 1
- Recomende uso de umidificador em ambientes secos 1
- Oriente evitar manipulação nasal, assoar vigoroso e uso de descongestionantes nasais por 7-10 dias 1
Avaliação para Patologia Subjacente
Considere investigação adicional em:
- Epistaxe bilateral recorrente ou história familiar de sangramentos recorrentes - avalie para telangiectasia hemorrágica hereditária (THH) verificando telangiectasias nasais/orais 2, 1
- Sangramento recorrente apesar de tratamento adequado - realize endoscopia nasal para excluir patologia não reconhecida 1
Documentação e Seguimento
- Documente desfechos do tratamento dentro de 30 dias para pacientes tratados com tamponamento não-absorvível, ligadura arterial ou embolização 1
- Seguimento de rotina é recomendado para pacientes submetidos a tratamentos invasivos para avaliar complicações e sangramento recorrente 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Tempo de compressão insuficiente - mantenha por 10-15 minutos completos sem verificar 1
- Liberação prematura da pressão - causa mais comum de falha 1
- Cauterização septal bilateral simultânea - risco marcadamente aumentado de perfuração 1
- Suspensão prematura de anticoagulantes - a maioria dos casos resolve com medidas locais 4
- Uso de materiais não-absorvíveis em pacientes anticoagulados - aumenta trauma na remoção 1
- Atraso na avaliação endoscópica - após múltiplas falhas de tamponamento, proceda prontamente à endoscopia 1